Principais pontos

  • O Itaú BBA e o Bank of America (BofA) passaram a defender exposição maior a ações "bond proxies" — papéis que se comportam de maneira semelhante aos títulos de dívida, com retorno mais estável e, em muitos casos, dividendos consistentes.
  • Shopping centers apresentam a maior sensibilidade, com correlação de -0,55 frente aos juros reais de 10 anos.
  • A Eneva é a principal preferência do BBA no elétrico e no saneamento, com mais de 75% do EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) contratado até 2030 e potencial de alta de 13%.
  • A Multiplan negocia com uma taxa interna de retorno (TIR) real de aproximadamente 11%, equivalente a um prêmio de 300 pontos-base sobre a média histórica de 250 pontos-base.

Bond proxies: a correlação de -0,42 que sustenta a tese

O Itaú BBA e o Bank of America (BofA) passaram a defender exposição maior a ações "bond proxies" — papéis que se comportam de maneira semelhante aos títulos de dívida, com retorno mais estável e, em muitos casos, dividendos consistentes. A tese do BBA foi apresentada em 10 de setembro, na série de debates Bull & Bear do banco, e tem como pano de fundo a possibilidade de desaceleração da economia brasileira em 2027.

A leitura das duas casas é que companhias com menor dependência do ciclo econômico e maior sensibilidade à trajetória da Selic tendem a se beneficiar de um eventual ciclo de queda dos juros reais. O argumento quantitativo aparece na correlação: entre as categorias analisadas pelo BBA, bond proxies registram a maior correlação negativa com os juros reais em 12 meses, de -0,42. Empresas domésticas vêm na sequência, com -0,35; financeiras, com -0,32; e commodities e exportadoras, com -0,17.

Em termos práticos, quanto mais negativa a correlação, mais o grupo tende a andar na direção oposta à dos juros reais. É esse comportamento estatístico que recoloca o tema no centro da mesa quando o mercado passa a precificar alívio monetário. O BBA elege infraestrutura e empresas sensíveis aos juros como seu principal tema de investimento, com preferência por companhias capazes de entregar retornos reais de dois dígitos.

Shoppings puxam a sensibilidade, com -0,55

Dentro do grupo, os segmentos reagem de formas distintas. Shopping centers apresentam a maior sensibilidade, com correlação de -0,55 frente aos juros reais de 10 anos. Utilities aparecem com -0,41, rodovias com -0,39 e telecomunicações com -0,37.

Para quem acompanha o setor, o ranking funciona como bússola: quanto mais negativa a correlação medida pelo BBA, maior tende a ser o peso da curva de juros reais no desempenho desses papéis durante um ciclo de flexibilização monetária — e menor o peso relativo das variáveis ligadas ao ciclo de atividade.

As preferidas: Axia, Equatorial e Multiplan

Entre as principais escolhas do BBA estão Axia, Equatorial e Multiplan, que oferecem exposição a infraestrutura, utilities e shopping centers. O banco mantém ainda Eneva (ENEV3), Sabesp (SBSP3), Copel (CPLE3) e Allos (ALOS3) em uma carteira mais ampla de companhias sensíveis aos juros.

O BofA, que também recomenda ampliar a exposição ao grupo, lista Equatorial (EQTL3), Ecorodovias (ECOR3) e Allos (ALOS3) entre as bond proxies preferidas. O banco americano projeta Selic a 11,25% em 2027.

AçãoTickerIndicador citado na análise
AxiaAXIA3Dividend yield médio estimado em 12,5% entre 2026 e 2029 (BBA); entre 11% e 15% em 2026 e 2027 (BofA)
EquatorialEQTL3Potencial de alta de 66% (BBA); TIR real de cerca de 12% (BofA)
EnevaENEV3Potencial de alta de 13% (BBA)
EnergisaNão citado na fontePotencial de alta estimado em 70%
MultiplanMULT3TIR real de aproximadamente 11%
EcorodoviasECOR3Retorno interno real estimado em cerca de 12%
ISA EnergiaISAE4TIR real de aproximadamente 10%; potencial de alta superior a 15%
VivoVIVT3Dividend yield estimado em cerca de 8% para 2026

O que cada tese oferece em números

A Eneva é a principal preferência do BBA no elétrico e no saneamento, com mais de 75% do EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) contratado até 2030 e potencial de alta de 13%. A companhia reúne catalisadores que podem adicionar até R$ 3,50 por ação até o fim de outubro.

