Principais pontos
- O custo da memória usada em data centers separou vendedores do componente de compradores pressionados pela margem.
- A receita do Google Cloud avançou 82% no segundo trimestre, com expansão da margem operacional.
- A margem bruta da Nvidia permaneceu em 75% mesmo sob pressão de custos.
Depois de ensaiar alívio, o mercado dos Estados Unidos começou setembro debatendo uma nova elevação de juros, não um corte, segundo a fonte. O pronunciamento do presidente do banco central americano em Jackson Hole, no fim de agosto, recolocou sobre a mesa a chance de aumento já na reunião do dia 16, e o relatório de emprego publicado na sexta-feira (4) reforçou essa leitura mais dura para a política monetária.
A resposta da query de entendimento está na divisão aberta pelo preço dos chips de memória. O custo da memória usada em data centers separou vendedores do componente de compradores pressionados pela margem. A leitura é direta para quem acompanha BDRs (Brazilian Depositary Receipts, recibos que permitem negociar ações estrangeiras na B3) do Brasil: agosto premiou a exposição dolarizada, com o índice de BDRs em alta de 6,04%, segundo melhor resultado da renda variável na B3 no mês, atrás somente do índice do ouro, mas setembro desloca o eixo das carteiras para fornecedores da expansão dos data centers.
Quem vende memória ganha, quem compra tem margem comprimida
A reconfiguração das indicações de ações internacionais para setembro, compiladas pela fonte a partir de carteiras recomendadas, traduz essa fratura. A Micron, fabricante de memórias, passou a ser a mais citada, enquanto a Apple, que figurava como a segunda mais citada, deixou a lista do mês. Uma das casas reduziu a exposição à dona do iPhone sob o argumento de que o encarecimento da memória ameaça a rentabilidade do próximo aparelho.
O movimento mais amplo foi sair dos elos distantes da infraestrutura e concentrar as posições em quem entrega os insumos consumidos pela ampliação dos data centers. Na prática, o mercado passou a distinguir companhias que faturam com a escassez do componente daquelas que precisam adquiri-lo para montar seus produtos finais.
A escassez de memória virou o divisor entre fornecedores que capturam preço e fabricantes que absorvem custo.
Essa separação ajuda a entender por que papéis ligados a nuvem e processamento ganharam peso, enquanto nomes mais dependentes de hardware de consumo perderam espaço, mesmo após um mês positivo para ativos dolarizados.
Por que a Micron virou consenso entre as seis carteiras
A tese para a Micron (MUTC34) aparece, segundo a fonte, nas seis carteiras que carregam o nome. O mercado de memória permanece subofertado, e a avaliação predominante é que esse desequilíbrio deve persistir por período superior ao habitual, porque a oferta não acompanha o ritmo da procura.
O diferencial está na HBM (High Bandwidth Memory, memória de alta largura de banda), empregada em aceleradores de inteligência artificial. Esse tipo de memória é comercializado por preço cerca de três vezes superior ao da memória convencional, o que favorece o mix de vendas e a lucratividade da fabricante.
A avaliação predominante é que a capacidade de HBM da companhia para 2026 já está comprometida, e o lançamento de novas gerações de chips tende a sustentar a procura à frente. Mesmo após a valorização recente, uma das carteiras ampliou a posição no mês, sob o argumento de que o papel continua negociado abaixo da média histórica em relação aos lucros projetados.
Nuvem em aceleração sustenta Alphabet, Amazon e Microsoft
Alphabet (GOGL34)
O Google Cloud, divisão de computação em nuvem do grupo, é o eixo da indicação. A receita do Google Cloud avançou 82% no segundo trimestre, com expansão da margem operacional. O desempenho é associado à adoção corporativa de ferramentas de inteligência artificial. Três carteiras aumentaram o peso do ativo em setembro.
A empresa preserva participação próxima de 90% no segmento de buscas, apesar do avanço dos modelos de linguagem, enquanto o YouTube amplia a presença em publicidade e assinaturas. As projeções indicam múltiplo (relação entre preço e lucro) alinhado à média histórica e inferior ao do S&P 500 (principal índice da bolsa americana), o que ampara a visão de que o crescimento ainda não estaria incorporado à cotação.
