Principais pontos

  • A decisão do Copom já era esperada pelo mercado, e foi unânime — o quinto corte consecutivo.
  • Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, aponta que persiste a preocupação do Copom com a desancoragem das expectativas de inflação e que o balanço de riscos seguiu assimétrico para cima.
  • O IPCA+ 2050 e o IPCA+ com Juros Semestrais 2060 recuaram 5 pontos-base cada, para 7,19% e 7,18%, respectivamente.
  • Apesar da alta, os rendimentos dos Treasuries recuaram logo após o anúncio, em um ajuste que já refletia a decisão na véspera da reunião.

As taxas do Tesouro Direto recuaram com força na manhã desta quinta-feira (17), um dia depois de o Copom cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, e de o Federal Reserve elevar os juros nos Estados Unidos pela primeira vez desde julho de 2023. O Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 saiu de 14,30% no fechamento de quarta-feira para 14,19%, recuo de 11 pontos-base e a maior queda entre os prefixados acompanhados na abertura.

Para o investidor pessoa física, o movimento tem dois lados. Quem já carrega títulos na carteira vê a marcação a mercado trabalhar a favor: quando a taxa de um papel cai, o preço unitário sobe. Quem pretende fazer novos aportes encontra o oposto — os mesmos títulos passam a remunerar menos do que no fechamento anterior.

O que a queda das taxas muda para quem investe

A decisão do Copom já era esperada pelo mercado, e foi unânime — o quinto corte consecutivo. Isso ajuda a explicar por que o ajuste de preços desta quinta foi mais contido do que a manchete sugere: parte do movimento já estava precificada na véspera. A pergunta que sobra diz respeito à duração do alívio.

Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, aponta que persiste a preocupação do Copom com a desancoragem das expectativas de inflação e que o balanço de riscos seguiu assimétrico para cima. Na leitura dele, a continuidade da desaceleração da atividade e uma inflação mais favorável ainda permitem um corte na próxima reunião — que, no entanto, acontece logo após o segundo turno eleitoral, o que amplia a incerteza.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, interpreta o comunicado de forma mais dura: a mensagem mais provável é que o ciclo de cortes chegou ao fim, ou está muito perto disso, por causa da projeção de inflação do Banco Central, do cenário externo e do calendário eleitoral. Ele pondera que a Selic segue alta e defende cautela na renda fixa, com prazos curtos e disciplina no crédito privado, além de manter parte do patrimônio fora do país.

Prefixados e IPCA+: o mapa das quedas

TítuloFechamento (quarta)Taxa em 17/09 (9h22)
Prefixado com Juros Semestrais 203714,30%14,19%
Prefixado 203214,24%14,15%
Prefixado 202913,89%13,81%
IPCA+ 20327,68%7,61%
IPCA+ 20407,31%7,26%

O IPCA+ 2050 e o IPCA+ com Juros Semestrais 2060 recuaram 5 pontos-base cada, para 7,19% e 7,18%, respectivamente. O IPCA+ 2032 teve a maior queda entre os papéis de inflação, de 7,68% para 7,61%.

Copom corta, Fed sobe — e os juros longos caem

Do outro lado do hemisfério, a direção foi inversa: o Federal Reserve elevou os juros pela primeira vez desde julho de 2023. O presidente da instituição, Kevin Warsh, afirmou que a estabilidade de preços é a base do crescimento econômico e classificou a decisão como “um passo importante” nessa direção, acrescentando que ela beneficia especialmente os americanos “menos favorecidos”, já que a inflação mais baixa preserva o poder de compra dos salários.

Apesar da alta, os rendimentos dos Treasuries recuaram logo após o anúncio, em um ajuste que já refletia a decisão na véspera da reunião. Agentes avaliaram que a postura firme de Warsh no combate à inflação tranquilizou os investidores quanto ao compromisso do banco central americano com a convergência em torno da meta de longo prazo. Historicamente, o aperto monetário tende a pressionar as taxas longas para cima; o recuo imediato sugere que o mercado leu o movimento como sinal de credibilidade, e não como risco inflacionário.

O que observar daqui para frente

O próximo encontro do Copom ocorre logo depois do segundo turno eleitoral — intervalo que, na avaliação das duas casas ouvidas pela reportagem, concentra boa parte da incerteza adiante. Para quem acompanha a renda fixa, a agenda relevante passa a combinar três variáveis citadas na própria comunicação: a trajetória da atividade, o comportamento das expectativas de inflação e o cenário externo.

Se o ciclo de cortes efetivamente se encerrou, a tendência é que as taxas negociadas hoje no Tesouro Direto se estabilizem nos patamares atuais e que o espaço para novas quedas fique mais restrito. Se um corte adicional vier, o movimento desta quinta pode se repetir — com o mesmo efeito ambíguo: alívio para quem já está posicionado, custo de oportunidade maior para quem ainda não entrou.