Brent bate US$ 108,83 e embaralha as petroleiras da B3

O Brent de novembro, contrato com vencimento mais próximo, bateu US$ 108,83 por barril na máxima da sessão desta segunda-feira (28), com ganho acima de 4% no intradia, e levou as companhias de óleo e gás para o grupo das maiores altas da B3. Prio (PRIO3) fechou com 3,91% de valorização, a R$ 61,67; PetroReconcavo (RECV3) subiu 4,39%, a R$ 10,93; e Brava Energia (BRAV3) avançou 3,16%, a R$ 17,96. Os números são os apurados depois do fechamento do pregão.

Na Petrobras, as duas classes de papel andaram em ritmos distintos: as ordinárias PETR3 somaram 2,17%, a R$ 54,19, e as preferenciais PETR4 ficaram em 1,88%, a R$ 48,89. Na parte da tarde, o barril já havia perdido parte do fôlego e rondava US$ 105.

AtivoTickerVariaçãoFechamento
PrioPRIO3+3,91%R$ 61,67
PetroReconcavoRECV3+4,39%R$ 10,93
Brava EnergiaBRAV3+3,16%R$ 17,96
Petrobras ONPETR3+2,17%R$ 54,19
Petrobras PNPETR4+1,88%R$ 48,89

Por que o mesmo barril produz altas diferentes

A resposta está na exposição de cada companhia ao preço da commodity. Relatório do Itaú BBA atribui à Prio a maior sensibilidade do setor às oscilações do petróleo, por dois fatores somados: a produção ser concentrada em óleo e o uso mais baixo de hedge. Hedge é o instrumento financeiro que trava antecipadamente o preço de parte do volume a ser extraído — o mecanismo amortece uma queda da commodity, mas também limita o ganho quando o barril dispara. Companhias que recorrem menos a esse tipo de proteção absorvem o movimento internacional de forma mais direta nas expectativas de receita.

O BTG Pactual, em relatório divulgado no domingo (27), adotou tom mais cauteloso com PRIO3. A casa registrou que parte do mercado entende que a valorização recente já incorporou parcela relevante do potencial da ação, somando a isso a ausência de catalisadores relevantes no curto prazo e dúvidas ligadas à governança.

Para uma carteira com exposição ao setor, esse detalhe técnico muda a leitura do pregão: a alta simultânea dos papéis não indica que todos respondem da mesma forma ao barril, e o desempenho de uma única sessão diz pouco sobre os resultados que cada companhia deve apresentar nos próximos balanços.

Petrobras: o petróleo é só uma das variáveis

No caso da estatal, o barril divide espaço com o refino, etapa que transforma óleo bruto em gasolina, diesel e outros derivados. O Itaú BBA aponta que Petrobras, Brava Energia e PetroReconcavo têm sensibilidade direta menor às altas do petróleo — dependendo da empresa, por causa da presença do refino, do peso do gás natural nas operações ou do uso de proteções financeiras.

O BTG Pactual relatou que a Petrobras virou a escolha mais consensual do setor depois de encontros presenciais com fundos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Quase a totalidade das gestoras ouvidas já tinha o papel na carteira, com fatia média entre 6% e 8%. Entre os fatores citados pela casa aparecem o volume produzido, um ponto de equilíbrio de caixa que exige petróleo mais barato, a rentabilidade do refino e a perspectiva de resultados fortes nos próximos trimestres, além de possíveis novidades na revisão das projeções de produção e no próximo plano estratégico.

Em relatório, o Itaú mantém classificação de compra para PETR4, com preço-alvo revisado de R$ 63 para R$ 64 e horizonte no fim de 2027, e segue vendo a estatal como a preferida do setor. Em simulação da própria casa, com o Brent a US$ 75, o retorno projetado com dividendos em 2027 chega a 15% — estimativa da instituição que não configura promessa de pagamento. O banco também avalia que a rentabilidade internacional do refino, hoje em patamar elevado, tende a dar sustentação aos resultados mesmo se o petróleo ceder.

Brava e PetroReconcavo: caixa à frente, dúvidas atrás

O BTG registrou que o mercado enxerga na Brava espaço para gerar mais caixa a partir de 2027. Do outro lado, listou pontos que pesam no debate: previsibilidade dos resultados, trocas no comando, o critério de alocação de capital e o peso estratégico que a Ecopetrol pode exercer.

O que observar até terça-feira

O gatilho da sessão foi geopolítico. Os Estados Unidos recusaram a oferta iraniana que previa o fim dos confrontos e a reabertura do Estreito de Ormuz, o que reduziu as expectativas de normalização rápida do transporte de petróleo na região. Antes do conflito, cerca de 20% da oferta mundial da commodity escoava por esse corredor.

Há um caminho de alívio em aberto. Mediadores do Catar poderiam conduzir conversas em separado, uma com enviados americanos e outra com representantes iranianos. O chanceler do Irã, Abbas Araqchi, e representantes dos Estados Unidos poderiam participar das tratativas até esta terça-feira (29).

O pregão anterior havia mostrado o outro lado da moeda: na sexta-feira (25), o Brent recuou 2,1%, a US$ 104,32, e o WTI caiu 2,3%, a US$ 92,41, com o mercado precificando progresso nas conversas diplomáticas.

A consequência prática para quem acompanha o setor é que o preço do barril deixou de ser um sinal único. A diferença de sensibilidade entre as empresas tende a aparecer com força nos dias de oscilação acentuada, e o noticiário geopolítico segue como a principal variável de curto prazo para as petroleiras listadas na B3.