O prêmio de incerteza embutido nas opções dos principais ativos da B3 encolheu de forma acentuada no primeiro pregão depois do primeiro turno. A compressão mais forte apareceu no Banco do Brasil (BBAS3): nos contratos com vencimento em 16 de outubro, a volatilidade implícita recuou de cerca de 66% na sexta-feira para a faixa de 40% a 42% nesta segunda-feira (5), devolvendo 24 a 26 pontos percentuais. No BOVA11, o mesmo indicador saiu de aproximadamente 39% para 25%-26%; em Petrobras (PETR4), caiu de 47% para 34%-36%.

Esse é o desenho clássico do vol crush, a queda veloz da volatilidade implícita assim que o evento concentrador de dúvidas sai do caminho. A volatilidade implícita (IV) é obtida do preço das próprias opções e revela quanta oscilação futura os contratos carregam: IV mais alta tende a significar prêmio mais caro, tudo o mais constante. Ela, contudo, não indica direção — não informa se o ativo vai subir ou cair. Os números comparados pela apuração usam contratos próximos do dinheiro, aqueles cujo strike (preço de exercício) fica perto da cotação vigente do ativo.

Para quem usa opções como ferramenta — proteger carteira, travar preço ou montar estruturas —, a consequência é palpável: o seguro contra oscilações ficou mais barato no curto prazo. O mercado não deixou de precificar risco. Apenas passou a cobrar menos por ele nos vencimentos mais próximos.

BBAS3 sai de 66% para 40%-42% e lidera o ajuste

A fotografia dos três ativos, antes e depois das urnas, ganha forma na comparação:

AtivoIV na sexta-feiraIV na segunda (venc. 16/out)IV em novembro
BOVA11~39%25%-26%24%-27%
PETR4~47%34%-36%35%-37%
BBAS3~66%40%-42%não informado

A devolução de 24 a 26 pontos percentuais no banco estatal supera com folga a dos outros dois ativos. O motivo é aritmético antes de ser direcional: quem entrou na votação carregando prêmio mais gordo tinha mais espaço para abrir mão dele depois do resultado. Na sexta-feira, o ambiente combinava convicção baixa sobre o rumo e preço alto para oscilações amplas — o retrato de um mercado que não sabia a direção, mas temia o caminho.

Vale reparar no tamanho relativo de cada movimento: o BOVA11 partiu de um patamar de IV mais baixo e chegou à casa dos 25%, enquanto o banco estatal, dono do maior prêmio entre os três, entregou o maior desconto absoluto.

Matheus Medeiros, o Madruga, analista da Nomos, dá nome ao fenômeno e faz uma ressalva importante sobre o alcance dele.

Ação em alta com opção mais barata: onde está a diferença

Os três papéis subiram com força no mercado à vista no mesmo pregão em que a IV recuou, e o contraste é apenas aparente. Preço à vista e volatilidade implícita medem coisas distintas. O primeiro registra o movimento que já está em curso; a segunda mostra quanto está sendo cobrado pela incerteza sobre o que vem depois.

Daí a combinação possível: uma ação dispara hoje e, ao mesmo tempo, suas opções ficam mais baratas em termos de volatilidade, desde que o mercado entenda que parte das dúvidas futuras se dissipou. Foi exatamente esse o encaixe do pregão de segunda-feira.

Novembro sem salto: o prêmio não migrou para prazos longos

Faltava responder a uma pergunta mais exigente: a incerteza saiu dos preços ou apenas ganhou outro vencimento? Os contratos de novembro funcionam como teste porque já cobrem um trecho mais longo do calendário eleitoral, incluindo etapas posteriores à votação.

No BOVA11, as opções próximas do dinheiro com vencimento em novembro marcam IV na faixa de 24% a 27%, praticamente o mesmo patamar dos contratos de outubro. Em PETR4, novembro aparece entre 35% e 37%, sem salto expressivo na comparação com os prazos curtos. Para os dois ativos, não há sinal de deslocamento relevante de prêmio para frente — o que sustenta a tese de que boa parte da incerteza pré-urnas saiu mesmo de cena, em vez de ser empurrada.

Sem essa transferência, a relação entre o prêmio cobrado em cada vencimento fica mais achatada. Historicamente, esse formato costuma sinalizar alívio concentrado no evento que passou, e não adiamento da preocupação.

Antes da votação, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, havia elencado três caminhos possíveis para a volatilidade: alívio no prêmio, deslocamento para vencimentos mais distantes ou acomodação em patamares altos. O primeiro é o que se materializou com clareza até aqui.

Puts acima de calls: proteção segue com prêmio maior

Nos três ativos, as opções de venda seguem com volatilidade um pouco acima das de compra. Isolada, essa diferença não basta para apontar uma direção. O que ela reforça é um traço já visível antes das urnas: pagar mais por seguro contra queda convive com uma leitura que não é necessariamente pessimista.

BBAS3 carrega riscos que não vêm das urnas

A compressão da IV no banco não autoriza concluir que todo o risco anterior fosse eleitoral. Na análise preparada antes da votação, Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, já chamava atenção para componentes próprios do banco: exposição ao agronegócio, provisões e a qualidade da carteira de crédito. A volatilidade do BBAS3, portanto, mistura ingredientes — o político, que perdeu peso, e o operacional, que segue no radar.

O que observar nos contratos que passam pelo 2º turno

Sinais a acompanhar:

  1. Se a compressão de volatilidade continua nos próximos pregões.
  2. Se surge prêmio novo nos contratos cujo vencimento atravessa o segundo turno.
  3. Como evolui o diferencial entre contratos de compra e de venda, o giro negociado e o estoque de posições em aberto.

Compressões de volatilidade pós-evento costumam ser rápidas e podem se reverter quando um novo foco de incerteza entra no calendário — e o calendário eleitoral segue aberto. O comportamento dos vencimentos seguintes será o termômetro dessa eventual volta do prêmio.

A fotografia desta segunda-feira já registra uma mudança relevante em relação à sexta: a incerteza continua no jogo, só que com etiqueta de preço menor — e o desconto mais visível é o do Banco do Brasil.