A 9ª Conferência Nova Cana colocou frente a frente duas leituras sobre o veículo abastecido apenas com etanol. Pecege Consultoria e Projetos e Evolua Etanol tratam a oferta como ampliação de escolha e estímulo à cadeia produtiva; o Bradesco – Pesquisa Econômica diz que o desempate virá do bolso do motorista. Uma estimativa citada no próprio painel mede a distância entre discurso e prática: um terço dos motoristas de flex coloca etanol no tanque, e dois terços seguem na gasolina.

A pergunta da plateia — se estímulos governamentais a carros dedicados ao biocombustível configurariam retrocesso — importa menos do que esse retrato do consumo. O flex já entrega a escolha ao motorista, e a maioria não a exerce. O obstáculo do setor, portanto, vai além de lançar tecnologias novas: passa por converter quem tem etanol à disposição no posto e continua optando pelo derivado de petróleo.

Um terço na bomba: o gargalo que o flex não resolveu

João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, rebateu durante o painel da Nova Cana a leitura de que o carro dedicado ao etanol seria um passo atrás.

Para o executivo, um modelo que aceita só o biocombustível amplia o cardápio do comprador e movimenta uma cadeia responsável por postos de trabalho, renda e arrecadação — efeito concentrado nos municípios cuja economia depende da produção de etanol. O argumento tem endereço: parte do que a atividade gera retorna à própria região produtora, o que dá a essas cidades razão para querer o consumo estimulado. Rosa reforçou a defesa em outro momento do painel da 9ª Conferência Nova Cana.

O próprio Rosa fez uma ressalva sobre a ferramenta que já existe: o flex, na avaliação dele, cumpre papel relevante, mas o setor precisa mirar também quem pode abastecer com etanol e não o faz. A sobrevivência dos modelos dedicados está atrelada à aceitação comercial — sem compradores, a proposta esvazia; com boa recepção, tende a abrir caminho para outras montadoras.

O argumento fiscal que o Bradesco levou ao painel

Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco – Pesquisa Econômica, deslocou, no painel da 9ª Conferência Nova Cana, o debate para a planilha do consumidor. Incentivos públicos, na avaliação dele, influenciam a escolha, mas dificilmente superam a vantagem financeira de cada tecnologia — raciocínio que vale tanto para elétricos e híbridos quanto para modelos movidos só a etanol ou só a gasolina.

Cardoso acrescentou uma camada fiscal ao tema. A transição para frotas eletrificadas encolhe o consumo de combustíveis e, junto com ele, o recolhimento de tributos vinculado a esse gasto — com menos litros vendidos, o tributo recolhido nessa frente encolhe —, elemento que, para ele, não pode ficar fora da agenda de estímulos. Um modelo dedicado ao biocombustível preserva tanto o consumo de etanol quanto a tributação incidente sobre o abastecimento. O comentário se limita ao tributo que incide sobre os combustíveis e não constitui um comparativo tributário amplo entre as tecnologias.

Evolua: o retrocesso, na visão da empresa, é a frota fóssil

Alexandre Zebulun, diretor comercial da Evolua Etanol, admitiu, no painel da 9ª Conferência Nova Cana, que o imaginário de modernidade está ligado a veículos que aceitam mais de uma forma de abastecimento ou recarga. Mesmo com essa ressalva, o executivo avalia que colocar nas ruas um carro dedicado ao etanol é movimento benéfico para o segmento.

O ponto que ele levanta é de portfólio: o modelo exclusivo entra como oferta adicional em um mercado que já convive com flex, híbridos e elétricos, e não como substituto das tecnologias existentes.

O que observar daqui para frente

Duas variáveis saíram do painel como decisivas: a aceitação comercial dos modelos dedicados e o formato de eventuais incentivos públicos. Sem compradores, a aposta perde tração; com demanda, pode atrair concorrentes para a mesma estratégia. No campo tributário, a arrecadação sobre combustíveis entra como argumento de quem quer preservar o consumo de etanol — sem que isso resolva a conta completa de impostos de cada tecnologia.

ParticipantePosição defendida no painel
Pecege Consultoria e ProjetosModelo dedicado ao etanol é opção adicional, não retrocesso; efeitos econômicos da cadeia e liberdade do consumidor pesam na decisão
Evolua EtanolO retrocesso seria a frota integralmente fóssil; o modelo dedicado amplia o mercado do biocombustível
Bradesco – Pesquisa EconômicaO orçamento do motorista define o rumo da tecnologia; a eletrificação tem efeito sobre a arrecadação de combustíveis

Para quem acompanha o setor, o painel desloca o eixo da discussão do campo tecnológico para o tributário, com a base de arrecadação ligada ao abastecimento entrando na conta dos incentivos. A disputa interessa por dois canais: o volume de demanda que uma frota dedicada pode sustentar e o peso da tributação sobre combustíveis nas decisões de política pública. Nenhum dos dois se resolve no curto prazo, e ambos dependem de escolhas de consumo que já acontecem nos postos.