O custo para negociar ações no Brasil pode alcançar patamar 20 vezes superiores aos observados em outros mercados, segundo a fonte, e esse diagnóstico sustenta o projeto da Base Exchange de iniciar operações como bolsa concorrente da B3 até o fim de 2027.

A companhia sediada no Rio de Janeiro, controlada pelo fundo soberano Mubadala Capital, de Abu Dhabi, informou que pretende disputar fluxos da bolsa brasileira com infraestrutura própria, mensalidades mais baixas e atendimento próximo a corretoras e gestores locais. A leitura para quem acompanha renda variável é direta: uma segunda bolsa tende a pressionar tarifas, alterar a divisão de receitas entre infraestrutura e intermediários e exigir atenção redobrada a liquidez e execução.

Uma segunda bolsa tende a pressionar tarifas, alterar a divisão de receitas entre infraestrutura e intermediários e exigir atenção redobrada a liquidez e execução.

Uma segunda bolsa tende a pressionar tarifas, alterar a divisão de receitas entre infraestrutura e intermediários e exigir atenção redobrada a liquidez e execução. Esse efeito potencial interessa de perto ao investidor pessoa física porque corretagem, emolumentos e spreads influenciam o retorno líquido, sobretudo em operações frequentes e em carteiras com giro elevado.

Tarifa até 20 vezes maior ancora tese de bolsa mais barata

O argumento central apresentado pelo presidente-executivo Francisco Gurgel envolve o peso das cobranças incidentes sobre a negociação. De acordo com o relato divulgado, a comparação internacional varia conforme a metodologia, mas o diferencial brasileiro pode chegar a 20 vezes em determinados recortes.

A empresa avalia que esse nível de despesa restringe a participação de varejo, desestimula giros menores e reduz a competitividade do mercado nacional diante de alternativas externas. Custos elevados de ida e volta corroem ganhos de curto prazo, dificultam estratégias com rebalanceamentos periódicos e tornam menos viável o acesso fracionado para quem está começando.

Na visão transmitida pela companhia, a disputa entre infraestruturas precisa gerar queda de preços e expansão de atividade ao mesmo tempo. Tarifas declinantes sem crescimento de volume limitariam o benefício sistêmico, enquanto volumes maiores sem alívio de tarifas preservariam a barreira de entrada.

O raciocínio econômico descrito aponta para um círculo virtuoso: cobranças menores estimulam mais ordens, corretoras ativam bases inativas, gestores ampliam estratégias e novos investidores encontram ambiente menos oneroso para testar a renda variável. Com o mercado maior, as próprias bolsas teriam condições de sustentar investimentos em tecnologia.

Para o aplicador brasileiro, a consequência prática tende a aparecer menos no pregão e mais no extrato. Qualquer revisão de tabelas de negociação, liquidação e custódia pode alterar o ponto de equilíbrio de operações com day trade, aluguel de papéis e montagem de posições em fundos imobiliários e fundos de índice.

Autorização na CVM e no Banco Central mira estreia até fim de 2027

O cronograma divulgado prevê entrada em funcionamento até o fim de 2027, com sistemas prontos antes desse limite. A empresa informou que aguarda aval da Comissão de Valores Mobiliários para atuar como bolsa de valores e do Banco Central para funcionar como contraparte central, estrutura conhecida no setor como clearing.

O processo de licenciamento acumula cerca de três anos de tramitação. Por se tratar, segundo a companhia, da primeira tentativa de autorização simultânea de mercado organizado em ações e de câmara de compensação e liquidação sob o marco atual, os procedimentos exigiram construção de manuais, testes de risco, salvaguardas operacionais e diálogos técnicos inéditos.

Francisco Gurgel avalia que a análise entrou em estágio avançado, embora condicione o lançamento ao cumprimento integral das exigências. A infraestrutura operacional, de acordo com o relato, deve atingir maturidade antes da liberação formal, o que permitiria ajustes finos e conexão prévia de participantes.

O executivo atribui parte da extensão do prazo a restrições de pessoal e à ausência de cronogramas rígidos nos órgãos reguladores, sem apontar oposição institucional ao projeto. Ele descreve as equipes técnicas como qualificadas e engajadas, mas sujeitas a limitações orçamentárias e a demandas concorrentes.

