Principais pontos
- Entre os prefixados, o vencimento 2032 recuou de 14,34% no fechamento de terça-feira para 14,30% nesta manhã.
- O PIB sem agropecuária caiu 0,1% no mês, e o dado de junho foi revisado para pior, de -0,64% para -0,88%.
- Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, avalia que o resultado veio pior até do que a projeção do próprio banco, de -0,10%.
- Se confirmado, o cenário de Fed subindo e Copom cortando no mesmo dia estreita ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, fator que o mercado acompanha de perto pelo efeito potencial sobre o real e sobre o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira.
O Tesouro Direto abriu a quarta-feira (16) com taxas em leve recuo, num dia de decisão dupla de juros: o Copom (Comitê de Política Monetária) no Brasil e o Federal Reserve nos Estados Unidos. O gatilho foi o IBC-Br de julho, índice do Banco Central que funciona como prévia mensal do PIB (Produto Interno Bruto), que recuou 0,22% frente a junho, já livre de efeitos sazonais — abaixo do consenso de -0,20%. O número reforça a leitura de desaceleração da economia que sustenta a expectativa de mais um corte da Selic na noite de hoje.
Entre os prefixados, o vencimento 2032 recuou de 14,34% no fechamento de terça-feira para 14,30% nesta manhã. O Prefixado com Juros Semestrais 2037 caiu de 14,41% para 14,37%, e o Prefixado 2029 foi de 13,92% para 13,89%. Nos papéis atrelados à inflação, o IPCA+ com Juros Semestrais 2060 e o IPCA+ 2050 empataram nas maiores quedas, ambas de 5 pontos-base — cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual —, recuando de 7,26% para 7,21% e de 7,28% para 7,23%, respectivamente.
| Título | Fechamento (terça) | Manhã (quarta) | Variação |
|---|---|---|---|
| Prefixado 2029 | 13,92% | 13,89% | -3 pb |
| Prefixado 2032 | 14,34% | 14,30% | -4 pb |
| Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 14,41% | 14,37% | -4 pb |
| IPCA+ 2050 | 7,28% | 7,23% | -5 pb |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2060 | 7,26% | 7,21% | -5 pb |
O carrego que já encurtou o terceiro trimestre
O dado mais revelador do dia não aparece no título do indicador: o carrego estatístico do terceiro trimestre já está negativo, em -0,7%. O conceito mede o arrasto que um período herda do ritmo do trimestre anterior. Com ele negativo, a economia precisa crescer apenas para empatar o resultado que já está contratado. A leitura é que, mantido o passo atual da atividade, o trimestre tende a encerrar no vermelho.
O retrato de julho ficou mais fraco em quase todos os componentes: agropecuária com queda de 1,2%, indústria com baixa de 0,4%, impostos com retração de 0,2% e serviços estáveis. O PIB sem agropecuária caiu 0,1% no mês, e o dado de junho foi revisado para pior, de -0,64% para -0,88%.
Goldman e XP: mesma direção, magnitudes diferentes
Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, avalia que o resultado veio pior até do que a projeção do próprio banco, de -0,10%. A instituição projeta crescimento de 1,2% para 2026. A XP caminha na mesma direção, mas com magnitude distinta: reforça projeção de 1,7% para 2026 e estima apenas 1,0% para 2027, com riscos concentrados para baixo. A casa atribui o quadro ao efeito das condições monetárias apertadas e ao peso elevado do serviço da dívida sobre as famílias, cada vez mais visível nos dados de alta frequência.
Estímulo fiscal de um lado, crédito caro do outro
Ramos pondera que a atividade tende a seguir sustentada por transferências fiscais a famílias de baixa renda, expansão da renda disponível, programas de crédito consignado, aumento do teto de isenção do imposto de renda e outras medidas de estímulo fiscal e creditício antes das eleições do quarto trimestre. Na direção oposta pesam condições monetárias e financeiras apertadas, inflação em alta, endividamento elevado das famílias e um mercado de trabalho com pouca margem de folga — desemprego abaixo da Nairu (a taxa que não acelera a inflação) e hiato do produto em território positivo.
Copom corta, Fed sobe: o diferencial em jogo
O Copom encerra hoje a reunião iniciada na terça, com decisão prevista para a noite. A expectativa do mercado é de corte de 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano. No mesmo dia, o Federal Reserve decide, e a ferramenta CME FedWatch indica cerca de 93% de chance de alta de 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4,00% — seria a primeira elevação desde julho de 2023.
Se confirmado, o cenário de Fed subindo e Copom cortando no mesmo dia estreita ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, fator que o mercado acompanha de perto pelo efeito potencial sobre o real e sobre o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira.
Para quem mantém exposição a renda fixa doméstica, o movimento altera o custo de oportunidade: taxas prefixadas e de inflação em queda reduzem o retorno contratado de novas aplicações em títulos públicos, e um diferencial menor de juros tende a diminuir o prêmio relativo que historicamente atrai capital externo. Nada disso antecipa o rumo das próximas sessões — a reação da curva do Tesouro costuma se concentrar na comunicação das duas autoridades monetárias, e não no dado de atividade isolado.
As duas decisões saem no mesmo dia e serão acompanhadas em conjunto por quem opera juros, câmbio e bolsa no Brasil.