Amazon (AMZO34)
A indicação prioriza a nuvem em detrimento do varejo. A receita da AWS (Amazon Web Services, braço de nuvem da Amazon) cresceu 36,8% no segundo trimestre, com margem operacional (parcela da receita que resta após custos e despesas operacionais) superior a 39%, e o segmento é apontado como principal motor de expansão. Publicidade digital e streaming surgem como linhas complementares.
O comércio eletrônico segue relevante, com fatia próxima de 38% nos Estados Unidos, mas a avaliação predominante é que o valor da companhia está concentrado nas operações de margem mais alta.
Microsoft (MSFT34)
A recomendação permanece ancorada no Azure, plataforma de nuvem da Microsoft, cuja receita subiu 43% no trimestre, no ritmo mais forte desde 2022. A nuvem responde pela maior parte do crescimento da empresa, e o capex (Capital Expenditure, investimento em ativos fixos) previsto para o próximo exercício sinaliza continuidade dos aportes em infraestrutura.
As projeções citam elevado custo de troca dos produtos e barreiras à entrada, fatores que conferem previsibilidade à receita. Em contrapartida, o potencial de valorização calculado pelo consenso é o mais contido entre os seis nomes da lista.
Energia destoa e Nvidia mantém domínio em GPUs
A Exxon Mobil (EXXO34) é a única petroleira entre as seis mais citadas e ingressou em uma das carteiras neste mês. O argumento se divide em três frentes: a ação negocia com desconto em relação à própria média dos últimos dois anos, o ambiente geopolítico tende a ampliar o prêmio de risco embutido no preço do petróleo e as margens de refino seguem em patamar elevado em função da oferta global limitada de capacidade de processamento.
A consolidação do setor nos últimos anos, com aquisições de grande porte entre as petroleiras, surge como quarto elemento, pela expectativa de ganho de escala e corte de despesas.
A Nvidia (NVDC34) conserva participação ao redor de 80% no fornecimento de GPUs (Graphics Processing Units, unidades de processamento gráfico) para data centers. A receita desse segmento avançou 117% no último trimestre, com mais da metade originada das grandes provedoras de nuvem, e a companhia projeta expansão de 70% da receita no próximo ano fiscal.
A avaliação predominante é que a procura por capacidade de processamento segue superior à oferta. A margem bruta da Nvidia permaneceu em 75% mesmo sob pressão de custos. O consenso de mercado trabalha com potencial de valorização próximo de 46%.
| Ação (BDR) | Foco da tese em setembro | Dado central do trimestre |
|---|---|---|
| Micron (MUTC34) | Memória subofertada e HBM para IA | Preço da HBM cerca de 3x o da memória tradicional |
| Alphabet (GOGL34) | Google Cloud e buscas | Receita da nuvem +82% |
| Amazon (AMZO34) | AWS como vetor principal | Receita da AWS +36,8%, margem acima de 39% |
| Exxon Mobil (EXXO34) | Desconto, petróleo e refino | Desconto ante média de 2 anos |
| Microsoft (MSFT34) | Azure e previsibilidade | Receita do Azure +43%, melhor desde 2022 |
| Nvidia (NVDC34) | GPUs para data centers | Receita do segmento +117%, margem bruta de 75% |
O que observar: juros nos EUA e gargalo da memória
Para o investidor brasileiro com BDRs, a agenda combina política monetária e fundamentos de tecnologia. No curto prazo, a decisão de juros do dia 16 e os desdobramentos do relatório de emprego de sexta-feira (4) tendem a ditar o humor para ativos americanos, após um agosto em que o índice de BDRs rendeu 6,04%.
No plano micro, o ponto de atenção é a duração da suboferta de memória e o ritmo de comprometimento da capacidade de HBM para 2026, além da evolução das receitas de nuvem, que cresceram 82% no Google Cloud, 36,8% na AWS e 43% no Azure. A permanência da margem bruta em 75% na Nvidia, com demanda acima da oferta, e o desconto da Exxon ante os últimos dois anos completam o quadro que sustenta a rotação de setembro.