Para quem investe, o calendário sinaliza um período de observação. Definições sobre interoperabilidade, regras de roteamento de ordens, tratamento de ofertas e mecanismos de contingência tendem a influenciar custos de corretagem, qualidade de execução e funcionamento de plataformas nos próximos anos.

De 38 para 200 profissionais com tecnologia desenvolvida internamente

O salto de 38 para cerca de 200 colaboradores ilustra a dimensão do investimento realizado desde 2023, ano em que a Mubadala Capital assumiu o controle e os pedidos formais foram protocolados. A ampliação envolveu contratação de engenheiros, especialistas em risco, profissionais de conformidade e quadros para relacionamento com participantes.

A aposta declarada recai sobre sistemas criados dentro de casa. Tanto a operação atual de roteamento quanto a futura bolsa utilizam plataformas proprietárias, sem dependência de pacotes adquiridos de fornecedores internacionais. Essa opção, na avaliação da empresa, confere autonomia para adaptar funcionalidades, corrigir falhas e lançar serviços sob medida.

A base dessa estratégia está na Floa, braço eletrônico em atividade há 16 anos. A unidade fornece soluções para execução de ordens de ações e derivativos já listados, atendendo 100% das corretoras brasileiras e mais de 50 gestores de recursos, com participação estimada em aproximadamente 8% do volume transacionado em ações no país.

Esse histórico confere à futura bolsa relacionamento comercial estabelecido. Os clientes atuais do serviço de tecnologia coincidem em grande medida com o público que a nova infraestrutura pretende conquistar, o que reduz a necessidade de prospecção inicial e facilita testes integrados.

Entre as instituições atendidas estão casas de grande porte como XP e BTG Pactual, citadas como exemplos da capilaridade da plataforma. A proximidade com mesas de operação permite mapear gargalos de latência, demandas por relatórios e necessidades de conectividade que nem sempre recebem prioridade no arranjo vigente.

Ações, ETFs e fundos imobiliários abrem a operação

A estreia planejada concentra-se em mercado à vista e veículos de acesso diversificado. A lista inclui ações, fundos de índice negociados em bolsa, conhecidos pela sigla em inglês ETF, e fundos imobiliários, além de um sistema para empréstimo de papéis entre investidores.

Os contratos derivativos ficarão para uma fase posterior. A sequência reflete a intenção declarada de vincular a bolsa nascente ao financiamento de companhias e a instrumentos populares entre pessoas físicas, em lugar de priorizar produtos de giro acelerado e perfil predominantemente institucional.

O serviço de aluguel de ações permite que o detentor ceda temporariamente seus títulos a terceiros mediante pagamento de taxa. O tomador utiliza os ativos para estratégias específicas, inclusive venda a descoberto, operação em que o investidor se desfaz de papéis tomados emprestados na expectativa de recomprá-los por valor inferior.

Além de gerar receita adicional ao doador, o mecanismo contribui para acomodar liquidações e ampliar a oferta disponível para negociação. Mercados com programas amplos de empréstimo tendem a apresentar menor índice de falhas na entrega de ativos e maior facilidade para expressão de visões negativas.

Etapa do projetoDado informado
Previsão de estreiaaté o fim de 2027
Controle acionário desde 2023Mubadala Capital
Equipede 38 para cerca de 200 pessoas
Alcance da Floa100% das corretoras e mais de 50 gestores
Participação estimadaaproximadamente 8% do volume em ações
Produtos iniciaisações, ETFs, fundos imobiliários e aluguel
Derivativosfase posterior

A escolha do cardápio inicial pode indicar sensibilidade ao perfil do varejo brasileiro, que ampliou exposição a proventos imobiliários e a carteiras indexadas na última década. Uma plataforma que já nasce com esses segmentos tende a disputar diretamente fluxos relevantes para corretoras de varejo.

Cade em 2017 e Resolução CVM 135 redesenharam a disputa

A tentativa de criar concorrência remonta a mais de uma década. A companhia relata que, no passado, a concentração de negociação, compensação, liquidação e custódia em uma única estrutura, combinada à falta de normas de acesso, impedia na prática a entrada de rivais.

Em 2017, o grupo recorreu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, responsável pela defesa da concorrência, para contestar obstáculos e restrições a serviços considerados essenciais. O questionamento envolvia condições para uso de liquidação e de guarda centralizada de ativos.

