Principais pontos

  • o cartão benefício deve rodar em uma infraestrutura aberta, unificada e interoperável
  • o mercado varia entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões transacionados anualmente
  • apenas 22 milhões recebem o auxílio dentro do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador)

A chegada do BTG Pactual e do C6 Bank ao segmento de benefícios corporativos marca a abertura de um mercado que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano e que, segundo a fonte, era historicamente concentrado em Alelo, Pluxee (antiga Sodexo), VR Benefícios e Ticket. A leitura do Ativo Virtual é que a disputa deixa de ser apenas operacional e passa a envolver distribuição bancária, fidelização de empresas e integração com crédito.

O motivo da mudança está na reforma das regras do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador), programa público que concede incentivo fiscal às empresas que fornecem alimentação aos empregados formais. Ao reduzir barreiras de entrada, a nova regulação tende a transferir valor de quem controlava rede fechada para quem opera com escala digital, bandeira aberta e oferta financeira completa, sem que isso signifique indicação de posicionamento em qualquer ativo.

Rede fechada acabou: o que o Decreto 12.712 impõe

Segundo a fonte, as novas normas vedam que operadoras de grande porte, caracterizadas como aquelas com mais de 500 mil clientes, atuem nos chamados arranjos de pagamentos fechados. Por arranjo fechado entenda-se o modelo em que a própria bandeira contratava individualmente cada restaurante ou supermercado para autorizar o uso do cartão naquele ponto de venda.

Na prática anterior, o trabalhador precisava verificar se o vale-refeição era aceito na maquininha do bar da esquina antes de almoçar. Com a entrada em vigor do Decreto 12.712, de 2025, o cartão benefício deve rodar em uma infraestrutura aberta, unificada e interoperável. Por interoperável entenda-se a capacidade de diferentes sistemas e bandeiras processarem transações na mesma rede de terminais.

o cartão benefício deve rodar em uma infraestrutura aberta, unificada e interoperável

A regulação também estabelece um teto para as taxas cobradas na cadeia e encurta para 15 dias o prazo para o repasse dos valores aos restaurantes. Para estabelecimentos, a consequência tende a ser maior previsibilidade de recebimento e menor dependência de um credenciamento específico. Para as operadoras tradicionais, historicamente costuma significar perda de um instrumento de diferenciação comercial baseado em rede exclusiva.

Regra em disputaModelo anteriorModelo após Decreto 12.712, de 2025
Rede de aceitaçãoArranjo fechado, com contrato ponto a pontoRede aberta, unificada e interoperável
Porte alcançadoSem corte formal por base de clientesVedação a arranjo fechado acima de 500 mil clientes
Remuneração da cadeiaSem teto citado na fonteCom teto para taxas cobradas
Repasse ao restaurantePrazo mais longoPrazo encurtado para 15 dias

Flexíveis largam na frente e incumbentes perdem proteção

As mudanças beneficiaram as empresas de benefícios flexíveis, como Caju, Flash e Swile, de acordo com o relato publicado. Elas já operavam com bandeiras abertas, como Visa ou Mastercard, e deixam de enfrentar concorrentes que podiam oferecer descontos e vantagens comerciais para fechar contratos com grandes companhias.

As credenciadoras mais antigas, expressão usada para as empresas que habilitam estabelecimentos a aceitar cartões, também costumavam firmar parcerias acionárias ou estratégicas com os maiores bancos do país para potencializar a distribuição exclusiva dos cartões. A Alelo, por exemplo, pertence à Elopar, holding controlada conjuntamente pelo Bradesco e pelo Banco do Brasil. Já o Itaú Unibanco detém uma participação minoritária na Ticket Serviços, segundo a fonte.

Esse desenho societário ajudava a explicar a concentração. Quando distribuição, banco pagador da folha e benefício estavam sob o mesmo guarda-chuva, a troca de fornecedor pelo departamento de recursos humanos se tornava mais custosa. Com rede aberta, essa trava tende a se enfraquecer.

Quem ganha e quem perde na briga pelo pool existente

A leitura é que o novo marco não cria imediatamente um mercado maior, mas redistribui o atual. O executivo Doug Storf, presidente-executivo e fundador da Swap, fintech de banking as a service, modelo em que empresas criam produtos financeiros próprios sob marca própria com infraestrutura terceirizada, avalia que barreiras impostas pelo modelo anterior ficam atenuadas. Na mesma linha, ele estima que o mercado varia entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões transacionados anualmente e projeta disputa mais intensa pelo volume já existente.

