O Ibovespa encerrou o primeiro pregão posterior ao primeiro turno das eleições em 206.911,89 pontos, com avanço de 7,70% — a maior valorização em um único pregão desde março de 2020 e o primeiro fechamento da história acima da marca dos 200 mil pontos. Na máxima, o indicador tocou 209.605,70 pontos, nível inédito, vindo dos 192.114,55 pontos registrados na sexta-feira (2).

O salto, no entanto, não se distribuiu de maneira uniforme entre os papéis. Sob o ganho do índice, a sessão revelou uma troca de mãos: companhias ligadas ao consumo doméstico e ao crédito puxaram a fila, enquanto exportadoras de commodities e representantes da indústria ficaram pelo caminho. A distinção tem efeito prático para quem investe — uma carteira concentrada em matérias-primas viu o dia passar longe do desempenho do Ibovespa, ainda que o índice tenha operado em território nunca antes visitado.

O que a nova composição do Congresso levou o mercado a precificar

A reprecificação dos ativos brasileiros se apoiou em uma leitura específica do resultado das urnas: a de que o mercado passou a atribuir probabilidade maior a uma guinada na política fiscal a partir de 2027. O segundo turno da disputa presidencial terá Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, e a nova formação do Congresso entrou na conta dos investidores.

Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, afirmou: “Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027”

A agenda fiscal, portanto, virou o eixo da precificação. Como a eleição presidencial segue indefinida, o mercado tende a reagir a cada novo sinal sobre o rumo das contas públicas até a definição do segundo turno.

Dólar a R$ 5,001 e VXBR em queda de 30%: o sinal doméstico do pregão

A moeda americana seguiu caminho oposto ao da bolsa. O dólar comercial cedeu 4,12%, a R$ 5,001, e marcou R$ 4,953 na mínima, passando boa parte da sessão abaixo da linha dos R$ 5. Nossig observou que o recuo aconteceu em uma jornada de valorização da divisa no exterior, o que evidencia um motor interno para a reação.

O apetite por risco apareceu em outros termômetros. O VXBR, que mede a volatilidade esperada da bolsa brasileira e é conhecido como índice do medo, chegou a recuar 30%. O pregão registrou mais de 5 milhões de operações, número que costuma ficar na casa de 1,2 milhão em um dia comum. No mercado de juros, as taxas futuras recuaram com força.

Varejo e bancos na frente; Suzano, Embraer e Vale fora do movimento

AtivoTickerVariação
Magazine LuizaMGLU3+24,18%
B3B3SA3+22,63%
C&ACEAB3+19,71%
Lojas RennerLREN3+15,39%
BradescoBBDC4+13,57%
Banco do BrasilBBAS3+11,00%
ItaúITUB4+10,37%
PetrobrasPETR4+8,19%
SuzanoSUZB3-5,39%
EmbraerEMBJ3-3,31%
ValeVALE3-0,97%

Os números da ponta positiva têm magnitude que, em outro contexto, pareceria erro de digitação. A B3 avançou 22,63%, desempenho coerente com a explosão do giro negociado. Entre os bancos, Bradesco, Banco do Brasil e Itaú entregaram ganhos de dois dígitos. A Petrobras subiu 8,19% mesmo com o petróleo em queda no exterior, indício de que o combustível da sessão foi o cenário doméstico, e não a commodity.

Na outra ponta, três papéis de peso ficaram de fora do rali. Suzano cedeu 5,39%, Embraer perdeu 3,31% e Vale recuou 0,97%.

Nasdaq renova recorde de fechamento, mas sobe em compasso menor

Do outro lado da fronteira, os índices americanos também terminaram no azul, ainda que com avanços bem mais contidos. O Nasdaq liderou, com 1,05%, aos 27.477,31 pontos — nova máxima histórica de encerramento —, sustentado por gigantes de tecnologia como Nvidia e Microsoft. O S&P 500 subiu 0,66%, aos 7.773,95 pontos, enquanto o Dow Jones ficou praticamente estável, com 0,18% de alta, aos 51.267,90 pontos. Também ajudaram a sustentar a busca por risco a desvalorização do petróleo e o recuo das apostas em um novo aperto monetário do Federal Reserve.

O que observar até o segundo turno

O pregão de segunda-feira reposicionou preços, mas não eliminou incerteza. A leitura que sustentou a alta depende de um cenário cuja materialização só ocorre a partir de 2027, e a disputa presidencial segue aberta, depois de semanas em que as pesquisas eleitorais vinham embaralhando o humor do mercado.

Para quem acompanha a bolsa, dois pontos merecem atenção. O primeiro é a dispersão: um índice em 206.911,89 pontos não significa que toda carteira subiu, já que papéis de commodities e da indústria ficaram atrás. O segundo é a natureza doméstica do movimento, evidenciada pela queda da moeda americana em um dia de dólar forte no exterior — quanto mais uma ação depende de fatores internos, maior tende a ser sua sensibilidade a notícias políticas e fiscais.