Na mesma frente, a Axia aparece com dividend yield médio estimado em 12,5% entre 2026 e 2029. Energisa e Equatorial têm potenciais de alta estimados em 70% e 66%, respectivamente.

O BofA tem a Equatorial como principal escolha entre as empresas de energia para um cenário de maior apetite a risco, destacando a sensibilidade da companhia aos juros de curto prazo e uma TIR real de aproximadamente 12%. A Axia é apontada como capaz de performar bem tanto em ambiente de apetite a risco quanto em um cenário defensivo, com o maior beta (medida de sensibilidade de uma ação frente ao mercado) da cobertura do banco e dividend yield estimado entre 11% e 15% em 2026 e 2027. Para perfis mais cautelosos, a ISA Energia (ISAE4) é a principal escolha defensiva, com TIR real de aproximadamente 10% e potencial de alta superior a 15% caso sua obrigação previdenciária seja solucionada.

Multiplan, Ecorodovias e o efeito El Niño

Entre as administradoras de shopping centers, a preferência do BBA é a Multiplan, com exposição a ativos voltados ao público de alta renda e histórico de poder de repasse de preços. A Multiplan negocia com uma taxa interna de retorno (TIR) real de aproximadamente 11%, equivalente a um prêmio de 300 pontos-base sobre a média histórica de 250 pontos-base. O banco a considera a principal beneficiária da reforma tributária a partir de 2027.

No setor de transportes, a Ecorodovias é a escolha preferida, com retorno interno real estimado em cerca de 12%, sustentado por tráfego resiliente, receitas vinculadas à inflação e margens estáveis. Rumo (RAIL3) e Hidrovias (HBSA3) podem enfrentar pressão sobre os resultados caso o fenômeno El Niño prejudique os volumes de grãos no próximo ano.

O BofA considera as TIRs do setor de shoppings pouco atrativas em relação a outras bond proxies, mas mantém a Allos (ALOS3) como principal escolha, além de preferir Motiva (MOTV3) e Ecorodovias à Rumo.

Telecomunicações: neutro, com ressalvas

O Itaú BBA mantém posição cautelosa em telecomunicações e recomendação neutra para as empresas do setor, diante da competição mais acirrada e das dúvidas sobre a recuperação do mercado. A preferência relativa é a Vivo (VIVT3), mais resiliente em receita média por usuário, com maior exposição ao público de alta renda e dividend yield estimado em cerca de 8% para 2026.

A TIM (TIMS3) chama atenção pelo dividend yield de aproximadamente 12%, mas o banco ressalta o ritmo mais fraco de crescimento da base de assinantes. O BofA compartilha da cautela em relação às duas companhias.

O que observar daqui para frente

Para quem já tem exposição a esses setores, o efeito prático é uma troca de régua: a sensibilidade à curva de juros reais passa a explicar mais do retorno do que o ciclo de atividade. A correlação de 12 meses apurada pelo BBA é uma medida retrospectiva, não uma garantia de repetição, e serve como referência de monitoramento — não como previsão.

  • Catalisadores da Eneva, que podem somar até R$ 3,50 por ação até o fim de outubro
  • Dividend yields projetados para 2026 e 2027, com destaque para Axia (11% a 15%), Vivo (cerca de 8%) e TIM (cerca de 12%)
  • Reforma tributária, cujos efeitos sobre a Multiplan são projetados a partir de 2027
  • El Niño e o risco de pressão sobre volumes de grãos para Rumo e Hidrovias no próximo ano
  • Trajetória da Selic, que o BofA projeta em 11,25% para 2027