Grupo mencionado na fontePosição na nova regraEfeito potencial
Caju, Flash e SwileJá operavam em bandeira abertaGanham isonomia contra descontos de rede fechada
BTG Pactual e C6 BankEntrantes com base bancáriaGanham porta de entrada em empresas e funcionários
Alelo, Pluxee, VR Benefícios e TicketIncumbentes de rede proprietáriaPerdem exclusividade de aceitação e poder comercial
Restaurantes e supermercadosPonta recebedoraGanham prazo de 15 dias e aceitação multibandeira
Bradesco, Banco do Brasil e Itaú UnibancoSócios de incumbentesTêm proteção societária relativizada pela interoperabilidade

Para o investidor que acompanha bancos e processadoras, a consequência não está no volume total de benefícios, limitado pelo número de empresas dispostas a conceder vale-refeição ou vale-alimentação, mas na margem e na fidelização. Se a aceitação deixa de diferenciar, a competição migra para preço, tecnologia de gestão e integração com outros serviços financeiros.

Principalidade: por que o benefício vale mais que a taxa

O nome do jogo, segundo a fonte, é a principalidade, indicador do grau em que empresas e pessoas concentram o relacionamento em determinado banco. Ao ampliar a prateleira de serviços, os benefícios corporativos se tornam uma espécie de porta de entrada para depois avançar, por exemplo, para o crédito.

É o que o jargão do setor chama de cross-selling, termo em inglês para venda cruzada de produtos adicionais ao mesmo cliente. Storf, da Swap, resume a lógica ao lembrar que os bancos sempre disputaram intensamente a folha salarial das empresas, e que uma oferta de benefícios atrelada aumenta a proposta de valor na concorrência.

No mês passado, o C6 Bank confirmou que está montando uma operação para emitir cartões de benefícios, que deve ser disponibilizada no segundo semestre. O banco, que tem o J.P. Morgan como sócio, já disputa as folhas salariais por meio do apetite pelo consignado privado, modalidade de crédito em que as parcelas são descontadas na fonte, diretamente do salário.

No BTG Pactual, o cartão de benefícios terá bandeira Mastercard e reunirá vale-alimentação e vale-refeição. O banco de investimentos vem expandindo a atuação no varejo bancário para ir além do público tradicional de alta renda e investidores institucionais. No ano passado, por exemplo, lançou uma maquininha de cartões após comprar a fintech Justa, especializada em soluções de adquirência para pequenas e médias empresas, conhecidas pela sigla PME (pequenas e médias empresas). Por adquirência entenda-se o serviço de credenciamento e processamento de pagamentos nos terminais.

O responsável por banking do BTG, Bruno Peuker, explica que a aposta reflete uma visão de longo prazo sobre a demanda por soluções integradas que simplifiquem a gestão das empresas. A empresa informou que a proposta reúne, em uma única solução, a experiência de um produto digital de benefícios com a amplitude de produtos e serviços financeiros do banco, gerando valor tanto para as empresas quanto para os colaboradores.

Segundo o executivo, com uma base de empresas de diversos portes e segmentos, o banco agora busca complementar as ofertas ao cliente por meio de tecnologia avançada. A empresa informou ainda que o produto também será uma ferramenta relevante para a aquisição de novos clientes corporativos.

Teto do mercado: 40 milhões de vínculos e 22 milhões no PAT

O movimento consolida o esforço regulatório para ampliar o leque de opções para empresas e consumidores, mas também levanta questionamentos sobre os limites da competição. As fronteiras para a expansão são delimitadas pelo volume de empresas dispostas a oferecer vale-refeição ou vale-alimentação para os cerca de 40 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil.

Entre eles, apenas 22 milhões recebem o auxílio dentro do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador), de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego citados na matéria original. Ou seja, pouco mais da metade da base formal está hoje dentro do programa que sustenta o benefício incentivado.

Para quem acompanha o setor, o dado mais revelador não está no anúncio de entrada dos bancos, mas nessa fronteira: o mercado varia entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões transacionados anualmente. Se a base de cobertos não se expande, o crescimento de um operador tende a ocorrer por captura de participação, com pressão sobre taxas, aumento de investimento comercial e necessidade de compensar a margem menor com escala e receitas complementares.