Credores travam o plano e o calendário vira peça-chave
Os detentores de títulos de dívida da Braskem (BRKM5) resistem à mais recente proposta de reestruturação apresentada pela companhia, e o impasse aumenta a pressão sobre a Petrobras (PETR3;PETR4) para aportar capital novo. O pacote em discussão abrange uma dívida de US$ 11 bilhões, e o desfecho está amarrado a duas datas: 9 de outubro para um acordo sobre os termos básicos e o final de novembro para a entrega do plano definitivo. Conforme apuração com fontes que pediram para não ser identificadas, a possibilidade de um pedido de recuperação judicial voltou a ganhar espaço nas conversas.
O que os credores exigem e o que a Petrobras evita
O nó está no grau de comprometimento pedido aos acionistas. Os credores condicionam qualquer acordo a um aporte de capital com caráter exequível — um compromisso que os controladores não possam simplesmente deixar de honrar adiante. Parte deles deixou explícito que não fecha sem essa garantia. A Petrobras tem se envolvido cada vez mais nas tratativas e sinaliza preferir evitar uma recuperação judicial, mas até agora não se dispôs a oferecer o tipo de obrigação que os detentores da dívida cobram. A distância entre as posições é tamanha que alguns credores estudam nem apresentar contraproposta.
A Braskem é controlada pela Petrobras em conjunto com o IG4 Capital Group. Nem o IG4 nem a Braskem comentaram o assunto, e a Petrobras não respondeu de imediato a pedidos de comentário.
A proposta colocada na mesa em agosto
Na versão mais recente do plano, entregue no fim de agosto, os credores entrariam com cerca de US$ 2 bilhões em recursos novos. Desse total, aproximadamente US$ 1,25 bilhão financiaria um leilão de recompra de dívida por até 50% do valor de face — o preço original de emissão de cada título. É uma mudança relevante em relação às discussões iniciais, que não previam desconto, o chamado haircut. Os US$ 750 milhões restantes seriam destinados a capital de giro.
O rendimento de 26% como termômetro do risco
Os títulos da Braskem denominados em dólar com vencimento em 2030 dispararam para um rendimento de cerca de 26% ao ano, patamar historicamente associado a dívidas de empresas em situação de distress — o termo usado no mercado para emissões com risco elevado de inadimplência. Quanto maior o retorno exigido pelo investidor, maior a percepção de risco embutida no preço do papel. O indicador é o mais direto para medir o grau de desconfiança que cerca a negociação.
| Prazo | O que precisa acontecer |
|---|---|
| 9 de outubro | Acordo sobre os termos básicos da renegociação, em meio ao período eleitoral brasileiro |
| Final de novembro | Apresentação do plano definitivo, com adesão de mais da metade dos credores |
Como a Braskem chegou a esse ponto
Maior produtora de petroquímicos da América Latina, a companhia acumulou anos de turbulência. O caixa encolheu depois de um desastre ambiental em uma de suas minas de sal, e o setor petroquímico atravessou um longo período de preços deprimidos. A isso se somaram tentativas fracassadas do conglomerado Novonor de vender sua participação de controle.
Em junho, a Braskem entrou com uma medida cautelar — instrumento judicial que preserva a situação da empresa enquanto ela negocia — e ganhou tempo para reunir adesão de credores suficientes a um processo extrajudicial. Em agosto, tornou-se mais uma grande companhia brasileira forçada a reestruturar dívidas após atrasar o cumprimento de obrigações. Cerca de US$ 7 bilhões do montante abrangido pela recuperação extrajudicial são devidos a detentores de títulos globais.
O plano apresentado previa a injeção de capital acionário novo depois de um Período de Alívio, no qual a empresa buscaria reorganizar operações e atender a necessidades de capital e liquidez. O caminho poderia ser uma oferta pública de ações sem direito a voto.
O que observar daqui para frente
A combinação de prazos curtos com a presença da Petrobras no bloco de controle adiciona camadas políticas e econômicas ao processo. Historicamente, negociações desse tipo tendem a se concentrar nos dias que antecedem o prazo final, quando a alternativa — a recuperação judicial — passa a ser precificada com mais força pelos credores. Para quem acompanha a tese, os próximos movimentos a monitorar são a eventual formalização de um compromisso de aporte pelos acionistas e a decisão dos credores sobre apresentar ou não uma contraproposta.
