Os mercados globais assistem a um novo capítulo na guerra comercial liderada pelos Estados Unidos. Mesmo sem o aval judicial para ampliação de tarifas sob a Seção 232 da Lei do Comércio, o governo Trump ativou dois instrumentos jurídicos pouco explorados: as Seções 122 e 301 do Trade Act de 1974. Essas cláusulas, que permitem a imposição de barreiras sob alegações de ameaças à segurança nacional ou práticas comerciais desleais, colocam novamente à prova a estabilidade das relações internacionais e os fluxos de capital entre economias emergentes e o centro financeiro global.

As bases jurídicas que sustentam a estratégia

A Seção 122 do Trade Act autoriza tarifas sobre produtos cuja importação coloque em risco a segurança nacional, enquanto a Seção 301 permite retaliar países considerados responsáveis por condutas comerciais injustas. Segundo documentos analisados pela InfoMoney, o executivo norte-americano vinha preparando desde 2023 cenários alternativos para driblar eventuais obstáculos judiciais, criando mecanismos de pressão sobre China, União Europeia e até mesmo aliados como Canadá e México. A estratégia inclui planos de contingência que podem afetar diretamente setores sensíveis, como tecnologia, energia e commodities agrícolas.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor brasileiro, o aumento da volatilidade no Ibovespa e na taxa de câmbio torna-se quase inevitável. O Brasil, principal exportador latino-americano de soja, carnes e minério de ferro para os EUA, enfrenta risco de represálias comerciais indiretas caso as cadeias de suprimentos globais sejam disruptadas. Ativos de empresas exportadoras listadas na B3 (como JBS e Vale) podem ser afetados por mudanças nas alíquotas ou pela valorização do real frente ao dólar, que reduz margens operacionais. Além disso, eventuais pressões inflacionárias globais provenientes do aumento de custos de importação devem impactar o mercado de juros no Brasil, influenciando decisões do Copom sobre a Selic e, por arrasto, as estratégias de investimento em renda fixa.

Na ponta oposta, setores como petroquímicos e aço, que competem com fornecedores estrangeiros, poderiam teoricamente se beneficiar da proteção tarifária. Porém, o risco de retaliação chinesa ou europeia a produtos processados brasileiros equilibra o cenário, exigindo uma análise criteriosa antes de qualquer movimentação no portfólio. O comportamento do dólar no balcão e do spread entre LTNs e NTN-Bs será determinante para direcionar alocações entre renda fixa e ativos cambiais.

A perspectiva de um governo Trump com poderes tarifários ampliados reacende discussões sobre diversificação geográfica nas carteiras. Investidores individuais devem monitorar a evolução dos acordos comerciais do MERCOSUL e os desdobramentos da negociação entre União Europeia e Brasil no âmbito do acordo Mercosul-UE. Em cenário de tensões comerciais prolongadas, a busca por ativos com menor exposição externa, como empresas de serviços ou infraestrutura doméstica, pode ganhar protagonismo na Bovespa.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem do InfoMoney. O conteúdo não constitui recomendação de investimento.