Corte de alvo, desconto intacto
O Bradesco BBI cortou de R$ 15 para R$ 13 o preço-alvo de Cemig (CMIG4) e manteve a recomendação neutra para o papel. Segundo o Bradesco BBI, o novo valor ainda embute potencial de alta de 20%. Na conta entram os números mais recentes da empresa, a situação energética da unidade de geração e mudanças nos parâmetros regulatórios da distribuidora e da Gasmig.
Para quem acompanha a estatal mineira, o corte não descreve uma empresa que piorou — descreve um calendário que ficou mais nítido. O que muda é o prazo dos eventos que sustentam o resultado, não o tamanho do rendimento projetado.
O que a revisão captura
A unidade de geração, que sofre com os preços praticados no mercado à vista, segue pressionando o resultado no curto prazo. O Bradesco BBI projeta recuperação desse segmento apenas a partir de 2027. Do outro lado, a revisão tarifária da distribuidora, marcada para 2028, aparece como o evento capaz de elevar de forma relevante o Ebitda — o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, usado como referência para o caixa operacional. Os aportes já feitos pela companhia passam a ser reconhecidos na tarifa a partir dali.
Somados, os dois movimentos explicam o alvo menor: a geração demora mais para reagir, e a distribuição só entrega o salto de rentabilidade depois do processo tarifário. Não há, no material do Bradesco BBI, sinal de deterioração desses ativos — e sim um intervalo maior até que eles apareçam no caixa.
Números que sustentam o caso
Francisco Navarrete, do Bradesco BBI, e Ricardo França, da Ágora Investimentos, calculam que o papel negocia a uma TIR real de 12,3% — a taxa interna de retorno, o ganho esperado já descontada a inflação. Para os dois, esse patamar justifica o desconto da companhia frente às elétricas privadas, e a explicação está no controle estatal.
| Referência | Valor |
|---|---|
| Preço-alvo (Bradesco BBI) | R$ 13, ante R$ 15 |
| Potencial de alta implícito | 20% |
| TIR real | 12,3% |
| Dividend yield estimado | ~7% |
| Recuperação da unidade de geração | a partir de 2027 |
| Revisão tarifária da distribuidora | 2028 |
Por que o controle estatal pesa
O desconto da Cemig frente às concorrentes privadas é tratado pelo Bradesco BBI como prêmio de risco, não como erro de precificação. Empresas sob controle estatal costumam carregar incerteza extra sobre tarifa, investimento e distribuição de proventos — variáveis que escapam ao acionista minoritário. A indefinição sobre a renovação das concessões de geração entra no mesmo guarda-chuva: enquanto o formato não estiver definido, o mercado tende a não pagar por esse potencial.
O amortecedor dos proventos
Múltiplos comprimidos e um dividend yield — o provento distribuído sobre o preço da ação — na casa de 7% entram na conta como proteção contra quedas. A relação risco/retorno, na visão da casa, aparece equilibrada neste momento. O Bradesco BBI sinaliza, porém, que quer mais clareza sobre o cenário estadual e sobre a estratégia de renovação das concessões antes de assumir postura mais agressiva.
Nova presidência desde 11 de setembro
Marco Aurélio Martins da Costa Vasconcelos foi escolhido pela Cemig em 11 de setembro para presidir a companhia, e Alexandre Ramos Peixoto para comandar o conselho de administração.
Vasconcelos é advogado, formado pela PUC Minas, e fez especializações nas áreas de Direito de Empresa e Gestão Empresarial. A trajetória dele passa por frentes jurídica, administrativa e de gestão, em companhias de saneamento, mineração e indústria, além do governo mineiro. Na Copasa, foi procurador-geral jurídico e assessor da presidência, e desde 2022 respondia pela diretoria adjunta jurídica.
Peixoto construiu carreira como engenheiro dentro da própria Cemig e reúne experiência no setor elétrico, com passagens pela Aneel e pelo Ministério de Minas e Energia, além da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Desde 2023, comanda o conselho da CCEE, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Dentro da Cemig, já ocupou a presidência e a diretoria de regulação e relações institucionais.
O que observar daqui para frente
A tese montada pelo Bradesco BBI depende de dois gatilhos com data: 2027 para a geração e 2028 para a distribuição. Até que se confirmem, o rendimento de aproximadamente 7% e os múltiplos baixos tendem a funcionar como piso relativo, enquanto a indefinição sobre as concessões limita o espaço de valorização. Em companhias com controle estatal, o calendário regulatório costuma pesar mais do que o resultado de um trimestre isolado.
