A MBRF (MBRF3) pode capturar cerca de R$ 230 milhões em ganho líquido a cada 1 ponto percentual de corte na Selic, segundo estimativa do Goldman Sachs. O banco projeta que a normalização dos juros brasileiros para 12% até o fim de 2027 sustenta potencial de valorização de 23% para a ação apenas pelo efeito financeiro de uma dívida mais barata, e mantém recomendação de compra com preço-alvo de R$ 22,90.
O número que sustenta a tese
O dado mais relevante da tese não aparece no título. Ao encerrar o segundo trimestre de 2026, a MBRF reportava dívida bancária bruta de R$ 68,1 bilhões. Dessa cifra, R$ 38,9 bilhões estavam denominados em reais e, na prática, sujeitos à variação da Selic. É sobre essa fatia que o ciclo de cortes incide diretamente.
O Goldman calcula que cada corte de 1 ponto percentual na taxa básica representa ganho líquido de aproximadamente R$ 230 milhões para a companhia, já considerando impostos e o menor resultado financeiro sobre o caixa. Com alavancagem de 4,2 vezes no segundo trimestre — número que considera financiamento de fornecedores e arrendamentos —, a estrutura de capital transforma a Selic em variável decisiva para o resultado.
Com rendimento atual do fluxo de caixa livre de 8,6% e uma Selic de 12%, o banco estima potencial de alta de 23% para as ações nos próximos 12 a 18 meses apenas pela redução do custo da dívida brasileira. A avaliação usa soma das partes, com múltiplo implícito EV/Ebitda de 6 vezes para o período entre o quinto e o oitavo trimestre. O EV/Ebitda (valor da firma sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) mede quanto o mercado paga pelo negócio.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Dívida bancária bruta (2T26) | R$ 68,1 bilhões |
| Dívida em reais exposta à Selic | R$ 38,9 bilhões |
| Ganho líquido por 1 p.p. de corte na Selic | R$ 230 milhões |
| Impacto por +0,25 p.p. nos Fed Funds | R$ 40 milhões |
| Alavancagem (2T26) | 4,2x |
| Yield do fluxo de caixa livre | 8,6% |
| Selic no cenário para 2027 | 12% |
| Preço-alvo / cotação de referência | R$ 22,90 / R$ 16,67 |
O freio americano
O efeito favorável da Selic em queda tem contrapeso. Conforme o Goldman, cada aumento de 0,25 ponto percentual na taxa dos Fed Funds elevaria em cerca de R$ 40 milhões o custo do serviço da dívida da MBRF. Em outras palavras, um ciclo de juros altos nos Estados Unidos tende a corroer parte do alívio gerado no Brasil, o que mantém o câmbio e a política monetária americana no radar de quem acompanha a tese.
Riscos e o que observar
O banco mantém preço-alvo de R$ 22,90, o que representa valorização de 37,4% sobre a cotação de R$ 16,67 usada na análise. A combinação entre a estrutura de dívida do frigorífico e um eventual ciclo de normalização dos juros no Brasil tende a melhorar a relação entre risco e retorno da ação, na leitura do Goldman Sachs.
A lista de riscos apontada pelo banco é ampla: a própria elevada alavancagem, uma piora abrupta dos resultados da BRF, alocação de capital dilutiva, uma desaceleração prolongada do ciclo de carne bovina nos Estados Unidos, embargos ou restrições às exportações, problemas sanitários, riscos cambiais, deterioração do cenário macroeconômico e demanda global por proteínas abaixo do esperado. Para o investidor, o ponto de atenção é que boa parte da tese depende de variáveis fora do controle da companhia — juros, câmbio e comércio internacional.
