As ações da C&A (CEAB3) lideravam as altas do Ibovespa na sessão de 5 de novembro, com +7,20% a R$ 7,30 por volta de 12h20 (horário de Brasília); na máxima do dia, a valorização chegou a 10,43%. O gatilho foi o balanço do terceiro trimestre de 2026, que trouxe lucro líquido de R$ 170,3 milhões — alta de 145,1% sobre os R$ 69,5 milhões de um ano antes.

O crédito fiscal por trás do lucro e o que sobra sem ele

O combustível desse avanço não veio da operação de vendas. A varejista reconheceu créditos fiscais de PIS e Cofins relativos a insumos essenciais, amparada em avaliações jurídicas sobre a incidência dessas contribuições.

Retirado esse efeito, o lucro líquido ajustado pós-IFRS 16 — base que incorpora a norma contábil pela qual os aluguéis passam a figurar no balanço como passivo e despesa de depreciação — ficou em R$ 56,5 milhões, 23,3% abaixo dos R$ 73,6 milhões de igual intervalo de 2025. A distinção pesa para quem acompanha a tese: a linha reportada captura um evento sem previsão de repetição, enquanto a ajustada mostra o desempenho recorrente do trimestre.

A receita líquida consolidada avançou 2,3%, para R$ 1,88 bilhão. O vestuário respondeu por R$ 1,69 bilhão, com alta de 2,6%, num ambiente de juros ainda elevados, famílias endividadas e um elemento pontual de fluxo: a Copa do Mundo deslocou parte do movimento de compras na primeira metade do trimestre.

56% de margem: a 21ª expansão trimestral seguida do vestuário

A partir de setembro, o tráfego de clientes melhorou, ajudado pela chegada da coleção de verão e pela disciplina na gestão de estoques. Com isso, a margem bruta do vestuário atingiu 56,0%, com ganho de 0,6 ponto percentual — a 21ª expansão trimestral consecutiva da série. Por trás do número estão a precificação dinâmica e os primeiros benefícios da nova estratégia logística.

O Bradesco BBI apontou, em relatório, que a margem do vestuário combinou a estratégia Full Power com uma contribuição cambial positiva, e que as vendas em lojas comparáveis (SSS) do segmento cresceram 1,0%, sinal de recuperação do fluxo de clientes.

O canal digital — site e aplicativo — cresceu 27,6% e passou a representar 8,0% das vendas de mercadorias, reflexo do encurtamento da jornada de compra para dois cliques e de iniciativas de social commerce.

Caixa livre de R$ 152 milhões convive com Ebitda menor

O Ebitda ajustado pós-IFRS 16 (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) somou R$ 317,6 milhões, com margem de 16,9%. Na leitura da XP, o indicador superou em 11% a estimativa da casa, ainda que tenha recuado 8% na comparação anual, pressionado por gastos de marketing sem repetição ligados às comemorações dos 50 anos da marca no Brasil e à participação no festival Rock in Rio.

A geração de caixa livre somou R$ 152 milhões no trimestre, ponto que o Bradesco BBI tratou como um dos destaques do balanço, mesmo diante de maior necessidade de Capex (investimentos em reformas e expansão de lojas) e de pressão adicional sobre o capital de giro.

Indicador3T26Variação anual
Lucro líquido reportadoR$ 170,3 mi+145,1%
Lucro líquido ajustado pós-IFRS 16R$ 56,5 mi-23,3%
Receita líquida consolidadaR$ 1,88 bi+2,3%
Receita de vestuárioR$ 1,69 bi+2,6%
Margem bruta de vestuário56,0%+0,6 p.p.
Ebitda ajustado pós-IFRS 16R$ 317,6 mi-8%
Caixa livreR$ 152 minão informado
Digital na venda de mercadorias8,0%+27,6% em receita

O que a ação premia hoje e o que fica para o 4º trimestre

A XP classificou o trimestre como fraco, porém acima do que projetava, e sustenta que a atenção do mercado deve permanecer em dois pontos: o nível ainda elevado dos estoques e a recuperação esperada para o quarto trimestre do ano.

O BTG Pactual, por sua vez, mantém postura construtiva em relação à execução da companhia, com ênfase no programa contínuo de renovação de lojas e no foco em rentabilidade, e vê na remuneração aos acionistas uma camada extra de suporte à tese. A instituição atribui recomendação de compra a CEAB3, com preço-alvo de R$ 19.

O contraste que organiza a sessão é este: o pregão reage ao lucro de R$ 170,3 milhões, mas o dado que sustenta a operação é outro — a margem bruta de 56% em 21 trimestres consecutivos de ganho, num período em que consumo e crédito seguem caros. A consequência prática para quem tem exposição ao papel ou ao setor é que a qualidade do resultado passa a depender menos do evento fiscal e mais da capacidade de converter margem em caixa, algo que o trimestre entregou com os R$ 152 milhões, apesar do Ebitda menor.

O risco que se desenha para os próximos meses está descrito na própria dinâmica do trimestre: estoques acima do ideal e um quarto trimestre que precisa confirmar a inflexão de tráfego observada em setembro. Historicamente, o varejo de vestuário tende a sentir com mais força o encarecimento do crédito, e a comparação com um 4T25 fraco, mencionada pela XP, funciona como vento a favor na base de comparação.