Principais pontos

  • A leitura é que a combinação de dólar mais fraco e superávit comercial turbinado amplia a margem de manobra de Pequim, mas também eleva o atrito comercial com parceiros que cobram ajuste cambial.
  • O estoque oficial alcançou 76,73 milhões de onças ao fim de agosto, avaliado em cerca de US$ 350 bilhões.
  • Economistas ouvidos na apuração avaliam como pouco provável uma valorização rápida do yuan por causa dos reflexos sobre exportações, crescimento e demanda interna.

As reservas em moeda estrangeira da China somaram US$ 3,438 trilhões ao fim de agosto, após alta de US$ 19,55 bilhões no mês, segundo dados do Banco do Povo da China (PBoC, o banco central chinês) divulgados nesta segunda-feira e reproduzidos pela fonte.

A leitura é que a combinação de dólar mais fraco e superávit comercial turbinado amplia a margem de manobra de Pequim, mas também eleva o atrito comercial com parceiros que cobram ajuste cambial.

Para o investidor brasileiro que acompanha câmbio, juros americanos e cotação do ouro, o recado é indireto porém relevante: quando o maior colchão de divisas do planeta cresce ao mesmo tempo em que o banco central acelera a troca de dólares por metal, a busca global por proteção tende a ganhar força e historicamente costuma mexer com prêmio de risco e preço de ativos defensivos.

Por que a alta superou as projeções

Reservas internacionais funcionam como um colchão em moeda estrangeira mantido pelo banco central para honrar compromissos externos e amortecer choques de câmbio. No caso chinês, esse colchão foi favorecido em agosto por dois vetores citados na apuração: a desvalorização do dólar, que eleva o valor convertido de ativos denominados em outras moedas, e o forte aumento do superávit comercial, que é o saldo positivo quando as exportações superam as importações.

O número final superou a projeção de US$ 3,425 trilhões reunida pelo Wall Street Journal junto a economistas. Segundo a fonte, o avanço reacendeu preocupações sobre a valorização do yuan, a moeda chinesa, apontada por críticos como desvalorizada para dar competitividade a produtos de baixo custo.

Ouro em ritmo máximo em 3 anos sinaliza blindagem

O movimento mais chamativo foi no ouro. O país ampliou as reservas oficiais do metal pelo 22º mês consecutivo, em sequência que reforça a estratégia de diversificação fora do dólar. O estoque oficial alcançou 76,73 milhões de onças ao fim de agosto, avaliado em cerca de US$ 350 bilhões.

A onça-troy, unidade padrão de cerca de 31,1 gramas usada no mercado de ouro, serve de referência para medir esse estoque. Em agosto, a adição foi de 650 mil onças ante o fim de julho, o acréscimo mensal mais intenso em três anos. O patamar só fica abaixo do registrado em outubro de 2023, quando a compra mensal somou 740 mil onças, de acordo com o monitor de mercado Wind Info.

A aceleração fica clara na sequência recente compilada a partir de levantamento do China Daily:

PeríodoAdição mensal às reservas de ouro
Junho480 mil onças
Julho640 mil onças
Agosto650 mil onças
Outubro de 2023 como referência740 mil onças

A sequência de altas mensais sugere cautela persistente com riscos geoeconômicos. Manter compras recorrentes de ouro tende a reduzir a dependência de ativos em dólar e, para quem acompanha o metal, pode indicar sustentação à demanda oficial em períodos de incerteza cambial.

Yuan valorizado? Por que Pequim deve evitar ajuste brusco

O dado foi divulgado sob pressão de autoridades internacionais por medidas contra exportações chinesas de baixo custo e sob apelos para que Pequim permita uma valorização do yuan, amplamente considerado subvalorizado, segundo a fonte.

Economistas ouvidos na apuração avaliam como pouco provável uma valorização rápida do yuan por causa dos reflexos sobre exportações, crescimento e demanda interna. Uma moeda mais forte barateia importações, mas encarece o produto chinês lá fora e pode frear atividade e consumo doméstico.

Para o acompanhamento daqui em diante, o ponto central não é apenas o tamanho do colchão de US$ 3,438 trilhões, mas a combinação entre superávit elevado, dólar mais fraco e compras recordes de ouro. Essa trinca tende a manter o debate sobre câmbio desvalorizado no centro da agenda comercial, com desdobramentos para fluxos cambiais, Treasuries e precificação do ouro observada pelo investidor brasileiro.