Principais pontos

  • A avaliação é de Rafael Fonseca, sócio, CIO (Chief Investment Officer, diretor de investimentos) e diretor de Relações com Investidores da gestora, em entrevista publicada pelo InfoMoney.
  • Para o investidor pessoa física, a consequência prática é não superestimar altas pontuais de liquidez associadas a rebalanceamentos de índices.
  • Por desenho de mandato, o BRCO11 não assume risco de desenvolvimento de novos empreendimentos.

O Grupo Bresco projeta que a expansão dos FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) terá como motor os investidores institucionais brasileiros, com fundos de pensão, seguradoras e fundos multimercado assumindo o protagonismo na ampliação da liquidez e do tamanho da indústria. A avaliação é de Rafael Fonseca, sócio, CIO (Chief Investment Officer, diretor de investimentos) e diretor de Relações com Investidores da gestora, em entrevista publicada pelo InfoMoney. Segundo a fonte, o capital externo já participa do mercado brasileiro, mas de forma passiva, por meio de índices globais que carregam ativos locais nas carteiras, sem uma entrada discricionária relevante capaz de sustentar um ciclo estrutural de crescimento.

A leitura do Ativo Virtual é que esse diagnóstico muda a chave de acompanhamento para quem tem cota de FII: o gatilho deixa de ser o humor do estrangeiro e passa a ser o comportamento do juro real longo e o retorno dos grandes alocadores locais. Enquanto títulos públicos indexados à inflação entregam prêmio elevado, a disputa pelo capital trava emissões, reduz o giro no mercado secundário (negociação de cotas já emitidas) e adia a formação de plataformas maiores. Quando essa taxa acomodar, uma demanda hoje contida tende a buscar diversificação em renda imobiliária, movimento que historicamente costuma acompanhar ciclos de alívio monetário, com efeito direto sobre liquidez, formação de preços e capacidade de ganho de escala dos fundos.

Fluxo passivo ajuda no giro, mas não constrói indústria

Fonseca descreve o estrangeiro atual como um seguidor de benchmark (índice de referência para replicação de carteira), não como um alocador convicto no Brasil. Segundo a fonte, esses fluxos até colaboram para o movimento diário, mas refletem obrigação de replicar carteiras globais, e não uma tese proprietária para o país. A posição atribuída ao executivo resume o ponto: contar com esse segmento para desenvolver o mercado não se sustenta.

Contar com o capital externo passivo para desenvolver o mercado de FIIs não se sustenta, na avaliação do executivo da Bresco.

Para o investidor pessoa física, a consequência prática é não superestimar altas pontuais de liquidez associadas a rebalanceamentos de índices. A expansão consistente, com emissões bem absorvidas e adensamento da base de cotistas, dependeria de compradores com mandato flexível, livres para calibrar risco, prazo e retorno — perfil que a Bresco enxerga nos institucionais domésticos. Na visão relatada pela fonte, não há neste momento uma narrativa dominante lá fora de Brasil como oportunidade imperdível que justifique aportes direcionais expressivos, o que reforça a dependência do dinheiro local com poder de escolha.

Trava do juro real: 8% contra 9,5% explica a espera institucional

Fonseca aponta o patamar do juro real como a principal barreira para a volta das instituições. Com a NTN-B (Nota do Tesouro Nacional Série B, título público federal indexado ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo)) em níveis próximos de 8%, a conta do alocador institucional fica apertada perante um fundo imobiliário de logística que entrega algo em torno de 9,5%. A diferença curta de rentabilidade, na visão relatada, estimula a inércia: permanecer no ativo considerado mais simples dentro da estratégia.

O exemplo citado pela fonte ilustra o dilema: com a taxa do título público nesse nível, o comitê de investimentos questiona se compensa trocar a NTN-B pelo risco imobiliário por um adicional estreito de retorno. Na avaliação do executivo, esse nível de NTN-B não se sustenta por muito tempo. A redução das taxas funcionaria como gatilho para que parte desse capital busque outras classes de ativos, o que também favoreceria a consolidação da indústria, com criação de plataformas maiores e fundos com maior escala. Para quem acompanha FIIs na B3 (bolsa de valores brasileira), o recado é monitorar o juro real longo como termômetro de emissões futuras, incorporações entre fundos e prêmios de risco.

Logística vive melhor momento em 20 anos e ancora tese do BRCO11

Enquanto o capital institucional não retorna de forma ampla, a aposta da Bresco recai sobre a qualidade operacional. Fonseca classifica o momento da logística brasileira como um dos melhores das últimas duas décadas, com queda da vacância (taxa de imóveis vagos) e valorização expressiva dos aluguéis. Segundo a fonte, os valores pedidos e fechados estão entre 20% e 50% acima dos níveis de dois ou três anos atrás, a depender da região, e como os contratos vigentes ainda não capturaram integralmente essa remarcação, haveria espaço para avanço adicional das receitas nos próximos anos.

Esse quadro beneficia diretamente o BRCO11, fundo logístico da gestora com carteira concentrada em galpões de qualidade próximos aos grandes centros de consumo. Aproximadamente 70% do portfólio está posicionado em ativos definidos pela casa como last mile (logística de última milha, imóveis próximos ao consumidor final que agilizam a entrega). Um caso citado é a locação de um espaço para o Mercado Livre por valor cerca de 25% superior ao pago pelo ocupante anterior, exemplo usado para ilustrar o potencial de reciclagem de contratos e captura da valorização dentro da carteira.

Medida citada pela BrescoNível informado à fonte
NTN-B ante retorno do fundo logístico8% ante 9,5%
Alta de aluguéis pedidos e praticados ante 2 a 3 anos atrás20% a 50% conforme a região
Nova locação para Mercado Livre ante ocupante anterior25% acima
Parcela last mile no BRCO1170% do portfólio
Parcela com potencial de expansão de ABL15% do portfólio

Expansão interna e segregação do risco de obra definem próximos passos

A Bresco mapeia ainda crescimento dentro da própria carteira do BRCO11. Cerca de 15% do portfólio teria potencial para ampliar a ABL (Área Bruta Locável, metragem disponível para locação e geração de receita), com projetos distribuídos por Campinas, Resende, Londrina, Bahia, Alagoas e Viracopos. A leitura é que esse estoque interno permite adicionar renda sem depender de aquisições externas em um mercado com escassez de produtos novos e demanda crescente de empresas por galpões.

Por desenho de mandato, o BRCO11 não assume risco de desenvolvimento de novos empreendimentos. A construção de galpões sob medida fica reservada a fundos fechados da casa, que captam com investidores institucionais e grandes famílias. A lógica, segundo a fonte, é que será preciso fabricar produtos para responder à procura, mas a obra carrega riscos distintos dos de um fundo de renda. Depois de construídos e estabilizados, esses imóveis podem ser adquiridos pelo fundo listado, o que segrega o risco de obra em veículo específico antes do ativo chegar à carteira de renda.

Para o cotista, a combinação de aluguel remarcado para cima, expansão potencial de área e um pipeline cativo de ativos cria uma ponte até a normalização dos juros. Se o custo de capital ceder, a gestora espera destrave de capital institucional, mais liquidez e avanço da consolidação — ambiente em que fundos maiores, com portfólios last mile e escala operacional, tendem a capturar melhor ganhos de eficiência e poder de precificação, sem alterar o perfil de renda do veículo listado.