O balanço do Banco do Brasil (BBAS3) no Novo Desenrola Brasil chegou a R$ 40 bilhões em dívidas renegociadas, segundo informou a instituição em comunicado divulgado em 1º de outubro. O valor cobre as quatro frentes formais do programa (Famílias, Empresas, Fies e Rural) e, fora delas, as repactuações que passaram pelos canais próprios do banco.

A leitura relevante para quem acompanha o papel não está apenas no valor de capa, e sim na composição. A fatia que transitou pelos canais próprios em pessoa física, sem passar pelas regras do programa, chegou a R$ 10 bilhões para 794 mil clientes — mais que o dobro do volume registrado na frente Famílias, de R$ 4,5 bilhões para 496 mil devedores.

Onde os R$ 40 bilhões foram negociados

FrenteValor negociadoPúblico atendido
Desenrola FamíliasR$ 4,5 bilhões496 mil clientes
Pessoa física fora do programaR$ 10 bilhões794 mil clientes
Pronampe e Procred (pessoa jurídica)R$ 6,2 bilhões48 mil empresas
Desenrola FiesR$ 3,7 bilhões61,4 mil estudantes
Desenrola RuralR$ 216,1 milhões11,7 mil produtores
Consignado INSS e servidoresmais de R$ 14,2 bilhões301 mil beneficiários

O Pronampe é o Programa Nacional de Apoio a Microempresas e Empresas de Pequeno Porte; o Procred cobre crédito e financiamento de dívidas voltados a microempreendedores individuais e microempresas. Somadas, as duas linhas movimentaram R$ 6,2 bilhões em desembolsos viabilizados para 48 mil empresas.

Na ponta educacional, o Fies do Desenrola somou R$ 3,7 bilhões, com 61,4 mil estudantes atendidos. No recorte rural, o total chegou a R$ 216,1 milhões, montante repartido entre 11,7 mil produtores.

Consignado puxa o maior volume detalhado

Entre as linhas discriminadas, a maior cifra é a do consignado: mais de R$ 14,2 bilhões liberados para 301 mil beneficiários do INSS e servidores públicos, sob as novas condições da MP 1.355 — a medida provisória que atualizou as regras do crédito consignado.

Nessa modalidade, o pagamento é descontado direto da folha ou do benefício previdenciário. Trata-se de um formato que, para o credor, reduz a inadimplência quando comparado a linhas sem garantia — motivo pelo qual essa carteira costuma receber tratamento distinto das demais no balanço do banco.

Desenrola 3.0 e a espera por regulamentação

A terceira etapa, anunciada pelo governo na semana anterior ao comunicado, prevê que a União adquira carteiras de dívidas de bancos e outros credores aplicando desconto mínimo de 90%; só depois as condições seriam oferecidas diretamente aos devedores.

Para viabilizar a entrada nessa fase, o Banco do Brasil sinalizou que aguarda a publicação e a vigência dos atos normativos. O banco também reforçou que mantém compromisso com a concessão responsável de crédito. Ou seja, a adesão ao novo desenho depende de regulamentação ainda pendente — variável que pode retardar a participação da instituição na etapa adicional.

O que o número revela para quem investe

O indicador a monitorar é a evolução das renegociações fora do guarda-chuva do Desenrola. É essa fatia que, hoje, sustenta a maior parte do volume de R$ 40 bilhões comunicado. Programas de renegociação em larga escala tendem a alongar prazos e postergar o reconhecimento de perdas, o que desloca o efeito sobre o resultado contábil para períodos seguintes — sem que isso, isoladamente, antecipe o desempenho da instituição.