Quem atrasou a fatura do cartão em agosto encontrou juros mais altos: a taxa anualizada do rotativo cobrada de pessoas físicas passou de 436,2% para 449,4%, segundo o Banco Central. O dado, divulgado nesta terça-feira (29), interrompe o alívio visto em julho e recoloca a linha emergencial entre as mais caras do sistema financeiro.

O recorde que ficou fora do radar

Na outra ponta do mercado de crédito, o teto do rotativo para capital de giro — a linha que financia o dia a dia de empresas com caixa apertado — chegou a 40,4% ao ano, o maior patamar da série histórica do BC. A inadimplência dessa modalidade bateu recorde de 12%. Custo e calote subindo juntos apontam para deterioração na qualidade do crédito corporativo, não apenas para encarecimento.

ModalidadeJulhoAgosto
Rotativo do cartão (PF)436,2%449,4%
Cartão de crédito: total93,1%97,8%
Consignado privado53,9%56,3%
Capital de giro: teto do rotativo (PJ)—40,4%
Juro geral das empresas—24,2%

Somando rotativo e parcelado, o indicador agregado do cartão avançou de 93,1% para 97,8%. Na modalidade parcelada, os números apurados foram 189,3% e 192,1% no período comparado. O consignado para trabalhadores do setor privado subiu de 53,9% para 56,3%, o maior nível desde março.

A distância entre o indicador agregado do cartão e a taxa do rotativo dimensiona o peso da linha emergencial: como o número reúne rotativo e parcelado, ele fica abaixo do custo enfrentado por quem atrasa a fatura. Na ponta do consumidor, o encarecimento do rotativo costuma aparecer com atraso nos índices de inadimplência, porque quem entra nessa linha normalmente já recorreu a alternativas mais baratas de crédito.

O que muda para quem acompanha o setor bancário

O rotativo é a linha mais rentável e mais arriscada do varejo. Taxas próximas de 450% ao ano sustentam receita de crédito, mas o recorde de inadimplência no capital de giro mostra que a pressão de calote não se restringe à pessoa física. Historicamente, encarecimento do crédito combinado a piora nos atrasos costuma anteceder perdas maiores reconhecidas nos balanços de instituições com carteira relevante.

Nas empresas, o juro geral recuou 1 ponto percentual em agosto, para 24,2%. A queda mensal convive, porém, com avanço de 0,7 p.p. no acumulado do ano frente ao mesmo intervalo de 2025 — alívio pontual, sem reversão da trajetória mais cara.

O que observar

Os dados de setembro, quando divulgados pelo BC, indicarão se agosto foi retomada de alta ou apenas oscilação. O consignado privado, no maior nível desde março, entra na mesma lista de pontos a monitorar. O termômetro mais sensível segue sendo a inadimplência do capital de giro: enquanto ela escalar, a percepção de risco do crédito corporativo tende a acompanhar.