O Bank of America projeta alta de cerca de 10% nos preços do boi no Brasil ao longo de 2027, movimento que acompanha a entrada do setor na fase de retenção de bovinos. No mesmo relatório, o banco avalia que a fase mais dura de rentabilidade do boi nos Estados Unidos já ficou para trás, mas isola um ponto de atenção imediato: a formação de estoques da Minerva (BEEF3) nos Estados Unidos tende a consumir capital de giro no 3T26.
As duas dinâmicas correm em paralelo. Enquanto o ciclo brasileiro de oferta se aperta e sustenta o preço da matéria-prima, as plantas americanas de JBS (JBSS32) e MBRF (MBRF3) começam a deixar o fundo do poço da rentabilidade. Para quem acompanha os frigoríficos listados na B3, o quadro combina margens mais desafiadoras na origem brasileira com recuperação do lado americano — e um teste de liquidez concentrado na Minerva no curtíssimo prazo.
Retenção de gado derruba abates e sustenta o boi
O relatório, assinado pelas analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo, compila o que os analistas ouviram de diretores de finanças e executivos de RI — a área que fala com o mercado — das três companhias. As conversas ocorreram numa viagem de investidores promovida pela equipe de análise de crédito para mercados emergentes do banco, com representantes de mais de 30 empresas.
No Brasil, o motor da projeção está na retenção de animais, que reduz a oferta disponível para abate. O volume de abates caiu aproximadamente 10% no 3T26, aperto que tende a encarecer o principal insumo dos frigoríficos e a comprimir a margem de quem opera no país. No mercado externo, a carne bovina mantém preços firmes, mas o acesso ao mercado americano e o formato das cotas chinesas para 2027 seguem em aberto.
Para os frigoríficos, o encarecimento do animal chega junto com a temporada de definição das regras de comércio nos dois mercados citados no relatório. A forma como essas regras forem desenhadas pode mudar o ritmo de embarques ao longo de 2027 e, com isso, o equilíbrio entre custo do insumo e preço de venda.
Minerva: estoques nos EUA travam o caixa até o 4T26
O escoamento de carne para os Estados Unidos continua devagar enquanto o novo regime de importação americano é posto em prática. Nesse intervalo, a Minerva acumula estoques no país — recursos ficam presos em produto que ainda precisa encontrar comprador. A recuperação desse indicador, na visão do banco, só deve ganhar corpo no 4T26.
A cota chinesa de importação de carne para 2027 é outro ponto de atenção. Pelo critério de ordem de chegada, a fatia destinada ao país acabaria em quatro meses, segundo o cálculo do BofA. A defesa do setor é um cronograma escalonado, que considere a participação de mercado recente de cada fornecedor, de modo a espalhar o volume ao longo do ano em vez de concentrá-lo nos primeiros meses.
Três fatores explicam a retomada das margens americanas
JBS e MBRF avaliam que o aperto de margem na operação americana de bovinos tocou o fundo e deve ceder nos próximos trimestres. O BofA elenca três motores para essa recuperação: o retorno do gado mexicano às compras americanas, carcaças mais pesadas e o encerramento de plantas, que empurrou a ocupação da capacidade do setor acima de 80%.
A demanda continua firme, e os preços do atacado ficaram estáveis ou um pouco menores na comparação entre trimestres. O indicador de margem da HedgersEdge avançou de forma expressiva nas últimas semanas, e as empresas relatam comportamento parecido nos spreads que conseguem efetivamente entre o preço de venda e o custo do animal.
O relatório retoma ainda o que a JBS indicou na teleconferência do 2T26: a margem da divisão de carne bovina nos EUA deve ganhar tração em 2027, com chance de retornar para perto do equilíbrio operacional, o ponto em que receitas e custos se igualam. A recuperação americana funciona como contrapeso à pressão de custo que se desenha no lado brasileiro da operação.
Desalavancagem assume o centro da agenda
Com o crédito mais restritivo, as companhias cortam o capex de expansão e colocam a desalavancagem — a redução do endividamento em relação ao porte do negócio — à frente na lista de prioridades, segundo o BofA. As metas e as iniciativas diferem bastante entre as três.
A Minerva reduziu o percentual do lucro que repassa aos acionistas e carrega caixa acima do piso de R$ 10 bilhões; a meta é operar com alavancagem entre 1,7 e 1,8 vez já no primeiro semestre de 2028. A JBS mira reduzir a alavancagem medida por dívida líquida sobre Ebitda para até 3 vezes em 2027, e há aproximadamente US$ 1 bilhão em proventos condicionados a essa meta. A MBRF, por sua vez, reduz o capex e renegocia os vencimentos mais curtos, com duas iniciativas citadas pelo banco: a volta às emissões de dívida no exterior e a abertura de capital da Sadia Halal.
| Companhia | Alavancagem alvo | Prazo | Iniciativas citadas |
|---|---|---|---|
| JBS (JBSS32) | dívida líquida/Ebitda de até 3x | 2027 | cerca de US$ 1 bilhão em proventos atrelados à meta |
| Minerva (BEEF3) | 1,7 a 1,8 vez | 1º semestre de 2028 | corte na distribuição de lucro; caixa acima de R$ 10 bilhões |
| MBRF (MBRF3) | — | curto prazo | volta ao mercado externo de bonds; abertura de capital da Sadia Halal |
4T26, 2027 e 1S2028: os prazos que concentram a execução
Os próximos trimestres reúnem os pontos de verificação. A Minerva tem no 4T26 a janela para o capital de giro aliviar com a venda dos estoques americanos, e no primeiro semestre de 2028 o prazo para alcançar a faixa de 1,7 a 1,8 vez. A JBS trabalha com uma alavancagem de até 3 vezes ao longo de 2027, ano em que se espera a melhora da operação de carne bovina nos EUA e no qual o BofA projeta a valorização de 10% do boi.
Fora do balanço, duas variáveis de comércio exterior seguem abertas: o ritmo de liberação das cotas chinesas e a execução do novo regime de importação americano. Ambas afetam o escoamento da produção brasileira e, por consequência, o caixa dos exportadores.
O acompanhamento do setor, assim, se desloca do anúncio para a execução: a velocidade de venda dos estoques americanos, o cumprimento das metas de alavancagem e a consistência da retomada das margens nos EUA são os números que devem aparecer nos próximos balanços.