Dois anos depois, o órgão antitruste determinou a abertura desses serviços a potenciais entrantes e sugeriu que a Comissão de Valores Mobiliários regulamentasse a competição entre mercados. A decisão criou precedente para compartilhamento de infraestruturas críticas.

O marco seguinte foi a Resolução CVM 135, de 2022, que disciplinou o funcionamento de mercados organizados e estabeleceu requisitos para autorização de novas bolsas. O normativo detalhou exigências de governança, gestão de riscos, transparência e supervisão.

Sob esse novo arcabouço, a Base formalizou em 2023 os pedidos de registro. No mesmo ano, a entrada da Mubadala Capital garantiu suporte de capital e respaldo institucional para sustentar um projeto intensivo em tecnologia e em exigências prudenciais.

A trajetória regulatória ajuda a explicar por que o Brasil manteve por tanto tempo modelo de bolsa única na prática, mesmo sem monopólio legal expresso. Sem regras de interoperabilidade e sem câmaras independentes, o custo de replicar toda a cadeia tornava a contestação economicamente inviável.

O que a disputa pode mudar para corretoras e investidores

A distribuição de receitas no ecossistema ocupa posição relevante no discurso da entrante. A avaliação apresentada sustenta que a fatia retida pela infraestrutura contrasta com a pressão enfrentada por corretoras independentes, várias delas absorvidas por conglomerados ou descontinuadas como operações autônomas.

Um arranjo com mais de uma bolsa e com tarifas decrescentes poderia aliviar intermediários, preservar diversidade de canais e estimular inovação em aplicativos, relatórios e assessoria. Corretoras com estrutura mais leve historicamente costumam atender nichos de varejo ativo, educação financeira e interior do país.

Para o investidor, a fragmentação traz oportunidades e complexidades. Ambientes competitivos historicamente costumam produzir melhorias em velocidade de execução, diversidade de tipos de ordem e programas de incentivo, mas também exigem roteamento inteligente para buscar o melhor preço disponível entre diferentes livros de ofertas.

A experiência internacional sugere que a multiplicidade de plataformas tende a beneficiar participantes com tecnologia de consolidação de cotações, enquanto o varejo depende de regras claras de melhor execução asseguradas por intermediários e supervisores. A definição dessas salvaguardas no Brasil será acompanhada de perto.

Outro vetor envolve formação de preços e transparência. Com mais de um local de negociação, ganham relevância mecanismos de consolidação de dados, referenciais de fechamento e procedimentos para tratamento de negociações atípicas, temas que afetam diretamente a confiança.

Liquidez dividida e juros altos impõem limites à tese

A principal incerteza envolve liquidez, conceito que designa a facilidade de comprar ou vender sem provocar deslocamentos relevantes de cotação. A concentração de ordens em um único ambiente favorece encontros entre compradores e vendedores e reduz o custo implícito de negociar.

A divisão de fluxos entre duas bolsas pode fragmentar livros, ampliar diferenças entre preço de compra e venda em ativos de menor giro e exigir conexões entre plataformas. Papéis de baixa capitalização e fundos imobiliários menos negociados tendem a sentir com mais intensidade qualquer dispersão.

Francisco Gurgel reconhece a influência de variáveis macroeconômicas, como o patamar da Selic, referência básica de juros, e o apetite de estrangeiros, mas sustenta que tarifas, tecnologia e catálogo de serviços também determinam o tamanho do bolo. Juros elevados mantêm recursos em renda fixa indexada ao CDI e ao IPCA, reduzindo a alocação em Ibovespa e em ações individuais.

A companhia argumenta que o debate não deve se restringir à migração de negócios existentes. A expectativa manifestada é de crescimento do total transacionado, com entrada de novos participantes e reativação de contas dormentes, e não apenas de redistribuição do volume atual.

O executivo também contesta a percepção de que o mercado nacional seria estreito demais para sustentar dois operadores. Segundo o relato, o montante de receitas gerado pela negociação de ações demonstra viabilidade econômica, desde que acompanhado de cobranças menores e de expansão consistente da base.

Para o investidor pessoa física de perfil intermediário a avançado, a mensagem prática envolve monitoramento contínuo. Calendário de autorizações, política de tarifas, modelo de clearing e regras de melhor execução tendem a moldar custos e qualidade operacional muito antes do primeiro pregão da nova bolsa.