O contrato de açúcar bruto da ICE saltou 4% nesta segunda-feira, superou a marca de 20 centavos por libra-peso e marcou o maior patamar em 19 meses, segundo relatos do mercado. O vencimento mais curto encerrou a 20,73 centavos, com ganho de 0,8 centavo, depois de tocar 20,81 centavos na máxima. Na semana anterior, esse mesmo contrato já havia avançado 7,7%.
A explicação do salto está na oferta, não na demanda. Chuvas excessivas ligadas ao El Niño — o aquecimento anormal das águas do Pacífico que desorganiza o regime de chuvas de várias regiões — castigam o Brasil, maior produtor global da commodity. A produção brasileira recuou 41,6% somente na primeira quinzena de setembro, e os portos do país também acumulam atrasos de carregamento por causa do clima. É essa combinação que sustenta a cotação, mais do que qualquer movimento de consumo.
Safra menor no Brasil e ameaça climática a Índia e Tailândia
A expectativa do mercado é de que o El Niño prejudique as lavouras de Brasil, Índia e Tailândia, os três maiores fornecedores globais. A próxima safra da União Europeia também deve encolher de forma acentuada, reflexo da seca que marcou o verão europeu. Para os analistas da Green Pool, o volume recorde de chuvas em setembro, somado à expectativa de mais precipitação ao longo de outubro, já convenceu os participantes de que a produção de açúcar ficará bem distante das estimativas.
Os números do dia nos futuros de açúcar, café e cacau
O açúcar branco fechou em US$ 547,60 a tonelada, com ganho de 3%, tendo marcado US$ 552,50 na máxima — o maior nível desde o fim de agosto. Nos demais contratos do complexo de softs — como o mercado chama as commodities agrícolas tropicais —, o dia também foi de valorização:
| Contrato | Variação | Fechamento |
|---|---|---|
| Açúcar bruto (ICE) | +4% | 20,73 centavos/libra-peso |
| Açúcar branco | +3% | US$ 547,60/tonelada |
| Café arábica | +1,3% | US$ 2,9255/libra-peso |
| Café robusta | +1,7% | US$ 3.528/tonelada |
| Cacau em Londres | +3,4% | £ 4.382/tonelada |
| Cacau em Nova York | +3,5% | US$ 5.867/tonelada |
Café: qualidade em xeque e um real quase 5% mais forte
O arábica terminou o dia a US$ 2,9255 por libra-peso, ganho de 3,8 centavos (1,3%), após acumular 3,6% na semana anterior. Duas preocupações dominam o curto prazo: a qualidade dos grãos, prejudicada pelo excesso de chuvas do El Niño no Brasil, e o temor de que o mesmo padrão climático provoque seca mais adiante.
David Behrends, da Sucafina, afirma que a expectativa de safra abundante no Brasil em 2026/27 segue de pé, mas que estoques reduzidos e preços físicos elevados na Colômbia e na América Central mantêm o mercado atento no curto prazo.
No câmbio, o real saltou quase 5% na sessão, movimento associado ao avanço das chances do candidato Flávio Bolsonaro após os resultados eleitorais. Uma moeda local mais forte costuma frear as vendas dos produtores, o que altera o ritmo de oferta disponível ao mercado externo. O robusta avançou 1,7% e encerrou a US$ 3.528 a tonelada. Já o Vietnã, maior produtor da variedade, exportou 1,45 milhão de toneladas ao longo dos nove primeiros meses de 2026, com avanço de 16,2%.
Cacau: oferta farta hoje, safra 2026/27 sob ameaça
Em Londres, o cacau fechou a £ 4.382 por tonelada, alta de £ 143, equivalente a 3,4%. Na avaliação de corretores, o mercado segue preso em um intervalo estreito, espremido entre a oferta atual abundante e um cenário cada vez menos favorável para a safra 2026/27, associado ao El Niño.
Na Costa do Marfim, a colheita principal desta temporada deve encolher perto de 17%, segundo levantamento de mercado, e produtores locais afirmaram que a falta de chuvas amplia o risco de a safra ser encurtada — ela vai de setembro a fevereiro. Na semana que terminou em 4 de outubro, os portos marfinenses receberam 18.000 toneladas, levando o acumulado da safra 2025/26 a 54.500 toneladas. Em Nova York, o contrato de cacau avançou 3,5%, a US$ 5.867 por tonelada.
O que preço em alta e safra em queda significam para a carteira
Custo maior de matéria-prima tende a pressionar as margens de indústrias que transformam açúcar, café e cacau em alimentos processados, bebidas e chocolates. Do outro lado, quem exporta essas commodities com volume disponível para embarque captura preços melhores — desde que a logística portuária não atrase o calendário de entregas, algo que já aparece nos relatos do setor.
Para o investidor pessoa física, a agenda das próximas semanas tem três pontos de observação concretos: a evolução das chuvas no Brasil, que define o tamanho da safra ainda em formação; o comportamento do real, que interfere na paridade das exportações; e o efeito do El Niño sobre Índia, Tailândia e União Europeia, que determina se o aperto de oferta se prolonga para além do ciclo atual.
Preços agrícolas em alta costumam chegar ao consumidor com defasagem, mas costumam chegar: açúcar, café e cacau têm peso, ainda que limitado, nos índices de preços ao consumidor e nas cestas de compras das famílias. Nenhuma dessas variáveis se resolve no curtíssimo prazo, e é essa incerteza prolongada que tende a manter elevada a volatilidade dos contratos futuros dessas commodities.
