O XP Infra II (XPIE), fundo de infraestrutura sob gestão da XP Asset, encerrou o quarto trimestre de 2025 com um desempenho que contrariou a lógica predominante dos mercados de ativos reais. Em um período marcado pela pressão das NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional Série B) — títulos públicos indexados à inflação cujas taxas atingiram patamares históricos — o fundo registrou uma valorização patrimonial de aproximadamente 4,5%. Esse movimento elevou a cota patrimonial, que representa o valor real dos ativos líquidos do fundo, de R$ 77,00 para R$ 81,10, injetando cerca de R$ 50 milhões de valor contábil ao conjunto de suas participações diretas.

Resiliência Operacional vs. Cenário Macroeconômico

Tradicionalmente, a elevação dos juros reais no Brasil exerce uma força compressora sobre o preço de ativos de infraestrutura. Isso ocorre porque o cálculo do valor presente dos projetos utiliza uma taxa de desconto baseada no custo de oportunidade do capital; se os juros sobem, o valor atual dos fluxos de caixa futuros tende a cair. Contudo, o XPIE superou essa barreira técnica através da maturação operacional de seus projetos, que já operam com receitas previsíveis e contratos consolidados. Atualmente, o fundo conta com quase 10 mil cotistas e mantém uma liquidez relevante para o segmento, com volume médio diário de negociação de R$ 1,8 milhão.

Métrica de AvaliaçãoValor / Percentual
Cota Patrimonial (NAV)R$ 81,10
Preço de Mercado (Data-base)R$ 56,00
Desconto sobre o Patrimônio~31%
Retorno Potencial EstimadoIPCA + 13,7% a.a.
Total Distribuído (Desde o início)R$ 587 milhões

A Dinâmica dos Dividendos e a Debênture Alísio

A política de distribuição de proventos do XPIE apresenta um horizonte claro para o curto e médio prazo. Para o exercício de 2026, a XP Asset confirmou a meta de distribuir R$ 1,00 por cota ao mês. Entretanto, o investidor deve estar atento à transição prevista para 2027. A gestora sinalizou que o patamar mensal deve ser ajustado para a faixa entre R$ 0,75 e R$ 0,85. Esse movimento é justificado pelo encerramento dos fluxos financeiros da debênture Alísio — título de dívida privada adquirido em 2023. Como os pagamentos desse ativo se estendem apenas até meados de 2027, a redução subsequente já faz parte do planejamento estratégico comunicado ao mercado.

O Alívio do 'Curtailment' e a MP 1.304

O principal catalisador operacional em 2025 foi o desfecho regulatório sobre o curtailment — termo técnico para os cortes compulsórios de geração elétrica impostos pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Esses cortes ocorrem quando há excesso de oferta ou restrições de transmissão, obrigando as usinas a parar de produzir sem compensação financeira direta. A aprovação da Medida Provisória 1.304 alterou radicalmente esse cenário: dois dos três tipos de cortes existentes deixaram de ser onerados aos geradores, removendo um peso significativo sobre o caixa dos ativos do fundo.

O impacto prático dessa mudança foi emblemático em dois ativos do portfólio:

  • Usina Apodi (Ceará): O ativo solar de 162 MWp (Megawatt-pico) recebeu R$ 20 milhões em ressarcimentos por cortes retroativos. Com isso, a provisão para perdas — uma reserva contábil para riscos — despencou de 28% para 8%. No total, Apodi distribuiu R$ 40 milhões em dividendos, sendo que R$ 4 milhões integraram o caixa do XPIE.
  • Complexos Vila Acre I e II: Adquiridos por R$ 270 milhões, esses parques eólicos viram a reversão de uma provisão de R$ 15 milhões, impulsionando o lucro distribuível. Além disso, a produtividade subiu de 13 para 15 megawatts médios devido ao melhor regime de ventos. Em menos de dois anos sob gestão, os ativos já retornaram quase R$ 80 milhões ao fundo.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, o cenário atual do XPIE apresenta uma dicotomia acentuada entre o valor intrínseco e o preço de tela. Enquanto o NAV (Net Asset Value ou Valor Patrimonial Líquido) subiu para R$ 81,10, o mercado negocia a cota por valores próximos a R$ 56,00. Esse desconto implica em uma taxa interna de retorno (TIR) de IPCA + 13,7% ao ano, um prêmio considerável sobre o Tesouro Direto. O principal risco reside na volatilidade regulatória do setor elétrico e na esperada redução dos dividendos em 2027, fator que já parece estar sendo precificado pelo mercado.

Riscos Estruturais e Monitoramento

Embora o cenário de fevereiro de 2026 seja marginalmente superior às projeções iniciais, o investidor deve monitorar:

  • A sustentabilidade do fim das cobranças de curtailment nas eólicas, que seguem suspensas sem impacto imediato no caixa;
  • A transição do portfólio após o vencimento de ativos de crédito (como a debênture Alísio);
  • A sensibilidade dos ativos à variação da inflação, que compõe a maior parte da remuneração dos contratos de concessão.

Desde sua listagem há cerca de sete anos, o XPIE já devolveu R$ 67,41 por cota em proventos, totalizando uma distribuição robusta que reforça o histórico da gestão em reciclar ativos e extrair valor operacional.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.