Entre janeiro e setembro de 2026, empresas e fundos brasileiros levantaram R$ 556,7 bilhões por meio de ofertas no mercado de capitais. A Anbima, que divulgou o balanço nesta terça-feira (20), trata o resultado como o maior já apurado pela entidade para um intervalo de nove meses desde 2012, quando a série começou.

O avanço sobre os mesmos meses de 2025 foi de 5,3% em valor e de 10,9% em quantidade, com 2.311 operações concluídas. Traduzido: o cheque médio encolheu e mais emissores bateram à porta do mercado. A composição por trás do total, porém, mudou bem mais do que o volume — e é aí que está a informação com utilidade prática para quem monta carteira.

Renda fixa segue na liderança, mas quem acelera é o híbrido

A renda fixa respondeu por R$ 441 bilhões do total e manteve com folga a condição de principal fonte de financiamento corporativo. O crescimento do ano, contudo, veio de outra prateleira: os instrumentos híbridos — grupo que reúne fundos imobiliários e Fiagros — somaram R$ 80,8 bilhões, expansão de 127% em doze meses.

As ofertas de ações, que englobam aberturas de capital (IPOs, a estreia de uma empresa na bolsa) e emissões secundárias (follow-ons, a venda de papéis adicionais por companhia já listada), chegaram a R$ 34,8 bilhões. Um ano antes, o mesmo recorte somava R$ 4,2 bilhões. Na prática, a janela que havia se fechado para novas companhias voltou a abrir.

A avaliação da Anbima é que o dado relevante não está no valor acumulado, e sim na diversificação da originação: um mercado capaz de abrir capital de empresa e de estruturar fundo imobiliário no mesmo exercício, segundo a entidade, sinaliza amadurecimento e resiliência. Cesar Mindof, diretor da Anbima, sustenta que a mudança no mix das ofertas foi mais importante do que o recorde em si.

FIIs: os R$ 70,6 bilhões que nem sempre são dinheiro novo

Os fundos imobiliários captaram R$ 70,6 bilhões nos nove primeiros meses, 114,3% acima do mesmo período de 2025, e foram o principal vetor da expansão híbrida. O número, porém, pede leitura cuidadosa: parte dessas ofertas não representou apenas ingresso de pessoa física e de investidor institucional, mas funcionou como moeda de pagamento em aquisições.

O setor atravessa um ciclo de consolidação, com fundos incorporando outros fundos e adquirindo imóveis de empresas. Em operações assim, a emissão pode servir para quitar a compra em vez de financiar ativo novo. Daí a consequência prática: o valor captado mede mobilização de mercado, não necessariamente capital fresco despejado em novos empreendimentos. Para quem acompanha a classe, o dado que qualifica a oferta é a finalidade declarada — compra de portfólio, troca de controle ou desenvolvimento — e não o volume da emissão.

Fiagros quase quadruplicam, e os CRAs desabam 62,3%

No agronegócio, os Fiagros movimentaram R$ 10,2 bilhões, volume quase quatro vezes superior ao de 2025. O número de operações saltou de 31 para 95 no mesmo intervalo. A estrutura ganhou espaço em duas frentes: a negociação de terras agrícolas e o financiamento de produtores e empresas que deixaram de se encaixar nas regras de emissão dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).

O contraponto aparece do outro lado do balanço. As emissões de CRAs recuaram 62,3%, para R$ 11,1 bilhões. Existe, portanto, migração de estrutura dentro do próprio crédito do campo: parte da demanda que antes vestia CRA encontrou no Fiagro uma porta alternativa. São veículos distintos em risco e em natureza — o CRA é dívida securitizada, o Fiagro carrega direitos creditórios e ativos ligados ao setor —, e essa diferença pesa na hora de comparar taxa e prazo.

Debêntures perdem 18% e a securitização avança 40,1%

As debêntures, que puxaram o mercado em anos anteriores, caíram 18% no acumulado, para R$ 261,2 bilhões. A retração apareceu tanto nas operações corporativas quanto nas incentivadas — aquelas com isenção de imposto de renda para a pessoa física. A exceção ficou com as debêntures de securitização, que subiram 40,1% e alcançaram R$ 45,6 bilhões em ofertas.

No mercado secundário, em que papéis já emitidos trocam de mãos, o giro de debêntures alcançou R$ 689 bilhões entre janeiro e setembro, 5,8% acima de 2025, movimento sustentado principalmente pelas incentivadas. Mindof, da Anbima, observa que um secundário saudável importa porque dá ao investidor condições de montar posição sabendo que existe liquidez para ajustar o portfólio quando necessário.

Os números do ano, instrumento por instrumento

InstrumentoVolume jan-set 2026Variação anual
Total do mercado de capitaisR$ 556,7 bi+5,3%
Renda fixaR$ 441 bi—
DebênturesR$ 261,2 bi-18%
Debêntures de securitizaçãoR$ 45,6 bi+40,1%
Híbridos (FIIs e Fiagros)R$ 80,8 bi+127%
FIIsR$ 70,6 bi+114,3%
FiagrosR$ 10,2 bi~4x
CRAsR$ 11,1 bi-62,3%
Renda variável (IPOs e follow-ons)R$ 34,8 bibase de R$ 4,2 bi
IPOsR$ 3 bi—
Follow-onsR$ 31,8 bi—
Secundário de debênturesR$ 689 bi+5,8%

O que essa composição sinaliza para a carteira

O primeiro efeito é de prateleira. Um mercado que emite menos CRA e mais Fiagro, menos debênture tradicional e mais papel de securitização muda o cardápio de produtos que chega ao investidor pessoa física. Estruturas diferentes carregam riscos diferentes — garantia, subordinação, prazo e liquidez não são intercambiáveis, ainda que a taxa oferecida possa parecer semelhante. A troca de motor é mais relevante do que o recorde de R$ 556,7 bilhões.

O segundo efeito é de preço relativo. Com mais emissões em FIIs e Fiagros, historicamente a oferta maior tende a ampliar o poder de comparação de quem analisa cada operação, porque passa a existir um conjunto maior de alternativas com o mesmo pano de fundo de risco. Isso não reduz o risco de crédito nem o de mercado embutido em cada papel; muda apenas a quantidade de referências disponíveis.

O terceiro é a volta do IPO ao radar. Os R$ 3 bilhões de aberturas de capital encerraram um jejum de anos que a própria Anbima vinha registrando. Uma nova leva de companhias listadas amplia o universo de análise na bolsa, mas exige o mesmo cuidado de sempre: preço de estreia, governança e uso dos recursos definem o investimento, não o entusiasmo da janela. O grosso da renda variável, vale notar, veio de follow-ons, com R$ 31,8 bilhões — capital novo para quem já estava listado.

O quarto é a liquidez do secundário. Os R$ 689 bilhões girados em debêntures mostram que o mercado de saída funciona melhor hoje do que em ciclos anteriores, especialmente na fatia incentivada. Para o investidor de renda fixa, a existência de um secundário ativo tende a reduzir o custo de sair de uma posição antes do vencimento, embora o preço obtido siga dependendo das condições do dia.