A Verde Asset, gestora comandada por Luis Stuhlberger, encerrou setembro com retorno de 0,26% no fundo multimercado, abaixo do CDI de 1,08% no período. Os números, porém, ainda não incorporam a disparada da Bolsa após o primeiro turno: em 5 de outubro, primeira sessão depois da votação, o Ibovespa avançou 7,7%.

A casa mantém a avaliação de que os ativos brasileiros seguem com espaço para ganhos, sustentada pela expectativa de uma condução mais contida das contas públicas. O ponto de atenção vem de fora: a alta das taxas longas nos países desenvolvidos pode reduzir o apetite por risco e dificultar a continuidade desse movimento.

A exposição elevada antes do salto da Bolsa

Segundo a gestora, o fundo multimercado teve sua exposição à renda variável brasileira ampliada de forma marginal ao longo de setembro. O ajuste antecedeu a arrancada dos mercados depois do primeiro turno, no qual Flávio Bolsonaro terminou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Naquela segunda-feira, além do salto de 7,7% do Ibovespa, as taxas dos juros de dez anos cederam cerca de 1,35 ponto percentual, e o real se valorizou 4,2%. A gestora confirma que se beneficiou da reação pós-eleitoral, mas não abre o tamanho do ganho nem a parcela atribuída às ações domésticas.

Em comentário feito antes da votação, o gestor havia projetado o dólar a R$ 4,80 em um cenário de vitória do candidato.

A troca que embasa a aposta no Brasil

O otimismo da casa se apoia em uma mudança de combinação na política econômica. A Verde descreve o arranjo atual como acelerador fiscal com freio monetário — estímulo nos gastos convivendo com juros restritivos — e trabalha com a hipótese de substituí-lo por uma política mais disciplinada nas contas públicas, o que abriria espaço para uma queda maior dos juros.

Esse cenário, segundo o relatório, ganha corpo por causa da participação baixa de investidores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, nos ativos de maior risco. Essa ausência de posições, na avaliação da gestora, deixaria margem para novas entradas de recursos conforme as expectativas se firmem.

A gestora relata que, apesar do forte movimento dos preços, o risco embutido nos ativos hoje é menor — a valorização recente teria vindo acompanhada de uma redução das incertezas.

O contraponto externo que ameaça o apetite por risco

O ambiente internacional caminhou na direção contrária ao doméstico, e a própria casa descreve o cenário global como mais inóspito. Um dos termômetros é a taxa dos títulos do Tesouro americano de dez anos, que acumulou alta de 1,30 ponto percentual desde março, sendo 0,54 ponto apenas em setembro.

A pressão sobre os juros longos, conforme a carta, reúne quatro forças: o petróleo mais caro por causa de conflitos internacionais, a expansão fiscal nos países desenvolvidos, o aperto da política monetária e a demanda por capital para financiar investimentos em inteligência artificial.

Até aqui, o crescimento forte dos lucros corporativos conseguiu sustentar os principais índices acionários mesmo com juros mais altos. A gestora, no entanto, já enxerga sinais de fragilidade nesse arranjo, com a dúvida central girando em torno de qual patamar de taxa dispararia uma aversão maior ao risco.

É esse o ponto que separa as duas narrativas: por mais que as expectativas locais melhorem, uma deterioração do apetite global pode travar a sequência de ganhos.

A dependência do Brasil de capital externo torna esse quadro especialmente sensível. Quando o investidor global recua do risco, a tendência histórica é de saída de recursos de mercados emergentes, o que costuma pressionar câmbio e exigir prêmios maiores para a renda variável local.

Segundo turno e o quadro no Congresso

Na leitura da casa, a chance de virada no segundo turno é baixa. A gestora também chama atenção para as eleições de Câmara e Senado, que apontaram avanço da direita. Esse conjunto, na avaliação da Verde, reforça a perspectiva de mudança na condução da política econômica.

O raciocínio é que um Legislativo mais alinhado a pautas de contenção de gastos tende a facilitar a aprovação de medidas que sustentem a tese fiscal da gestora — embora essa seja uma leitura condicionada ao cenário político, não um resultado garantido.

Setembro na carteira: o que ganhou e o que perdeu

O retorno de setembro ficou bem abaixo do referencial. Enquanto o fundo entregou 0,26%, o CDI rendeu 1,08% no mês. No acumulado até o encerramento de setembro, a rentabilidade chegava a 10,62%, levemente à frente dos 10,51% do indicador.

IndicadorSetembroAcumulado até set/2026
Fundo Verde0,26%10,62%
CDI1,08%10,51%

As contribuições positivas vieram de ações brasileiras e de operações que exploram diferenças entre taxas de juros reais — estratégia que busca capturar o diferencial de retorno real entre países. As perdas se concentraram em commodities, juros reais americanos e Bolsa global.

Mesmo com a visão favorável a juros menores no Brasil, a gestora informou que não carregava posições direcionais na renda fixa local. A carteira manteve a alocação em ações globais, a aposta aplicada em juros reais americanos, as posições em ouro e prata e as proteções estruturais.

O que observar daqui para frente

O mercado doméstico já carrega parte relevante da melhora esperada nos preços. Isso significa que o espaço adicional de valorização, na visão da casa, depende da confirmação de duas frentes: a sinalização de disciplina fiscal e o comportamento das taxas longas no exterior.

Se os juros dos países desenvolvidos continuarem subindo, o custo de oportunidade de alocar em risco no Brasil tende a aumentar, o que historicamente pressiona moedas e bolsas emergentes. Do outro lado, a baixa presença de investidores nos ativos de risco domésticos deixa margem para entradas adicionais caso o cenário externo não se deteriore.

O contraste entre o humor doméstico e o freio global é o que deve definir o ritmo dos próximos meses. A tese da gestora não depende de uma nova alta, mas de o ambiente externo não fechar a porta para o risco brasileiro.