Tese em 3 pontos

  1. "a extensão foi concedida com base na lei 12.783/2013 e isso pelo regime de cotas."
  2. "o Safra já rebaixou a empresa tirando o preço-alvo de R$ 12,50 para R$ 11,90."
  3. "a previsibilidade de caixa da CMIG4 é muito interessante."

A decisão sobre CMIG4 exige ponderar uma assimetria clara: de um lado, a perenidade do setor elétrico e um Dividend Yield (DY) histórico de 12,32%; do outro, um ciclo robusto de investimentos que pressiona o endividamento e incertezas políticas em Minas Gerais. A recente queda de mais de 24% em relação às máximas trouxe o ativo para a mira de investidores de renda passiva, mas a leitura do Ativo Virtual indica que o trade-off entre risco e retorno mudou. O preço atual, na casa dos R$ 10,51, reflete tanto a renovação de concessões quanto o temor com a alavancagem futura, exigindo cautela e análise dos preços-teto para a alocação de capital.

A Renovação da Concessão e o Regime de Cotas

O Ministério de Minas e Energia decidiu prorrogar por mais 30 anos, a partir de agosto de 2026, a concessão de uma usina hidrelétrica da companhia em Minas Gerais, com 78 MW de capacidade instalada. No entanto, há um detalhe crucial que altera a economia do projeto: a extensão foi concedida com base na lei 12.783/2013 e isso pelo regime de cotas.

Na prática, a CMIG4 preserva a operação da usina por três décadas, mas não venderá mais a energia livremente pelo preço de mercado. A garantia física será destinada às distribuidoras, e a geradora passará a receber uma receita regulada pela ANEEL. Isso garante a continuidade do ativo, mas sob uma nova margem regulada.

Fundamentos: Operação Forte vs. Alavancagem

Os números do primeiro semestre de 2026 mostram uma empresa em expansão agressiva. O EBITDA atingiu R$ 2,5 bilhões, demonstrando força operacional. Contudo, o Capex foi de R$ 1,8 bilhão, e a empresa captou R$ 4,6 bilhões em dívidas para Cemig Distribuição e Geração/Transmissão.

O plano de investimentos para 2026 é de R$ 6,73 bilhões, com foco em distribuição e subestações. O risco para o acionista é que o crescimento exige capital intenso; se a dívida subir desproporcionalmente, parte do ganho operacional pode ser consumida por despesas financeiras, impactando o caixa livre para dividendos.

Valuation e a Pirâmide de Preço-Teto

Apesar do cenário de investimentos, a previsibilidade de caixa da CMIG4 é muito interessante. O múltiplo P/L atual é de 6,54, considerado descontado frente à média histórica de 9,41 e ao benchmark de boas empresas. A fórmula de Benjamin Graham aponta um preço justo de R$ 19,22, sugerindo potencial de alta.

Para investidores focados em dividendos, o Ativo Virtual projeta um lucro de R$ 4,69 bilhões e um payout de 65%, resultando em R$ 1,60 por ação. A tabela abaixo mostra a pirâmide de preço-teto baseada na exigência de retorno:

Exigência de DYPreço-Teto (CMIG4)
4%R$ 26,63
6%R$ 17,75
8%R$ 13,32
10%R$ 10,65

Risco Político, Técnica e Outras Praças

O mercado financeiro está atento à sucessão do governador Romeu Zema em Minas Gerais, o que gera ruídos sobre a política de dividendos e a gestão estatal. O banco Safra já rebaixou a empresa tirando o preço-alvo de R$ 12,50 para R$ 11,90, mantendo recomendação neutra. A tese do banco é que o ciclo gigantesco de investimentos pode pressionar os pagamentos aos acionistas no curto e médio prazo.

Do ponto de vista técnico, a ação perdeu a média móvel exponencial semanal de R$ 10,91, configurando tendência de baixa de médio prazo, embora haja suportes relevantes sendo testados na casa dos R$ 9,95.

Além da geração de dividendos diretos, a estratégia do Ativo Virtual envolve a venda coberta de opções para ampliar a renda, citando recentemente aportes em ITSA4 (Itaúsa) e ITUB4 (Itaú Unibanco) como exemplos de como empresas de outros setores podem compor uma carteira previdenciária com geração de renda sintética.

O que muda para investidores

A tese de investimento na CMIG4 permanece sólida para quem busca perenidade e renda passiva, mas o perfil de risco se alterou. A assimetria aponta que o investidor pode estar adquirindo um ativo com múltiplos historicamente baratos e DY acima de 12%, mas precisa estar confortável com a volatilidade gerada por ciclos de Capex elevado e o cenário político mineiro. A decisão de alocação tende a depender do prazo: para o longo prazo, os fundamentos regulados e a previsibilidade de caixa sustentam a tese; para o médio prazo, a pressão da dívida e as incertezas políticas podem limitar a valorização das ações.