Principais pontos

  • A retaliação cruzada não é um detalhe burocrático. Ela atinge um dos instrumentos mais estáveis da relação bilateral — a troca de adidos policiais — e chega às vésperas de uma eleição presidencial brasileira em que a segurança pública se firmou como tema de peso.
  • Um novo sistema de compartilhamento de informações implementado este ano permite que agentes alfandegários dos dois países se alertem mutuamente sobre remessas de contêineres suspeitas, o que tem ajudado americanos e brasileiros a interceptar cargas ilícitas, como armas.
  • Segundo especialistas, grupos criminosos organizados brasileiros usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro de origem ilícita.
  • Os pontos de atenção para os próximos meses são concretos: a negociação dos vistos entre as duas chancelarias, a agenda americana que só abre espaço a partir de novembro, o desfecho das eleições brasileiras em outubro e os canais que continuam funcionando na base, como o sistema de alerta sobre contêineres suspeitos.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos reteve os vistos de dois agentes da Polícia Federal designados para postos em Miami e Nova York, onde atuariam ao lado da Divisão de Investigações de Segurança Interna dos EUA e de outras agências federais no combate ao crime transnacional. A apuração foi confirmada por um funcionário americano e três altos funcionários brasileiros, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a se pronunciar publicamente. Em resposta, o Brasil passou a bloquear o visto de um agente da lei americano que deveria ser destacado para o país.

A retaliação cruzada não é um detalhe burocrático. Ela atinge um dos instrumentos mais estáveis da relação bilateral — a troca de adidos policiais — e chega às vésperas de uma eleição presidencial brasileira em que a segurança pública se firmou como tema de peso. A leitura do Ativo Virtual é que a fricção política tende a contaminar canais técnicos que, historicamente, costumavam operar à margem das disputas entre governos. O efeito de segunda ordem interessa a quem acompanha o Brasil de perto: relações institucionais mais ruidosas tendem a alimentar narrativas de risco político que, ao longo do tempo, costumam pesar sobre a percepção de ativos de mercados emergentes.

Vistos retidos dos dois lados: como funciona a retaliação espelhada

Os dois agentes da Polícia Federal que ficaram sem visto deveriam assumir seus postos no mês passado. Ambos já haviam sido selecionados e avaliados pelas autoridades dos dois países no início deste ano, como parte de uma troca de pessoal de rotina, segundo uma das autoridades ouvidas. Não se trata, portanto, de uma recusa por incompatibilidade técnica: o bloqueio veio depois do aval das duas burocracias.

Um dos adidos substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, expulso dos Estados Unidos em abril e acusado pelo governo Trump de conduzir uma "perseguição política" por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. Esse ex-chefe havia fugido para os Estados Unidos depois de ser condenado por conspirar para um golpe de Estado no Brasil ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro. O patriarca Bolsonaro, aliado de Trump, cumpre pena de 27 anos por sua tentativa de se manter no poder.

O Brasil reagiu revogando as credenciais de um agente da lei americano que trabalhava em Brasília. Em mais um movimento recíproco, o país passou a reter o visto do sucessor desse agente até que seus próprios adidos sejam autorizados a assumir os cargos nos Estados Unidos. As autoridades dos dois países ainda negociam os vistos, sem prazo anunciado para um desfecho.

O canal que continua aberto — e o que ficou parado

Nem tudo parou. Um novo sistema de compartilhamento de informações implementado este ano permite que agentes alfandegários dos dois países se alertem mutuamente sobre remessas de contêineres suspeitas, o que tem ajudado americanos e brasileiros a interceptar cargas ilícitas, como armas. Especialistas em segurança e inteligência avaliam que essa cooperação técnica segue de pé, ainda que a falta de coordenação no alto escalão possa frustrar planos mais ambiciosos.

O que emperrou foi a camada de cima. Uma equipe de quase uma dúzia de agentes da Receita Federal solicitou uma visita aos homólogos americanos em Washington, em junho, para aprofundar a cooperação no combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando transnacional. O pedido foi negado sob a justificativa de agenda lotada até novembro, segundo dois funcionários brasileiros. É um adiamento de meses num tema — rastreamento de dinheiro sujo — em que a velocidade da troca de dados costuma valer tanto quanto a informação em si.

Por que o canal financeiro importa

Segundo especialistas, grupos criminosos organizados brasileiros usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro de origem ilícita. Os Estados Unidos são, também, uma fonte relevante de armas ilegais para essas organizações, contrabandeadas a partir de estados com leis permissivas. No mês passado, a polícia brasileira prendeu dois homens em conexão com peças de armas enviadas da Flórida.

O Brasil não exporta volumes significativos de drogas para os Estados Unidos, mas funciona como rota de trânsito importante da cocaína que segue para a Europa, a África e outros destinos. Facções brasileiras vêm, além disso, formando alianças com gangues mexicanas e colombianas, o que amplia o alcance geográfico e a capacidade de encontrar novas rotas para fora da América Latina.

O que já foi desmantelado junto — e o que está em jogo agora

Brasil e Estados Unidos têm uma longa história de investigações conjuntas sobre crimes internacionais, como fraude e tráfico de pessoas, e de envio de agentes da lei para os respectivos países. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas. No passado, a ação conjunta ajudou as autoridades a desmantelar esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e quadrilhas de tráfico humano.

Esse tipo de cooperação estreita, segundo especialistas, está se tornando crucial para combater os cartéis de drogas da América Latina, que possuem mais recursos e maior alcance geográfico do que nunca. "Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras", disse Edvandir Félix de Paiva, presidente da associação dos comissários da Polícia Federal do Brasil. "Por isso, precisamos trabalhar juntos."

