A Ambev (ABEV3) reportou lucro líquido de R$ 4,37 bilhões no terceiro trimestre de 2026, 10,2% abaixo dos R$ 4,863 bilhões vistos um ano antes — e, ao mesmo tempo, acima da projeção de R$ 3,9 bilhões dos analistas consultados pela IBES. O balanço foi divulgado na madrugada desta quinta-feira (29).

O resultado recorrente caminhou na direção oposta à do lucro contábil. O lucro líquido ajustado avançou mais de 14,3%, para R$ 4,393 bilhões, puxado pelo Ebitda maior e por despesas financeiras líquidas menores, com parte do ganho absorvida por uma despesa maior de imposto de renda.

Lucro ajustado sobe 14,3% enquanto o lucro contábil recua

A separação entre as duas linhas é o que permite entender o trimestre. A queda de 10,2% no número contábil conviveu com um lucro recorrente em expansão de dois dígitos, o que desloca o foco da manchete de resultado para a qualidade do lucro: o caixa gerado pela operação cresceu mais que o lucro contábil no período.

A expansão operacional aparece na receita líquida orgânica, que somou R$ 21,595 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Duas frentes explicam o movimento: a receita líquida por hectolitro (o ROL/hl, que mede quanto a companhia fatura por litro vendido, mistura de preço e de mix) subiu 6,8%, e o desempenho de volume também contribuiu.

Ebitda de R$ 7,271 bi com margem 0,4 ponto maior

O Ebitda orgânico ajustado (lucro operacional medido antes de depreciação, amortização, tributos e juros) fechou em R$ 7,271 bilhões, avanço de 8,9% na base anual, com a margem dessa métrica 0,4 ponto percentual acima da registrada um ano antes.

O ponto mais forte, porém, ficou no caixa. As atividades operacionais geraram cerca de R$ 7,7 bilhões, R$ 759 milhões a mais do que no mesmo intervalo de 2025, impulso vindo do Ebitda ajustado e de uma dinâmica melhor de capital de giro — o dinheiro que a empresa mantém aplicado em estoques e em prazos de fornecedores e clientes para sustentar a operação.

Recompra de até 190 milhões de ações em 18 meses

Com esse respaldo de caixa, o Conselho de Administração aprovou um programa de recompra de até 190 milhões de ações ordinárias, a ser executado nos próximos 18 meses. Recompra tende a reduzir a quantidade de papéis em circulação e, historicamente, costuma dar suporte ao lucro por ação quando o caixa é suficiente para bancá-la.

Métrica3T26Variação anual
Lucro líquidoR$ 4,37 bi-10,2%
Lucro líquido ajustadoR$ 4,393 bi+14,3%
Receita líquida orgânicaR$ 21,595 bi+7,6%
Ebitda orgânico ajustadoR$ 7,271 bi+8,9%
Caixa das atividades operacionais~R$ 7,7 bi+R$ 759 mi

O que a combinação de números muda para o investidor

Para quem acompanha a ação, o balanço desloca a discussão do lucro contábil para duas variáveis de acompanhamento: a capacidade de a operação converter Ebitda em caixa e a velocidade com que a recompra será executada. O lucro ajustado e o fluxo operacional indicam que o negócio segue expandindo receita e margem, enquanto a linha final pressionada sugere que efeitos abaixo da operação continuam pesando no resultado reportado.

A leitura que organiza o trimestre é essa: crescimento operacional e geração de caixa avançaram, o lucro contábil não acompanhou, e a empresa escolheu devolver parte do caixa aos acionistas via recompra em vez de reter o montante. O mercado tende a observar, nos próximos balanços, se essa combinação se repete — caixa forte com lucro reportado mais fraco — e se o programa de recompra será usado de forma integral dentro do prazo aprovado.