O Ibovespa ampliou a sequência negativa na manhã desta terça-feira, 29, e recuava 0,59%, aos 181.979,41 pontos, por volta das 11h31. O índice abriu em 182.993,14 pontos e marcou 181.562,24 pontos na mínima, depois de encerrar o dia anterior em baixa de 0,26%, aos 182.991,13 pontos — o quarto recuo consecutivo.

A pressão chega por dois caminhos distintos. No exterior, os contratos futuros de petróleo caíam mais de 1% e o minério de ferro perdia 0,78% em Dalian, na China. Internamente, a corrida presidencial apertada a poucos dias do primeiro turno mantém o investidor em compasso de espera e tende a sustentar a volatilidade.

Para Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, o índice funciona como uma balança: “Vejo o Ibovespa como uma balança. De um lado, tem o exterior. De outro, o Brasil, com alguns pontos que começaram a efetivamente fazer preço, principalmente a eleição”.

Commodities e Treasuries pesam sobre os gigantes do índice

As matérias-primas em queda atingem em cheio os papéis de maior peso. A Vale (VALE3) recuava 2,14%, e as ações da Petrobras oscilavam entre -0,43% na PN e -0,87% na ON, num dia de petróleo mais fraco no mercado internacional.

No setor bancário, o Banco do Brasil (BBAS3) era a exceção e avançava 0,88%. Já a Azzas (AZZA3) subia 5,67%, num ambiente de viés de baixa para os juros futuros.

Fora do Brasil, o rendimento dos Treasuries de 10 anos — títulos do governo americano que servem de referência para os juros globais — alcançou o maior patamar em duas décadas. João Oliveira, head da mesa de operações do Banco Moneycorp, relaciona o movimento a uma preocupação crescente com a inflação no mundo, com destaque para os Estados Unidos.

IGP-M supera projeções e desemprego fica estável

Na agenda doméstica, o IGP-M — índice que combina preços do atacado, do varejo e da construção civil — subiu 1,57% em setembro, após recuar 0,22% em agosto. O avanço ficou acima da mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 1,54%, e da expectativa da Reuters, de 1,55%. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 3,34%.

Já a taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, em linha com a mediana das expectativas do mercado. Ainda nesta terça-feira sai o Caged, levantamento oficial que mede a criação de vagas com carteira assinada.

Leonardo Brito, economista da Olimpo Investimentos, avalia que os números do emprego reforçam a resiliência do setor: “Uma economia com mercado de trabalho aquecido tende a sustentar o consumo e a demanda, dificultando assim uma convergência mais rápida da inflação, limitando uma flexibilização monetária mais rápida”.

Fiscal e eleição: a cautela que segura a Bolsa

O quadro fiscal segue no centro das preocupações. João Oliveira, do Banco Moneycorp, atribui parte da defensividade do índice à cautela com as contas públicas: “O aumento do Bolsa Família, que pode gerar um custo de mais de R$ 20 bilhões nas contas em 2027; a proibição das bets, que pode fazer com que o governo cerca de R$ 12 bilhões. Tudo isso representa piora fiscal. E eleição está neste contexto”.

No campo eleitoral, a pesquisa Atlas aponta Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente no primeiro turno, com 45,3% das intenções de voto, contra 42,2% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Num eventual segundo turno, os números se aproximam: Flávio Bolsonaro marca 47,7%, ante 47,6% de Lula — um empate técnico.

O que muda para quem investe

O investidor com exposição à Bolsa passa a lidar com duas fontes simultâneas de pressão. Uma vem de fora, das commodities e dos Treasuries; outra é doméstica, ligada ao fiscal e à eleição. Em ambientes assim, a volatilidade costuma ganhar espaço e a dispersão entre setores tende a aumentar.

O retrato do dia ajuda a visualizar essa assimetria.

AtivoVariação no dia
Vale (VALE3)-2,14%
Petrobras ON-0,87%
Petrobras PN-0,43%
Banco do Brasil (BBAS3)+0,88%
Azzas (AZZA3)+5,67%

Enquanto o petróleo e o minério de ferro seguem o preço internacional, os papéis domésticos ficam mais sensíveis ao noticiário político e à trajetória dos juros. Um mercado de trabalho aquecido, como o retratado pela desocupação de 5,3%, sustenta o consumo, mas também tende a dificultar uma queda mais rápida da inflação — o que costuma manter o prêmio de risco elevado por mais tempo.

A agenda desta terça ainda reserva o Caged, e as próximas pesquisas eleitorais devem continuar movimentando o mercado até o primeiro turno. Para quem acompanha a Bolsa, o ponto de atenção está em como os dois vetores — externo e doméstico — vão se equilibrar daqui para frente.