A consolidação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) como principal referencial da renda fixa brasileira passa por revisão técnica. Especialistas defendem que o índice não cumpre a função de blindagem patrimonial no longo prazo, limitando-se a proteção de apenas 45 dias, prazo máximo que o Comitê de Política Monetária (Copom, órgão do Banco Central que define a taxa básica de juros) pode sustentar uma decisão. Durante o 2º dia da Expert 2026, Arthur Wichmann, CIO da XP, e Ruy Ribeiro, sócio-fundador da Atlantiqis Consulting, argumentam que a busca por um ativo verdadeiramente livre de risco deve priorizar a preservação do poder de compra frente à inflação.

O Horizonte de 45 Dias e a Falácia do Ativo Livre de Risco

A estrutura do CDI acompanha a taxa Selic, garantindo proteção imediata contra variações de juros. Essa dinâmica, contudo, funciona como escudo válido exclusivamente para o curtíssimo prazo. Quando o investidor estende o horizonte para além da janela de decisão monetária sem migrar para títulos indexados à inflação, expõe-se ao risco de erosão real do capital. A queda acelerada de juros durante a pandemia gerou redução brusca no retorno do índice, cenário classificado por Ribeiro como um “calote” implícito a quem mantinha expectativas de ganho nominal no futuro. A economia brasileira permite a ocorrência simultânea de preços altos e juros baixos, fenômeno que corrói o patrimônio indexado nominalmente.

“A tendência das pessoas é pensar em uma visão de curto prazo, que é o ativo que te protege até amanhã. Mas nenhum investidor tem esse horizonte de investimento. O ativo livre de risco é o que te protege contra não atingir esses objetivos”, afirma Ribeiro.

NTN-B e Ativos Reais: A Proteção Estrutural

Para neutralizar a desvalorização monetária, os economistas destacam a Nota do Tesouro Nacional Série B (NTN-B, título público federal atrelado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo mais uma taxa fixa) como veículo de proteção. A análise comparativa indica que a oscilação do poder de compra desse ativo, quando carregado por 2 anos, apresenta volatilidade inferior à do CDI. O índice mantém utilidade para liquidez imediata ou gestão de caixa, enquanto metas como aposentadoria e aquisição de imóveis demandam indexação real.

InstrumentoHorizonte IdealIndexadorObjetivo Principal
CDICurto prazoTaxa de JurosGestão de liquidez
NTN-BMédio/Longo (2+ anos)IPCA + Taxa FixaPreservação de compra
Ativos Reais (FIIs/Ações)Cíclico/LongoEconomia RealProteção e geração de renda

Fundos imobiliários e ações de companhias ligadas ao setor produtivo também são citados como alternativas para compor a defesa patrimonial. Embora introduzam variáveis de risco distintas, esses veículos oferecem exposição direta à geração de riqueza e à capacidade de repassar custos, atuando como barreira contra pressões inflacionárias.

O que isso significa para o investidor

A reclassificação do CDI de “ativo definitivo” para “ferramenta de caixa” exige ajustes táticos. Carteiras concentradas em títulos pós-fixados podem enfrentar a ilusão de segurança nominal enquanto o ganho real diminui. Em cenário de taxa em queda e preços persistentes, a rotação para instrumentos indexados ou ativos reais torna-se questão de preservação. O foco migra da rentabilidade imediata para a certeza de manutenção do valor de aquisição no resgate, alinhando prazos financeiros às datas de desembolso efetivo.

Riscos a Monitorar

  • Erosão inflacionária: Permanência em ativos nominais durante alta generalizada reduz o poder de compra mesmo com retorno positivo.
  • Política monetária: Cortes rápidos pelo Copom comprimem a rentabilidade de carteiras focadas exclusivamente no CDI.
  • Marcação a mercado: Títulos indexados oscilam antes do vencimento, exigindo sincronia com o fluxo de necessidades financeiras.
  • Ciclos setoriais: Migração para renda variável introduz riscos microeconômicos e de gestão inexistentes na dívida pública.

Perspectiva e Próximos Passos

O acompanhamento das atas do Copom, das pesquisas de expectativas de inflação e da curva de juros futuros determinará o momento para alongar o prazo médio das carteiras. A revisão periódica da correlação entre vencimentos dos papéis e metas financeiras permanece essencial para garantir que o capital não seja penalizado pela desvalorização monetária em horizontes plurianuais.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.