Iene cai apesar da alta de juros do BoJ: o mercado olha o ciclo, não o anúncio
O Banco do Japão (BoJ) levou sua taxa básica de juros de 1% para 1,25% ao ano, em votação de 7 a 2, e o câmbio reagiu na contramão do manual: o dólar avançou a 156,75 ienes por volta das 16h50 (de Brasília). A alta de 25 pontos-base já era amplamente esperada e, isolada, não foi suficiente para o mercado acreditar que a autoridade japonesa conseguirá aproximar os juros de um patamar neutro, na avaliação da analista sênior da Swissquote, Ipek Ozkardeskaya.
Para Robin Brooks, pesquisador sênior da Brookings Institution e ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), quem tem instrumentos para sustentar o iene é o próprio banco central japonês — intervenções no câmbio não cumprem esse papel sozinhas. O recado é o de que a moeda responde menos ao anúncio e mais à expectativa sobre a extensão do ciclo.
O recado é o de que a moeda responde menos ao anúncio e mais à expectativa sobre a extensão do ciclo.
Ueda mantém o ciclo em aberto e o placar explica o tom
O presidente do BoJ, Kazuo Ueda, afirmou que o risco de o núcleo de preços japonês — a inflação subjacente, que desconsidera itens mais voláteis — superar a meta de 2% não está descartado, e que novos aumentos virão na medida em que economia, preços e condições financeiras sinalizarem essa necessidade. Um placar apertado, de 7 votos a 2, somado a uma linguagem condicional, ajuda a explicar por que o aperto não se converteu em força para o iene.
O placar das moedas na sessão
| Referência | Nível | Movimento |
|---|---|---|
| Dólar vs iene | 156,75 ienes | alta |
| Euro vs dólar | US$ 1,1488 | alta |
| Libra vs dólar | US$ 1,3396 | alta |
| Índice DXY | 100,222 pontos | -0,02% no dia; +1,1% na semana |
O DXY, que mede o dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, ficou praticamente no zero a zero, com -0,02%, mas ainda acumula ganho de 1,1% na semana. O quadro geral é de dólar sem sinal único ante a maioria das divisas, com o iene na exceção mais visível.
Yuan: melhor dia em mais de quatro anos
Na direção oposta à do iene, o yuan chinês viveu nesta sessão seu melhor dia contra o dólar em mais de quatro anos. A moeda negociada fora da China continental — a cotação offshore — passou de 6,70 por dólar durante o pregão, no maior patamar desde julho de 2022, sustentada por exportações fortes e pelo respaldo do PBoC, o banco central do país.
O que muda para quem acompanha o câmbio daqui
Nos Estados Unidos, o presidente do Fed de Kansas City, Jeff Schmid, disse ter apoiado a decisão do Fomc, o comitê de política monetária do Fed, nesta semana, de elevar as taxas como um passo para reduzir uma inflação que ele classifica como muito alta por muito tempo. Um BoJ subindo devagar e um Fed ainda em modo restritivo convivem com um dólar global sem direção definida — combinação que tende a deixar o câmbio mais dependente dos dados de atividade e de inflação do que das declarações em si.
No mercado doméstico, foram vendidos 50.000 contratos de swap pelo Banco Central, numa operação de rolagem do vencimento de 1º de outubro, feita no fim da manhã e sem efeito sobre as cotações. A referência recente por aqui é de um dólar praticamente estável, a R$ 5,14, com alta de 0,4% na semana em uma sessão sem gatilhos relevantes. Para quem tem exposição internacional, o que muda não é o nível instantâneo das moedas, e sim o critério de leitura: o prêmio de risco cobrado em moeda forte tende a acompanhar a trajetória esperada de juros, e não o anúncio isolado de cada banco central.
