Os mercados emergentes enfrentaram na terça-feira as maiores quedas em anos tanto em índices de ações quanto em moedas, impulsionadas pelo conflito no Irã envolvendo Estados Unidos e Israel, que elevou temores de inflação renovada e questionou apostas em reduções de juros globais, com o índice de ações de emergentes caindo mais de 4%, pior recuo desde as tarifas impostas por Donald Trump em abril do ano passado.

Movimentações intensas nas moedas de emergentes

A aversão ao risco se materializou com desvalorizações acentuadas em divisas sensíveis a energia. O won sul-coreano registrou o patamar mais baixo frente ao dólar desde 2009, após reabertura pós-feriado local, enquanto o dólar chegou a avançar mais de 1,2% antes de moderar. Países dependentes de importações energéticas, como Chile e Hungria, viram suas moedas recuarem mais de 2,5% cada, refletindo a disparada do petróleo. O índice de referência da MSCI Inc. para moedas de emergentes (Índice MSCI de Moedas Emergentes, que acompanha o desempenho relativo dessas divisas) chegou a tombar 1,6%, rumando para o pior fechamento desde 2016.

Moeda/PaísQueda (%)Contexto
Won sul-coreanoMenor nível desde 2009Reabertura pós-feriado
Peso chileno>2,5%Dependência energética
Florim húngaro>2,5%Sensibilidade a energia
Índice MSCI Moedas EM1,6% (intraday)Pior desde 2016 no fechamento

Quedas expressivas em ações e ETFs de emergentes

Os índices acionários de países em desenvolvimento recuaram mais de 4%, ampliando perdas em um cenário de liquidações generalizadas. O ETF de mercados emergentes da BlackRock (código EEM, Índice de Fundos Negociados em Bolsa com US$ 30 bilhões em ativos sob gestão) registrou forte baixa, com volume de negociações mais que triplicado. O ETF dedicado à Coreia do Sul da mesma gestora teve o pior desempenho em seis anos.

Hoje, as negociações estão praticamente em uma única direção: comprar dólar e vender todo o resto.

Ning Sun, estrategista sênior de mercados emergentes da State Street Global Markets, em Boston

Revisão nas expectativas de política monetária

Investidores cortaram projeções de afrouxamento monetário. Pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), a chance de um segundo corte de 0,25 ponto percentual neste ano caiu para 50%. Um segundo movimento similar pelo Banco da Inglaterra (BoE) foi dada como improvável para 2025. Nos emergentes, precificam-se agora alta de juros na África do Sul ainda este mês, invertendo expectativas anteriores de redução. No Brasil, os contratos de taxa de juros futura ajustaram-se para um corte menor da Selic (taxa básica de juros) em março.

A percepção de um conflito prolongado com um choque para a economia global — mesmo que apenas devido ao petróleo bruto — está começando a ser precificada.

Alvaro Vivanco, estrategista macro de mercados emergentes do Wells Fargo

Impactos regionais na Europa e Oriente Médio

Na Europa, o florim húngaro liderou perdas pela exposição a custos energéticos elevados, seguido pelo zloty polonês. Rendimentos de títulos soberanos em moeda local subiram com temores inflacionários, enquanto papéis em dólar de emissores da região tiveram as maiores desvalorizações entre emergentes. Nos Emirados Árabes Unidos, títulos de grandes empresas imobiliárias caíram pelo segundo dia, ameaçados por mísseis iranianos que questionam o papel do país como refúgio financeiro. Mercados locais, como o Mercado Financeiro de Dubai e a Bolsa de Valores de Abu Dhabi, reabrirão em 4 de março após dois dias fechados, com limite de oscilação de 5% em Dubai.

Efeitos na Ásia e pressões de commodities

Na Ásia, o índice Kospi (índice de referência da Bolsa de Seul) despencou 7% na volta de feriado prolongado na Coreia do Sul, maior queda desde agosto de 2024, com o won enfraquecendo apesar de leve alta no yuan chinês onshore. Preços do gás natural na Europa saltaram até 34% pela suspensão de exportações da maior planta de GNL (Gás Natural Liquefeito) no Catar, impactando importadores.

Os principais pontos de pressão estarão relacionados à duração da guerra e à capacidade do Irã de manter o Estreito de Ormuz fechado.

Marco Ruijer, gestor de fundos da William Blair International

As taxas de câmbio e de juros da região EMEA podem suportar uma guerra curta com o Irã e retornar aos níveis pré-crise se os setores de energia e transporte se normalizarem.

Sergei Voloboev, estrategista de câmbio e taxas da Bloomberg Intelligence

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física brasileiro de perfil intermediário a avançado, essa dinâmica reforça a interconexão entre riscos geopolíticos no Oriente Médio e o ambiente local. Um petróleo mais caro pressiona o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), podendo adiar ou reduzir a magnitude do corte na Selic previsto para março, com contratos futuros já refletindo ajuste para baixo. Cenário otimista envolve resolução rápida do conflito, normalizando fluxos para emergentes após o melhor ano de ações da classe em quase uma década. Pessimista aponta prolongamento, fortalecendo o dólar, elevando yields globais e desencadeando saídas de capital da B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), similar a vulnerabilidades recentes. Fatores a monitorar incluem evolução do câmbio dólar-real, via B3 no contrato DOL, e desempenho do Ibovespa ante ETF como o EEM.

Riscos em destaque

  • Incerteza sobre duração da guerra no Irã: Mensagens contraditórias de EUA e ataques contínuos desestabilizam a região, incluindo Estreito de Ormuz, rota vital para petróleo e gás.
  • Choque inflacionário via commodities: Alta no petróleo e gás natural (até 34% na Europa) limita espaço para cortes de juros pelo Fed e outros bancos centrais.
  • Saídas de capital de emergentes: Dólar forte e aversão a risco revertem diversificação recente, com obstáculos para crédito corporativo.
  • Fechamentos e limites operacionais: Mercados no Oriente Médio operam com restrições, ampliando volatilidade regional.

A vigilância deve se concentrar na duração do conflito, reações nos preços de energia e ajustes em políticas monetárias, como próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) e Fed, além da reabertura de bolsas nos Emirados em 4 de março e possíveis interrupções em rotas marítimas como Ormuz.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.