Duas das maiores apostas globais em inteligência artificial fecharam o pregão estendido de Nova York (after hours) desta quinta-feira (29) em queda firme, e o motivo não é falta de crescimento. Perto das 18h30 no horário de Brasília, a Intel cedia 19,83%, a US$ 73,81, e a Amazon recuava 6,69%, a US$ 226,83, depois de balanços do terceiro trimestre de 2026 que frustraram por caminhos distintos — a fabricante de chips pela projeção de receita, a gigante do comércio eletrônico pelo lucro e pelo faturamento. As duas divulgações vieram na esteira da Alphabet, controladora do Google, que já havia pressionado os índices americanos.
A queima de caixa de US$ 42,4 bilhões que redesenha a tese da Amazon
O número mais eloquente do balanço da Amazon não está na linha da receita. O fluxo de caixa livre (caixa operacional menos os investimentos em ativos) encerrou os 12 meses até setembro com saldo negativo de US$ 42,4 bilhões, contra US$ 14,8 bilhões positivos no mesmo intervalo de 2025. A empresa atribui o resultado aos gastos com aquisição de imóveis e equipamentos e à construção de capacidade para IA.
No trimestre, o faturamento somou US$ 201,9 bilhões, 12% acima de igual período de 2025, mas abaixo dos US$ 202,2 bilhões projetados. O lucro líquido caiu para US$ 20,69 bilhões, com ganho diluído de US$ 1,89 por ação — inferior tanto aos US$ 1,96 esperados quanto aos US$ 1,95 de um ano antes, quando o resultado havia sido de US$ 21,18 bilhões.
A divisão de nuvem AWS registrou US$ 46 bilhões em receita, com avanço de 39% sobre o terceiro trimestre de 2025. Para o quarto trimestre, a companhia projeta receita na faixa de US$ 240 bilhões a US$ 247 bilhões, já com efeito cambial negativo embutido.
O contraste entre uma nuvem crescendo a dois dígitos e um caixa consolidado no vermelho tende a deslocar a régua de avaliação. Enquanto a receita acelerava, o mercado tratou o capex — o dispêndio de capital em ativos de longo prazo — como aposta de futuro. Com o caixa livre negativo, esse gasto passa a ser lido como custo presente, e a cobrança por retorno tende a subir.
| Métrica | Amazon (3T26) | Intel (3T26) |
|---|---|---|
| Receita | US$ 201,9 bi (+12%) | US$ 16,5 bi (+21%) |
| Lucro líquido | US$ 20,69 bi | US$ 3,32 bi (-18%) |
| Lucro por ação | US$ 1,89 (diluído) | US$ 0,52 (ajustado) |
| Consenso FactSet | US$ 1,96 | US$ 0,41 |
| Guidance de receita (4T26) | US$ 240 bi a US$ 247 bi | US$ 15 bi a US$ 16 bi |
Intel: data center sobe 78%, mas o guidance de PCs derruba o papel
Na Intel, o eixo do resultado é o divórcio entre segmentos. A receita total avançou 21% em base anual, para US$ 16,5 bilhões. A unidade de data center e IA faturou US$ 7,3 bilhões, com salto de 78%, e a de computação cliente e IA física caiu 5%, para US$ 8,1 bilhões.
O lucro líquido recuou 18%, para US$ 3,32 bilhões. O lucro ajustado por ação alcançou US$ 0,52, superando a expectativa de US$ 0,41; um ano antes, o indicador havia sido de US$ 0,23, com vendas de US$ 13,65 bilhões.
A reação do mercado veio do guidance — a projeção feita pela própria companhia. Para o quarto trimestre, a Intel aponta lucro ajustado de US$ 0,25 por ação e faturamento que pode variar de US$ 15 bilhões a US$ 16 bilhões. Os analistas consultados pela FactSet esperavam os mesmos US$ 0,25 de lucro, porém com receita de US$ 17,29 bilhões, acima até do teto da faixa sinalizada.
A origem da cautela é o mercado de PCs: a indústria global embarcou 4% menos máquinas no segundo trimestre do que um ano antes, movimento ligado ao encarecimento de custos. David Zinsner, chefe financeiro da Intel, afirmou em comunicado que “Vemos a desaceleração dos PCs continuando pelo menos até o primeiro semestre do próximo ano, mas continuamos otimistas quanto às oportunidades em nosso portfólio mais amplo”
Por que Wall Street trocou otimismo por exigência
Os dois balanços chegam num momento em que o mercado americano reabre a discussão sobre o retorno dos investimentos em IA. A Alphabet já havia sinalizado a tensão na véspera, e os números de Intel e Amazon funcionaram como reforço: em ambos os casos, a expansão ligada a IA existe, mas não compensou o que veio nas demais linhas.
A mudança de régua tende a aparecer na comparação entre empresas. Projetos intensivos em capital — data centers, chips, energia — historicamente só sustentam prêmio de valuation quando o fluxo de caixa acompanha o crescimento. Quando o caixa consome, a atenção do mercado costuma migrar do discurso de expansão para a execução, e a volatilidade dos resultados trimestrais tende a aumentar.
Vale separar os diagnósticos. Na Intel, a questão é de demanda adiante: o guidance aponta para um semestre de PCs fracos, ainda que servidores cresçam. Na Amazon, o debate é de conversão: a nuvem acelera, mas o caixa livre consolidado sente o peso do investimento.
O que observar até a divulgação do quarto trimestre
- Guidance da Intel (US$ 15 bi a US$ 16 bi): o teto da faixa fica abaixo dos US$ 17,29 bilhões esperados pela FactSet, e a distância entre os dois números mede o grau de frustração do mercado.
- Câmbio na Amazon: a companhia já antecipou impacto negativo das taxas de câmbio sobre a receita de US$ 240 bilhões a US$ 247 bilhões.
- Mercado de PCs: o volume embarcado recuou 4% no segundo trimestre, e o segmento de computação cliente da Intel faturou 5% menos no 3T26.
- Caixa livre da Amazon: o acumulado de 12 meses saiu de +US$ 14,8 bilhões para -US$ 42,4 bilhões; a trajetória desse indicador no próximo balanço é o que separa capex de investimento com retorno.