Para o investidor, o ponto sensível não é uma cifra isolada, e sim a direção do vento institucional. Cooperação enfraquecida em matéria de lavagem de dinheiro e de contrabando de armas tende a dificultar o esforço de retirar fluxos ilícitos do sistema formal — e esse é um tema que, historicamente, costuma aparecer nas avaliações de risco-país e nas exigências de conformidade impostas a instituições financeiras. Não é um evento binário, com efeito imediato e mensurável. É um ruído de fundo que se soma a outros.

Segurança pública e a eleição de outubro

Em uma reunião na Casa Branca, em maio, Lula apresentou uma proposta sobre como os dois países poderiam combater cartéis de drogas em conjunto, mirando o controle de suas armas e finanças. Segundo um funcionário brasileiro, o governo Trump nunca respondeu à proposta. Naquele mesmo mês, os Estados Unidos designaram as duas maiores facções criminosas de narcotráfico do país como organizações terroristas, após forte pressão de Flávio Bolsonaro e seus aliados, que acusam Lula de ser leniente com o crime.

A segurança pública é uma grande preocupação para muitos brasileiros e um tema central nas eleições presidenciais de outubro. É nesse ponto que a agenda externa e o calendário interno se cruzam: um gesto americano desenhado para pressionar o governo brasileiro tem efeitos eleitorais difíceis de prever, e a resposta brasileira — reter vistos de agentes americanos — também carrega leitura política.

O impacto prático da designação como organizações terroristas já apareceu. Os Estados Unidos a usaram para aplicar sanções a pessoas que estavam sendo investigadas em sigilo pela polícia brasileira, revelando seus vínculos com facções e alertando os próprios investigados. Como resultado, a polícia teve de agir às pressas para prender os alvos — ao menos um deslize operacional atribuído ao novo status.

Escudo das Américas: a aliança que deixa o Brasil de fora

Enquanto a parceria com Brasília azeda, Washington tem buscado reforçar a cooperação com líderes conservadores do Hemisfério Ocidental por meio do Escudo das Américas, uma nova aliança de segurança contra o narcotráfico que não inclui o Brasil. Alguns membros, como Equador e Colômbia, concordaram em realizar operações militares conjuntas com os Estados Unidos em seus territórios.

No mês passado, o Brasil também não foi convidado para uma reunião de autoridades de segurança da América Latina e do Caribe liderada pelos Estados Unidos nas Nações Unidas. A disputa diplomática entre os dois países se intensificou nos últimos meses, com uma série de novas rejeições e cancelamentos de vistos. Ainda assim, a abordagem americana pode ter efeito contrário ao pretendido: usar vistos como instrumento de pressão tende a afastar, e não aproximar, o parceiro que se diz querer manter por perto.

O Departamento de Estado se recusou a comentar os detalhes dos vistos, mas afirmou em comunicado que o governo Trump estava protegendo "a nação e seus cidadãos, mantendo os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública por meio de nosso processo de vistos". A pasta acrescentou que continuaria trabalhando com o Brasil para promover "interesses comuns de longa data". A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA disse estar comprometida em colaborar com as autoridades brasileiras para promover "objetivos de segurança e combater o crime transnacional".

A Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores se recusaram a comentar. O ministério, que supervisiona a alfândega, a receita e o controle de fronteiras do país, afirmou que as duas nações mantêm um diálogo com o objetivo de trocar boas práticas e combater o crime transnacional.

O que observar daqui para frente

Robert Muggah, especialista em segurança e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, resume o momento: "A percepção é de que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil se tornou intrincada com a política interna". Ele pondera que isso "não levou a uma ruptura fundamental", mas "introduziu novas complexidades na relação e a impregnou com níveis de desconfiança".

Jimmy Story, ex-embaixador dos EUA e sócio fundador da Global Frontier Advisors, aponta o risco da abordagem: "Queremos que o Brasil esteja mais próximo dos Estados Unidos, e não mais distante. E esse tipo de diplomacia tem o efeito contrário."

Um recapitulador dos pontos travados e dos que seguem abertos ajuda a dimensionar o momento:

Ponto da cooperaçãoSituação
Vistos de 2 agentes da PF (postos em Miami e Nova York)Retidos pelo Departamento de Estado
Visto de 1 agente da lei americano para BrasíliaBloqueado pelo Brasil
Visita de quase uma dúzia de agentes da Receita a WashingtonNegada; agenda americana só abre em novembro
Adido da PF nos EUA (Marcelo Ivo de Carvalho)Expulso em abril
Adido do ICE no BrasilMantido há mais de duas décadas
Designação das 2 maiores facções como organizações terroristasAplicada em maio, após pressão de Flávio Bolsonaro

Os pontos de atenção para os próximos meses são concretos: a negociação dos vistos entre as duas chancelarias, a agenda americana que só abre espaço a partir de novembro, o desfecho das eleições brasileiras em outubro e os canais que continuam funcionando na base, como o sistema de alerta sobre contêineres suspeitos. Também vale acompanhar como a designação das facções como organizações terroristas seguirá sendo aplicada — e se novas operações policiais voltarão a ser antecipadas por sanções americanas.

A parceria entre as duas nações mais populosas do hemisfério vive um paradoxo: a cooperação técnica resiste na ponta, enquanto a coordenação de alto nível trava. Para quem investe, o recado é de atenção ao ruído político, não de pânico.