A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 consolidou a desaceleração no varejo nacional. O lucro por ação (EPS, métrica que indica o lucro gerado por cada papel) do Ibovespa avançou apenas 3% na comparação anual, retração relevante frente aos 12% do mesmo intervalo em 2025. A deterioração iniciada no 4T25 persiste, espelhando um ambiente macroeconômico desafiador que pressiona margens e encarece o custo da dívida corporativa frente ao CDI.

Dinâmica do Varejo Discricionário

A XP Investimentos aponta relativa resistência na receita de varejistas, mas com evidente queda na qualidade dos lucros. Mesmo as surpresas positivas operam com rentabilidade historicamente baixa. O Bank of America reforça que o varejo discricionário — segmento de bens não essenciais, altamente sensível à renda disponível — enfrenta vendas mornas, compressão de margens e elevação de despesas financeiras. Incertezas regulatórias, como possíveis mudanças na legislação trabalhista e os efeitos iniciais da chamada "taxa das blusinhas" (revogada em maio), agravaram o quadro. A Azzas (AZZA3) ficou abaixo da média, com receita bruta desacelerando para 13,8% na base anualizada. Já a Lojas Renner (LREN3) superou o consenso (média aritmética das projeções das casas de análise) devido a margens brutas mais sólidas e aproveitamento estratégico de créditos tributários. A Alpargatas (ALPA4) também surpreendeu pelo rigor no controle de custos e ganhos de produtividade.

Farmácias em Evidência

O varejo farmacêutico se destacou como polo de resiliência e alocação de capital. O Banco Safra registra crescimento consistente de vendas em mesmas lojas, ganhos de margem e melhora tangível na geração de caixa livre. A tendência é sustentada pela demanda estrutural por análogos de GLP-1 (classe de fármacos revolucionários para controle de diabetes e obesidade) e por eficiências operacionais. A Raia Drogasil (RADL3) lidera o setor com o balanço mais sólido do período, combinando evolução nas vendas, rentabilidade aprimorada e disciplina financeira. A Pague Menos (PGMN3) também bateu estimativas de lucro operacional e líquido, alavancada pela maior participação de medicamentos para obesidade no mix de vendas e pelo avanço consistente da margem bruta.

Panorama Agregado e Disparidade Setorial

A análise consolidada dos balanços sob acompanhamento da XP mostra receitas líquidas 0,3% abaixo do esperado. A surpresa no Ebitda (sigla para Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização, principal indicador de geração de caixa operacional antes de alavancagem e tributos) foi negativa em -2,1%, enquanto o lucro líquido trouxe leve surpresa positiva de +0,2%. A tabela abaixo sintetiza a evolução dos agregados do Ibovespa:

Indicador1T20261T2025
Crescimento de Receita7%6%
Crescimento de EBITDA10%11%
Crescimento de EPS3%12%

No recorte setorial, a Indústria liderou as decepções de resultados, enquanto Utilities (setor de serviços essenciais como energia elétrica e saneamento) apresentou os melhores desempenhos, resiliente aos ciclos de consumo.

O que isso significa para o investidor

A clivagem entre o varejo geral e as farmácias reflete uma readequação estrutural do consumo das famílias brasileiras. Em ciclos de juros restritivos e poder de compra comprimido pela inflação, o capital tende a migrar para setores defensivos e bens essenciais. A manutenção da taxa Selic em patamares elevados segue pressionando as alavancas das empresas, tornando imperativo monitorar o fluxo de caixa livre e a capacidade de repasse de custos. A seletividade na alocação de recursos continua sendo a estratégia mais assertiva para navegar a volatilidade e identificar companhias com governança e eficiência operacional comprovadas.

Fatores de Risco

  • Volatilidade na curva de juros e incertezas macroeconômicas que elevam o custo do capital e impactam o CDI.
  • Impacto de mudanças na regulação trabalhista sobre a folha de pagamento e a competitividade corporativa.
  • Pressão competitiva e sobre as margens operacionais no varejo discricionário caso a demanda doméstica não se recupere.
  • Dependência do mix de produtos e da cadeia de suprimentos de análogos GLP-1 no setor farmacêutico.

Perspectivas e Próximos Passos

O mercado direcionará o foco para a temporada do segundo trimestre de 2026, buscando sinais de estabilização nas margens do varejo e a sustentabilidade do crescimento no segmento de saúde. A reação das companhias aos novos parâmetros fiscais e a evolução do crédito ao consumidor definirão o ritmo de recuperação dos balanços no segundo semestre.