O Bradesco encerrou setembro de 2026 com R$ 1,15 trilhão em carteira de crédito, avanço de 11,1% em doze meses, segundo o balanço do terceiro trimestre divulgado na noite de quinta-feira (22). O dado que melhor explica a estratégia da administração não é o tamanho do estoque, e sim a sua composição: 61,2% das operações contam com algum tipo de garantia, fatia que era de 45,1% em dezembro de 2019 — uma diferença de 16,1 pontos percentuais.
O crescimento veio concentrado em pessoas jurídicas, e não por acaso. Na pessoa física, os atrasos superiores a 90 dias atingiram 5,8% no trimestre, patamar que levou a instituição a segurar as linhas mais sensíveis ao emprego e à renda. Na teleconferência de resultados, o CEO Marcelo Noronha descreveu um sistema financeiro ainda tensionado por crédito e calotes, mas sustentou que o Bradesco carrega hoje uma combinação de carteiras mais defensiva que a do restante do mercado. Por volta das 10h48, no momento da publicação do balanço, BBDC4 liderava as quedas do Ibovespa.
Garantia: o que ela cobre e o que continua exposto
Colateral — o bem ou recebível que o credor pode executar quando o devedor deixa de pagar — é o eixo dessa transformação. Cerca de 72% do crédito concedido a pessoas físicas já tem esse lastro. Em caso de calote, o banco busca a garantia e recupera parte do valor, em vez de lançar a perda inteira no resultado. O mecanismo diminui a profundidade do prejuízo, não a frequência dos atrasos: a própria instituição reconheceu que a inadimplência das linhas cobertas também subiu no trimestre.
Nas micro, pequenas e médias empresas, a seletividade aparece de forma mais nítida. No capital de giro sem garantia, a retração foi de 3,3% entre julho e setembro e de 7,2% na comparação anual. Na direção oposta, as operações amparadas pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e pelo Fundo de Garantia de Operações (FGO) — fundos que absorvem parte da perda quando o cliente não honra o compromisso — cresceram 31,5% em doze meses.
Noronha afirma que o crédito total subiu 31% desde o fim de 2023 sem que o custo de crédito — a despesa que o banco reconhece com clientes que não devem pagar — acompanhasse essa expansão em termos nominais. O executivo classificou a carteira atual como bem mais colateralizada e robusta do que a de 2023, argumento que usa para separar o Bradesco da pressão que atinge o conjunto do setor.
Receita de 1% contra provisão de 7%: a conta que apertou o trimestre
O lucro recorrente somou R$ 7,1 bilhões, com ROE — o retorno sobre o patrimônio líquido, indicador que mede o ganho do banco sobre o capital dos acionistas — de 15,6%. O Itaú BBA considerou os números em linha com o esperado, mas chamou atenção para a composição menos favorável: a receita avançou 1% no trimestre, contra alta de 7% nas provisões para perdas.
Para a casa, receitas ajustadas ao risco mais fracas somadas a um desempenho abaixo do previsto no segmento de seguros podem pressionar as estimativas de lucro para 2027. O Itaú BBA trabalha com preço-alvo de R$ 22,00 para 2027, o que corresponde a um potencial de 8,8%.
O BTG Pactual, em relatório assinado por Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, manteve visão neutra e preço-alvo de R$ 21,00. Os três vetores de alerta listados pela casa são a desaceleração da carteira, o aumento das provisões e a redução da cobertura da inadimplência — combinação que, na avaliação dos analistas, pode comprometer o ritmo de crescimento dos lucros e deixar 2027 com um ponto de partida mais difícil.
O Safra seguiu o caminho oposto e reiterou visão de compra, com preço-alvo de R$ 22,00 e potencial de 9%, em análise assinada por Daniel Vaz e Rafael Nobre. A instituição aposta que o Bradesco está resolvendo os problemas de crédito mais rapidamente do que se previa.
O que a troca de mix muda no risco de quem tem exposição
O banco trocou parte do volume por lastro. Historicamente, carteiras com mais garantia tendem a produzir perdas menores por operação quando o ciclo econômico deteriora, ao custo de spreads mais baixos e de uma receita que cresce menos por real emprestado. É essa equação que ajuda a explicar o +1% de receita convivendo com um lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões.
O segundo ponto é o colchão contábil. Cobertura menor de inadimplência significa que, se os atrasos de pessoas físicas continuarem em 5,8% ou subirem, a provisão precisará acompanhar — e o efeito aparece direto no resultado. O terceiro é a dependência do custo do dinheiro: a administração estima que, em um quadro com juros abaixo de 10% e atividade mais forte, a carteira poderia crescer 20% e o lucro líquido seria de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões maior. Essa projeção interna é a medida da alavancagem operacional do banco ao ciclo de juros — e também da sua fragilidade quando o cenário vira.
Há ainda uma consequência de prazo mais longo que costuma passar ao largo do balanço trimestral. Quanto mais o crescimento depende de operações com bens em garantia, mais o desempenho do banco passa a sentir o comportamento dos preços desses ativos, tipicamente imóveis e recebíveis. Em ciclos de valorização, a recuperação é mais eficiente; em ciclos de queda, o valor recuperado encolhe junto. A proteção existe, mas não é imune ao ambiente econômico.
Para quem acompanha o papel, três linhas merecem atenção nos próximos balanços: a inadimplência acima de 90 dias na pessoa física, a relação entre provisões e receitas e a participação das operações com garantia, que sustenta o discurso da administração. As estimativas de lucro para 2027 e os preços-alvo das casas divergem justamente porque cada uma atribui peso diferente a essas três variáveis.
| Indicador | 3T26 |
|---|---|
| Carteira de crédito | R$ 1,15 trilhão (+11,1% em 12 meses) |
| Inadimplência PF acima de 90 dias | 5,8% |
| Operações com garantia | 61,2% (45,1% em dez/2019) |
| Crédito a PF com garantia | cerca de 72% |
| Capital de giro sem garantia (PMEs) | -3,3% no trimestre; -7,2% em 12 meses |
| Operações com FGI e FGO (PMEs) | +31,5% em 12 meses |
| Lucro recorrente | R$ 7,1 bilhões |
| ROE | 15,6% |
| Receita no trimestre | +1% |
| Provisões no trimestre | +7% |
