A C&A (CEAB3) reportou lucro líquido de R$ 170,3 milhões no terceiro trimestre de 2026, avanço de 145,1% na comparação com os R$ 69,5 milhões de um ano antes. O balanço divulgado em 5 de novembro revela que o impulso veio de fora da operação: o lucro contábil incorporou créditos de PIS e Cofins nascidos de entendimentos jurídicos sobre a essencialidade de insumos. Descontado esse item e considerando o pós-IFRS 16 — norma contábil que trata o aluguel das lojas como dívida e depreciação, e não como despesa —, o ganho caiu para R$ 56,5 milhões, 23,3% abaixo dos R$ 73,6 milhões de 2025.

Crédito fiscal reconhecido por tese jurídica altera o lucro no papel, não o movimento das lojas. A linha ajustada, portanto, é a que melhor retrata o varejo no trimestre: lucro menor ano contra ano, mesmo com receita em alta e margem de mercadoria mais robusta. É essa combinação — resultado contábil inflado por um evento pontual e operação com ganho pressionado — que organiza a leitura dos demais números.

Receita cresce 2,3% em trimestre de juros altos e Copa do Mundo

A receita líquida consolidada somou R$ 1,88 bilhão, 2,3% acima do 3T25. O vestuário respondeu por R$ 1,69 bilhão, com avanço de 2,6%. O pano de fundo é adverso: juros elevados, famílias endividadas e um efeito transitório de fluxo nas lojas ligado à Copa do Mundo na primeira metade do trimestre.

A partir de setembro, o tráfego melhorou, amparado pelo lançamento da coleção de verão e por gestão mais rígida de estoques. Para o investidor, o ponto é a sazonalidade: o quarto trimestre concentra a nova estação e, historicamente, costuma ser o período em que o varejo de vestuário testa a capacidade de converter fluxo em venda com preço cheio.

Margem bruta de vestuário chega a 56,0%, a 21ª alta seguida

Com precificação administrada de forma dinâmica e os primeiros frutos da nova estratégia logística, a margem bruta do vestuário atingiu 56,0%, 0,6 ponto percentual acima de um ano antes — a 21ª expansão trimestral consecutiva do indicador. O tíquete médio consolidado ficou em R$ 193,1.

O canal digital (site e aplicativo) cresceu 27,6% e passou a responder por 8,0% das vendas de mercadorias, apoiado pela jornada de compra em dois cliques e por ações de social commerce (vendas fechadas dentro de redes sociais).

Ebitda cai com os 50 anos da marca e o Rock in Rio

O Ebitda ajustado pós-IFRS 16 alcançou R$ 317,6 milhões, com margem de 16,9%. A empresa atribui o recuo a despesas de marketing que não devem se repetir: o pacote de ações pelos 50 anos da marca no país e a presença no festival Rock in Rio.

O Capex — aporte em ativos fixos, como lojas e centros de distribuição — totalizou R$ 183,9 milhões, 26,2% mais, impulsionado por reformas de lojas, abertura de unidades e pelo início das operações do novo centro de distribuição no Nordeste.

Dívida líquida sobe 119,2%, mas alavancagem fica em 0,2 vez

A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 200,5 milhões, 119,2% acima do patamar de um ano antes. A alavancagem medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda ficou em 0,2 vez, contra 0,1 vez no 3T25 — nível baixo em termos absolutos, ainda que a variação percentual chame atenção. O resultado financeiro foi negativo em R$ 56,9 milhões, 21,5% menor que no ano anterior, e o ROIC ajustado (retorno sobre o capital investido) ficou em 18,0% nos doze meses acumulados.

Métrica3T26Referência
Lucro líquido reportadoR$ 170,3 mi+145,1% a/a
Lucro ajustado pós-IFRS 16R$ 56,5 mi-23,3% a/a
Receita líquida consolidadaR$ 1,88 bi+2,3% a/a
Receita de vestuárioR$ 1,69 bi+2,6% a/a
Margem bruta de vestuário56,0%+0,6 p.p.
Ebitda ajustadoR$ 317,6 mimargem de 16,9%
Tíquete médioR$ 193,1—
Dívida líquidaR$ 200,5 mi+119,2% a/a
Alavancagem (DL/Ebitda)0,2 vezante 0,1 vez
CapexR$ 183,9 mi+26,2% a/a
ROIC ajustado (12 meses)18,0%—

O que a composição do lucro muda para quem acompanha a ação

O crédito tributário tem natureza pontual: engorda um trimestre específico e não tende a se repetir com o mesmo peso adiante. Isso desloca a atenção para a capacidade de a operação gerar caixa com margem bruta no maior nível da série recente e digital em expansão acelerada.

Do outro lado, o resultado financeiro segue negativo e o Capex mais alto aumenta a exigência de disciplina na conversão de lucro em caixa. Com alavancagem em 0,2 vez, o endividamento não aparece como risco imediato, mas o custo da dívida pesa proporcionalmente mais num ambiente de juros altos. A leitura para o próximo balanço passa por três pontos verificáveis: manutenção da margem de vestuário, velocidade do digital e comportamento do fluxo de clientes fora do efeito Copa do Mundo.