O anúncio de trégua por duas semanas entre Estados Unidos e Irã, na noite de terça-feira (7), gerou uma das maiores reversões de preços de ativos em um único dia desde a pandemia, com o petróleo Brent caindo 13% para US$ 94,6 por barril na quarta-feira, mas revertendo com alta de 2,9% na quinta-feira (9) após acusações de violação do acordo por Teerã.

Renda fixa pós-fixada reforça atratividade defensiva

A classe de renda fixa pós-fixada, como CDBs (Certificados de Depósito Bancário) atrelados ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e títulos do Tesouro Selic, desponta como opção predominante entre análises de instituições financeiras. Com a taxa Selic em 14,75% ao ano após redução de 0,25 ponto percentual pelo Copom (Comitê de Política Monetária) em março, o carregamento dessa categoria mantém patamar elevado. O Santander sugere alocação de 67% em pós-fixados para perfis conservadores, enquanto a XP Investimentos posiciona acima do neutro nessa classe pelo caráter defensivo em meio à instabilidade geopolítica. CDBs pós-fixados alcançaram até 115% do CDI em plataformas como a da XP nesta semana.

Prefixados e IPCA+ com viés positivo limitado

Para prefixados, a XP Investimentos adota stance acima do neutro, com duration (sensibilidade da duração dos títulos às variações de juros) recomendada próxima a quatro anos, atraída por prêmios de fechamento de juros em taxas nominais acima de 14% para vencimentos a partir de cinco anos, apesar da volatilidade esperada no curto prazo. O Santander vê nesses papéis chance de fixar remunerações favoráveis para os próximos anos. Nos títulos indexados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a XP indica duration em torno de seis anos, notando elevação na inflação implícita da curva de juros devido ao choque nos preços do petróleo, sobretudo em prazos curtos e médios. O Santander enfatiza o papel do IPCA+ nesse ambiente de pressão energética. Globalmente, o UBS orienta para vencimentos curtos a médios com duration média de quatro anos, e o Goldman Sachs aponta bonds (títulos de dívida) de alta qualidade nos EUA, com probabilidade de cortes pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) em 2026 subindo de 14% para 43% logo após o anúncio da trégua, antes de recuar.

Renda variável brasileira ganha com composição setorial

O Ibovespa (principal índice da B3, bolsa brasileira) atingiu recorde de 192.201 pontos na quarta-feira, com valorização anual de 16,35%, superando índices globais, e avançou para 195.000 pontos pela primeira vez na quinta-feira. Essa resiliência decorre do peso de commodities e energia no índice, favorecendo o Brasil em contexto de petróleo elevado. A XP Investimentos mantém posição próxima ao neutro para renda variável doméstica, com viés construtivo e cauteloso. O Banco Safra estima Ibovespa em 198.000 pontos ao fim do ano e prioriza ações geradoras de dividendos, cuja carteira própria rendeu 44,6% em 12 meses. Externamente, o S&P 500 cai cerca de 7% no ano, impulsionado por contração de múltiplos Preço/Lucro a quase 14%, sem perdas acentuadas nos lucros corporativos, conforme XP.

Ouro preserva função de proteção

O metal precioso avançou 2,3% na quarta-feira para US$ 4.810 por onça, mas fica 10% abaixo do pico de 2 de março. O UBS projeta US$ 5.900 por onça até o fim do ano, apoiado em juros reais menores, riscos fiscais e tensões geopolíticas. JPMorgan estima US$ 6.300 e Deutsche Bank, US$ 6.000. A BlackRock observa que, durante o conflito, ouro e títulos não atuaram como hedges tradicionais, reforçando a diversificação ampla de portfólios.

Fundos listados e estratégias alternativas em foco

A XP Investimentos ampliou exposição a fundos listados em carteiras moderada e sofisticada, reduzindo multimercados em 2,5 pontos percentuais em todas as políticas, graças à baixa correlação dos FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) com choques globais e resiliência local. O Itaú BBA prefere FIIs de papel (baseados em recebíveis indexados ao CDI) em abril, dado o patamar elevado de juros e incertezas inflacionárias. O BTG Pactual ajustou carteira de ETFs (Exchange Traded Funds, fundos negociados em bolsa) para abril com viés defensivo: maior peso em renda fixa, bonds inflacionários, corte em ações globais e elevação em commodities. A casa destaca superciclo em gastos de defesa, com orçamento dos EUA podendo crescer 60% até 2027, sugerindo ETFs temáticos nessa área como tese de longo prazo.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física brasileiro, o episódio reforça a assimetria inflacionária de curto prazo pelo petróleo, potencialmente retardando o ciclo de cortes da Selic além do precificado pelo mercado. A mediana do Relatório Focus para IPCA em 2026 avançou de 3,91% no fim de fevereiro para 4,36% no primeiro boletim de abril, e o Banco Central condicionou sua política aos desdobramentos do conflito. No cenário otimista de normalização rápida do Estreito de Ormuz em um mês, com Brent entre US$ 80 e US$ 90, ações cíclicas poderiam liderar; em restrições prolongadas, prioriza-se qualidade e saúde financeira; em fechamento estendido, proteção ganha força, conforme Morgan Stanley. O Goldman Sachs estima 30% de chance de recessão nos EUA, demandando monitoramento de fluxos no Golfo Pérsico (apenas quatro navios passaram no primeiro dia da trégua contra centenas antes, com 187 petroleiros retidos carregando 172 milhões de barris).

Riscos a monitorar

  • Acusações iranianas de violação de três cláusulas do acordo, revertendo quedas no petróleo.
  • Restrições no Estreito de Ormuz, com tráfego condicionado à coordenação com forças iranianas.
  • Impactos permanentes nas cadeias de suprimento energético e prêmios de risco, segundo XP.
  • Posições iniciais díspares nas negociações: EUA querem limites nucleares; Irã exige fim de sanções, retirada de tropas americanas e cessar-fogo com aliados regionais.
  • Falta de condições para fundo duradouro em bolsas, como melhora no petróleo, redução de vendas a descoberto e dados macro robustos.

Reuniões entre delegações americana e iraniana ocorrem nesta sexta-feira (10) em Islamabade, com mediação paquistanesa, podendo definir o fluxo pelo Estreito de Ormuz. Israel abriu canal de diálogo apesar de ressalvas iniciais ao acordo. O petróleo permanece termômetro chave, e o Banco Central monitorará desdobramentos para calibração da Selic.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.