Wall Street fecha perto do zero a zero, com o estrago fora do índice

O S&P 500 encerrou a terça-feira (13) com variação de -0,02%, aos 7.805,47 pontos, enquanto o Nasdaq recuou 0,15%, para 27.204,38 pontos, e o Dow Jones cedeu 0,35%, aos 51.670,70 pontos. Os três índices ficaram próximos da estabilidade, mas o pregão esteve longe de ser morno: as ações de semicondutores sofreram uma liquidação em bloco, num dia de alívio nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e de espera por uma nova leitura da inflação dos Estados Unidos.

O gatilho veio da Coreia do Sul

A origem do movimento está fora de Nova York. O Kospi, índice da Bolsa da Coreia do Sul, fechou com queda superior a 5% depois de ter as negociações interrompidas diante do aumento da aversão ao risco. O combustível foi o acirramento da concorrência no mercado de memória, com destaque para a chinesa CXMT (ChangXin Memory Technologies), líder do segmento de DRAM na China e quarta maior fabricante do mundo. DRAM é o tipo de memória volátil usada como espaço de trabalho em computadores e servidores.

A companhia apresentou uma nova arquitetura de chip que encolhe em cerca de 30% a área ocupada pelas células e informou que pretende lançar, até o fim de 2026, um produto baseado nessa estrutura. Na esteira do anúncio, Micron (Nasdaq: MU) e SanDisk (Nasdaq: SNDK) fecharam em baixa em Wall Street.

Bancos abrem a temporada com três placares distintos

Como costuma acontecer a cada trimestre, os balanços dos bancos inauguraram a temporada de resultados nos Estados Unidos. Os números do terceiro trimestre de 2026 mostram desempenhos desiguais entre as instituições que já reportaram.

InstituiçãoLucro líquido (3T26)Lucro por ação diluídoConsenso (FactSet)
JPMorgan ChaseUS$ 15,3 bi (+6% a/a)US$ 5,57US$ 5,93
Wells FargoUS$ 5,95 biUS$ 1,87US$ 1,85
Goldman SachsUS$ 5,294 bi (+29% a/a)US$ 17,01US$ 12,90

O JPMorgan, primeiro a divulgar, viu o lucro por ação diluído avançar de US$ 5,07 para US$ 5,57 na comparação anual, mas o resultado ficou distante dos US$ 5,93 projetados pelo consenso compilado pela FactSet. No Wells Fargo, o lucro líquido de US$ 5,95 bilhões superou em pouco os US$ 5,58 bilhões registrados um ano antes, e o ganho diluído por ação de US$ 1,87 ficou levemente acima da previsão de US$ 1,85.

O Goldman Sachs apresentou a maior distância em relação às estimativas: o lucro líquido de US$ 5,294 bilhões representa alta de 29% sobre os US$ 4,098 bilhões de um ano antes, e o lucro diluído por ação saltou para US$ 17,01, contra os US$ 12,90 aguardados pelos analistas.

Consenso projeta quase 30% de crescimento nos lucros do S&P 500

Para o conjunto das empresas que compõem o S&P 500, o consenso reunido pela FactSet aponta expansão próxima de 30% nos lucros do terceiro trimestre, sempre na comparação com o mesmo período do ano anterior. A referência ajuda a dimensionar o peso de cada balanço: uma companhia que cresce abaixo dessa média tende a ser penalizada mesmo quando apresenta avanço anual, o que ajuda a explicar por que um resultado abaixo do consenso ganha destaque em um trimestre de expectativas elevadas.

CPI na quarta e decisão do Fed em 28 de outubro

O indicador que o mercado esperava durante todo o pregão é o CPI, sigla em inglês para o índice de preços ao consumidor americano, previsto para esta quarta-feira (14). Ainda que não seja a métrica que baliza oficialmente o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), o número costuma redirecionar as apostas sobre a trajetória dos juros.

Na ferramenta FedWatch, do CME Group, a probabilidade de o Fed manter a taxa básica na faixa de 3,75% a 4,00% na reunião de 28 de outubro era de 78,4% ao fim do pregão. Para dezembro, o cenário majoritário concentra 89,5% das apostas em um aumento de no mínimo 25 pontos-base — cada ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual.

O que a dispersão do pregão revela sobre risco concentrado

Um índice que varia 0,02% e um setor inteiro em liquidação no mesmo dia contam histórias diferentes. Em carteiras com peso relevante em tecnologia, o número que aparece na manchete tende a subestimar o tamanho da oscilação efetiva; o inverso vale para portfólios concentrados em setores que passaram ilesos. Investidores brasileiros com exposição a papéis listados nos Estados Unidos ou a BDRs — recibos negociados na B3 que espelham ações estrangeiras — sentem esse efeito com mais intensidade do que quem acompanha apenas o S&P 500.

A disputa no mercado de memória DRAM acrescenta um elemento de prazo mais longo. O anúncio da CXMT, com produto previsto para até o fim de 2026, coloca pressão sobre a estrutura de oferta do segmento, que historicamente responde a mudanças de capacidade com oscilações de preço e margem acima da média da bolsa americana. É esse tipo de sinal, e não a variação diária do índice, que costuma orientar a revisão de expectativas para o setor.