Armor Capital inverte a mão e passa a comprar Bolsa e real

A Armor Capital trocou de lado nos ativos brasileiros depois do primeiro turno das eleições. A gestora, que estava vendida em ações do país — posição que ganha quando os preços caem — e comprada em real e em papéis dos Estados Unidos, passou a manter posição comprada tanto na moeda brasileira quanto na Bolsa. O relato é de Paula Moreno, sócia e co-CIO da casa, cargo equivalente ao de diretora de investimentos.

O gatilho foi o resultado das urnas. Com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado foi surpreendido e abriu caminho para uma nova rodada de ajuste de preços, na leitura da gestora. Na sessão de 5 de outubro, o Ibovespa subiu cerca de 15 mil pontos e marcou novo recorde nominal na máxima do dia, enquanto o dólar retornou ao patamar de R$ 5. Levantamento da consultoria Elos Ayta aponta que foi a maior reação do pregão seguinte ao primeiro turno desde a disputa presidencial de 2002.

Onde a gestora enxerga o Ibovespa agora e no ano que vem

Com o índice tendo alcançado 200 mil pontos, a Armor vê espaço para novas altas no curto prazo. Os patamares que a casa trabalha estão reunidos na tabela abaixo.

ReferênciaProjeção da ArmorHorizonte
Ibovespa215 mil a 220 mil pontoscurto prazo
Ibovespa230 mil a 240 mil pontosmeados do próximo ano
DólarR$ 4,80nível considerado razoável
Selic11% a 11,5% (antes, 12,5% a 13%)fim de 2027

A linha mais alta da tabela é também a mais condicional. Ela depende de um eventual governo Flávio Bolsonaro avançar rumo a uma pauta econômica mais liberal, mexer no arcabouço fiscal — o conjunto de regras que disciplina o crescimento das despesas públicas — e adotar medidas voltadas a conter o avanço da dívida. Nessa hipótese, a reavaliação tende a se espalhar para uma cesta mais ampla de ativos brasileiros, movimento que o mercado batizou de re-rating. A Armor projeta, nesse caso, o Ibovespa entre 230 mil e 240 mil pontos em meados do próximo ano.

Selic projetada entre 11% e 11,5% no fim de 2027

A revisão da casa também alcança os juros básicos. A Armor trabalhava com uma Selic entre 12,5% e 13% no fim de 2027 e passou a enxergar espaço para a taxa terminar o período entre 11% e 11,5%, caso um novo governo destrave a mudança do arcabouço fiscal e abra caminho para cortes mais profundos no ano que vem.

Há uma nuance no raciocínio. Uma Selic menor, isoladamente, estreita o diferencial de juros — a distância entre a taxa brasileira e a de economias desenvolvidas, que costuma atrair capital externo — e tende a pressionar o real. A aposta da gestora é que a melhora fiscal derrube o prêmio de risco, o retorno extra exigido para aplicar em um país, e compense esse efeito.

Dólar: R$ 5 já embutiu parte do prêmio e R$ 4,80 é o nível visto como razoável

Parte da descompressão do prêmio de risco já apareceu com o dólar perto de R$ 5, mas a moeda americana ainda tem espaço para ceder caso se confirme a troca de governo, segundo a gestora. A Armor considera a cotação de R$ 4,80 um nível razoável para o real.

Vitória de Lula: o cenário que devolveria parte do movimento

A vitória de Lula não está descartada e abriria uma nova rodada de ajuste de preços. Nesse caso, as ações podem devolver parte da alta, porque boa parte do mercado já embutiu chance elevada de vitória de Flávio Bolsonaro. O contrapeso vem do Legislativo: uma composição parlamentar mais inclinada à direita tende a bloquear avanços que prejudiquem a pauta econômica. A indicação de um nome moderado para o Ministério da Fazenda também costuma amenizar a reação dos mercados, caso Lula conquiste um quarto mandato.

Na segunda-feira, a agência Reuters noticiou que o presidente estuda levar Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda caso se reeleja. Para Paula Moreno, esse gesto sinalizaria moderação.

O freio externo: Treasury de 10 anos perto de 5,30%

A cautela vem de fora. Nos Estados Unidos, a taxa real de juros gira perto de 3%, e o rendimento do Treasury de dez anos, papel do Tesouro americano usado como referência global para juros longos, está em torno de 5,30%. A esse quadro somam-se as necessidades de captação das empresas de tecnologia americanas, sobretudo as ligadas a inteligência artificial, que ampliam a disputa internacional por recursos.

O peso desse conjunto aumenta num momento em que poucos países conseguem estabilizar ou reduzir o endividamento, avalia a gestora. Na leitura da casa, o pano de fundo é favorável ao Brasil, especialmente com um Congresso que a Armor descreve como liberal e simpático ao mercado.

O que muda para quem tem exposição a Bolsa e câmbio

Para o investidor pessoa física, a virada da Armor expõe um ponto concreto: o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros passou a ser precificado também pelo cenário eleitoral, e não apenas pelos fundamentos. Isso tende a ampliar a sensibilidade do Ibovespa e do real a pesquisas de intenção de voto, movimentos políticos e sinalizações sobre a política fiscal — como mostrou a sessão de 5 de outubro, com um salto de 15 mil pontos em um único dia.

O outro lado dessa moeda é a dependência de um desfecho eleitoral específico, algo que a própria gestora reconhece ao admitir correção em caso de vitória de Lula. Há ainda a concorrência por capital vinda dos Estados Unidos: com o Treasury de dez anos perto de 5,30%, títulos americanos seguem pagando retorno relevante, o que historicamente costuma reduzir o apetite por mercados emergentes.

Os níveis projetados pela Armor — Ibovespa entre 230 mil e 240 mil pontos, dólar a R$ 4,80 e Selic entre 11% e 11,5% — retratam o que a casa embute na aposta comprada em Brasil. Nenhum deles está garantido: a execução da agenda fiscal e o resultado das urnas aparecem como as duas variáveis que a própria gestora trata como condicionantes.