O Banco do Brasil (BBAS3) vive um cenário de clara assimetria risco/retorno. De um lado, a deterioração da carteira de crédito, especialmente no agronegócio, e o corte da ação da carteira do Morgan Stanley pressionam os resultados e a percepção de risco. Do outro, um valuation descontado, com múltiplos historicamente baixos, e a possibilidade de estancagem de perdas via renegociação governamental indicam que o papel pode estar precificando um cenário excessivamente pessimista, desde que a execução da MP 1376 traga os resultados esperados.
A Renegociação do Agro e a MP 1376
Após trimestres de inadimplência rural pressionando as provisões, a administração do banco iniciou a renegociação das dívidas utilizando a MP 1376. As informações apontam aproximadamente 113 mil clientes potencialmente elegíveis, envolvendo até R$ 30 bilhões em operações de renegociação. É crucial notar que A carteira do agronegócio do Banco do Brasil soma R$ 421,6 bilhões, e a inadimplência nesse segmento chegou a 6,27% em operações acima de 90 dias.
A medida não é um refis simples, mas exige comprovação de perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda. As condições podem chegar a 8 anos de prazo, com 2 anos de carência e taxas entre 6% e 12% ao ano. O objetivo do banco é estancar o vazamento de recursos trimestrais, reduzindo a necessidade de provisões e permitindo o reconhecimento gradual de receitas de juros, o que pode elevar a lucratividade nos próximos trimestres.
Resultados, Custo de Crédito e o Contraste com o Bradesco
O lucro líquido ajustado subiu para R$ 3,9 bilhões, mas o custo de crédito permanece como o calcanhar de Aquiles, atingindo R$ 18,5 bilhões. O agronegócio é o maior ofensor, com R$ 8,4 bilhões em perdas, seguido por pessoa física. A inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,61%, um salto expressivo ante os 3,96% do segundo trimestre de 2025.
O Ativo Virtual destaca que o Banco do Brasil tem expandido a carteira de crédito em segmentos que estão gerando mais problemas, na contramão do Banco Bradesco (BBDC3 / BBDC4). Enquanto o BBAS3 vê a inadimplência subir, o Bradesco tem reformulado suas linhas e estratégias, diminuindo gradualmente o custo de crédito e melhorando seus índices de retorno sobre o patrimônio.
Valuation, Dividendos e Análise Técnica
Apesar da queda na lucratividade, o valuation do BBAS3 continua atrativo para quem busca margem de segurança. O multiplicador P/L está em nove vezes, patamar considerado barato para uma instituição com garantia governamental. O P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial) apresenta um desconto de 40% em relação ao valor patrimonial. O dividend yield atual é de 2,79%, refletindo a queda nos lucros, mas uma recuperação da carteira tende a normalizar os pagamentos.
Na análise técnica de médio prazo, a ação opera em tendência de baixa, mas não perdeu o fundo de R$ 17,70. A cotação atual gira em torno de R$ 19,55. O primeiro desafio é a superação da média móvel em R$ 20,51. A expectativa é de uma recuperação até a região de R$ 21,40, mas sem superação imediata da resistência de R$ 21,59.
O que muda para investidores
A tese para o BBAS3 depende intrinsecamente da eficácia da renegociação via MP 1376. Se o banco conseguir estancar as provisões e reverter o ciclo de inadimplência, o atual desconto patrimonial e os múltiplos comprimidos oferecem um prêmio de risco favorável. Por outro lado, a persistência do ciclo de perdas no agro e a má alocação de crédito podem prolongar a pressão sobre os lucros e os dividendos. O investidor deve monitorar os próximos trimestres para validar se a sangria de provisões foi de fato contida.
