O Tesouro dos Estados Unidos ensaiou uma atuação direta no mercado de títulos depois que o rendimento do papel de 30 anos ultrapassou 5,30% e tocou o nível mais alto desde 2007, segundo a fonte. O alívio durou horas. A tentativa de intervenção perdeu força já no pregão seguinte, quando as taxas voltaram a encostar nas máximas desde a crise financeira global.
Para o investidor brasileiro, o episódio interessa menos pelo movimento de um dia e mais pela consequência descrita pela Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger. A leitura é que Washington pode optar por corroer o peso da dívida mantendo juros artificialmente baixos, prática conhecida como repressão financeira. Manter o juro artificialmente contido transfere parte da conta para o poupador, que passa a financiar o Tesouro com retorno real comprimido.
O que muda para o poupador se o juro ficar artificialmente baixo
Repressão financeira é o conjunto de políticas que segura as taxas abaixo do patamar que o mercado exigiria de forma espontânea. Na prática, o governo consegue rolar seus compromissos pagando menos e reduz o valor real do estoque de dívida com o passar do tempo, segundo a carta divulgada na sexta-feira (4).
A solução a médio e longo prazo seria inflação mais alta ou repressão financeira, e o gesto recente do Tesouro americano pode representar um indício ainda incipiente da segunda alternativa.
A gestora informou que essa estratégia pode aparecer de formas distintas, desde aquisições de papéis pelo próprio Estado até normas que levam bancos, fundos de pensão e seguradoras a manter títulos públicos em carteira. O efeito final tende a ser semelhante: taxas reais — isto é, o juro nominal descontado da inflação — pressionadas para baixo.
A Verde avalia que o desfecho da intervenção era esperado. A casa argumenta que interferências em mercados amplos e líquidos tendem a fracassar diante do tamanho do déficit americano, da necessidade contínua de captação e do aumento das emissões corporativas para bancar capex (investimento em bens de capital e expansão) ligado à inteligência artificial.
O texto também afirma que a trajetória fiscal de longo prazo de grande parte das economias desenvolvidas deve seguir pressionando os juros longos, sem ajuste relevante pelo lado das contas públicas. A alternativa inflacionária, recorda a gestora, costuma enfrentar resistência política e social por corroer poder de compra.
Ouro e prata disparam enquanto intervenção fracassa
O reflexo imediato da operação mal sucedida, de acordo com o relato, foi um dólar mais fragilizado e uma busca por proteção em outras divisas e em metais preciosos. A Verde informou que manteve ao longo do mês posições em ouro e prata, tratados como peças relevantes de portfólio para um ambiente de juros contidos à força.
O contrato de ouro para dezembro subiu 10,68% em agosto na Comex (bolsa de mercadorias de Nova York onde se negociam metais), no melhor desempenho mensal desde janeiro. O contrato de prata para o mesmo vencimento avançou 15,78%.
| Ativo ou indicador | Desempenho em agosto |
|---|---|
| Ouro dezembro na Comex | 10,68% |
| Prata dezembro na Comex | 15,78% |
| Fundo Verde | 1,98% |
| CDI (Certificado de Depósito Interbancário) | 1,09% |
| Ibovespa | -0,33% |
O fundo Verde registrou ganho de 1,98% em agosto, ante 1,09% do CDI. No acumulado do ano, a valorização chega a 10,33%, contra 9,33% do referencial. A gestora atribuiu o resultado do mês ao ouro, à prata, à bolsa internacional e às operações de trading de curto prazo. As subtrações foram descritas como pontuais e vieram do juro real americano — o rendimento acima da inflação nos EUA — e do crédito privado, este apontado como o principal fator negativo em 2026.
Brasil entra em modo eleitoral e Verde reforça bolsa
No mercado doméstico, a Verde afirma que a disputa eleitoral ganhou intensidade e imprevisibilidade, com levantamentos recentes indicando uma corrida mais equilibrada do que o consenso projetava um mês atrás. O Ibovespa, principal índice da B3, teria iniciado a reprecificação dessa incerteza a partir da metade de agosto, ao devolver parte das perdas da primeira quinzena e fechar o mês com recuo de apenas 0,33%.
A resposta da gestora foi ampliar a exposição à renda variável brasileira e seguir com posições compradas em opções (contratos que dão direito de comprar ou vender um ativo por preço predeterminado) para capturar o prêmio de risco (retorno adicional exigido para assumir incerteza) ainda elevado em diversos setores. Na renda fixa local, a casa informou que permanece sem apostas direcionais, por avaliar que o juro real brasileiro, embora em nível historicamente elevado, oferece compensação insuficiente.
