Principais pontos

  • A gestora americana Global X avalia que as ações brasileiras estão descontadas e espera vários cortes de juros, com a Selic já em 13,75%.
  • Nos últimos sete ciclos de corte concluídos no Brasil, o MSCI Brazil subiu em quatro e caiu em três.
  • Nos períodos de alta, a valorização acumulada foi em média de cerca de 96%, enquanto as quedas ficaram em média em cerca de 14,5%.
  • Após resgate líquido de mais de R$ 18 bilhões em agosto, os estrangeiros foram compradores líquidos de R$ 5,4 bilhões na primeira semana de setembro.

A gestora americana Global X avalia que as ações brasileiras estão descontadas e espera vários cortes de juros, com a Selic já em 13,75%. O relatório, assinado pelos estrategistas Malcolm Dorson e Trevor Yates, sustenta que o afrouxamento iniciado em março foi "o primeiro do que acreditamos que serão vários cortes de juros", em um cenário de juro real próximo de 10%.

A assimetria que o relatório não coloca no título

O argumento mais revelador não é o diagnóstico de desconto, e sim o comportamento histórico do índice. Nos últimos sete ciclos de corte concluídos no Brasil, o MSCI Brazil subiu em quatro e caiu em três. Vale traduzir o termo: o MSCI Brazil reúne ações brasileiras negociadas em dólar, e é nele que a casa americana baseia toda a comparação.

Mais decisivo que a contagem de acertos é a magnitude de cada movimento. Nos períodos de alta, a valorização acumulada foi em média de cerca de 96%, enquanto as quedas ficaram em média em cerca de 14,5%. A assimetria entre o ganho médio e a perda média é o verdadeiro dado central da tese, e ela não aparece no argumento de "Bolsa barata".

O dólar como alavanca matemática

Em uma análise de 26 anos de dados, a Global X calcula que o MSCI Brazil subiu, em média, cerca de 3,2% para cada 1% de queda do índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas. A relação inversa reforça o encadeamento da tese: um dólar mais fraco tende a favorecer a performance das ações brasileiras medidas em moeda americana, e vice-versa.

O estrangeiro já mudou de lado

A avaliação chega depois de um ensaio de retomada do apetite externo. Após resgate líquido de mais de R$ 18 bilhões em agosto, os estrangeiros foram compradores líquidos de R$ 5,4 bilhões na primeira semana de setembro.

PeríodoFluxo líquido do investidor estrangeiro
AgostoResgate de mais de R$ 18 bilhões
1ª semana de setembroCompra líquida de R$ 5,4 bilhões

O que a tese ainda tem de incerto

Entre os pontos favoráveis, a Global X lista a exposição da economia brasileira a energia, materiais e agronegócio, e afirma que o país está "relativamente isolado" das tensões geopolíticas mundiais. São setores de peso no Ibovespa e sensíveis ao ciclo global, o que ajuda a explicar o interesse da casa.

Sobre as eleições, a gestora lembra que as pesquisas sugerem uma corrida acirrada e que o evento tem potencial de mexer com o mercado. "O pêndulo político da América Latina continua a oscilar", ressalta o relatório — um reconhecimento de que o risco político segue no radar e não foi removido pela queda dos juros.

Na prática, o que muda para quem acompanha a Bolsa brasileira é o pano de fundo: um ciclo de juros em queda, um histórico de assimetria favorável nos ciclos anteriores e um fluxo externo que deixou de ser apenas negativo. Nenhum desses elementos elimina o risco político nem garante repetição do passado — o próprio levantamento da gestora registra três ciclos em que o MSCI Brazil caiu. A leitura é que se trata de uma aposta em condições que, historicamente, tenderam a favorecer o ativo, e não de uma certeza sobre o futuro.