A CSN (CSNA3) pretende assinar em cerca de duas semanas o contrato que transfere a CSN Cimentos ao vencedor da disputa, e o processo segue aberto, sem exclusividade. As propostas na mesa estão entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões — abaixo dos R$ 15 bilhões que a holding mirou no início das tratativas —, enquanto a dívida da companhia somava R$ 42,1 bilhões ao fim do segundo trimestre de 2026. É esse contraste que define o que a operação entrega, na prática, a quem acompanha a ação.

Dois finalistas e nenhuma porta fechada

A apuração com fontes ligadas às negociações aponta dois grupos na etapa final: a chinesa Huaxin e o consórcio da Votorantim Cimentos com a italiana Cementir. Ambos fazem os últimos ajustes nas propostas, e o critério de escolha é o preço — quem oferecer mais leva o ativo.

A ausência de exclusividade é deliberada. A lógica relatada por uma das fontes é manter os dois concorrentes na mesa até o fim, preservando a competição pelo preço final. Se o vencedor pedir exclusividade depois de escolhido, ela valerá poucos dias e servirá apenas para a assinatura do contrato de compra e venda.

No começo da semana, chegou a circular a hipótese de uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) para a divisão de cimentos. A área de relações com os investidores da companhia descartou a alternativa logo depois.

As ofertas ficaram aquém da cifra perseguida por Benjamin Steinbruch, ex-CEO da holding, o que dá a dimensão do ajuste de expectativa embutido na operação.

De 3,49x para 2,98x: o alívio que a venda compra

O ponto mais concreto para o investidor aparece no relatório da Genial Investimentos assinado pelo analista de ações Luca Vello. Numa venda na faixa de R$ 12 bilhões, metade do montante iria para quitar o empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão — dívida de curto prazo garantida pelos próprios ativos de cimento. Com isso, a alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), sairia de 3,49x para 2,98x, nível compatível com a meta da CSN para dezembro.

Com R$ 15 bilhões, o indicador recuaria ainda mais, para 2,73x. A diferença entre os dois cenários separa um cumprimento apertado de meta de um desalavancamento com folga — e é esse intervalo que a ação passa a digerir.

Cenário de vendaDívida líquida/EbitdaLeitura
Situação atual3,49xPressão de alavancagem
Venda a R$ 12 bi2,98xDentro da meta de dezembro
Venda a R$ 15 bi2,73xFolga adicional

Nenhum dos cenários zera o endividamento: o passivo remanescente segue como o item mais pesado do balanço e é o que explica o esforço para fechar a operação ainda neste ano.

Em valor por ação, a Genial calcula que R$ 12 bilhões acrescentam R$ 2,44 ao valuation da CSN; se a operação for fechada nesse patamar ou acima, o ajuste adicional chega a R$ 0,50. No relatório, a Genial trabalha com preço-alvo de R$ 7 para o papel, o que implica potencial de 22%.

US$ 140 por tonelada: o prêmio que o comprador aceita

Visto pela métrica do setor, R$ 12 bilhões equivalem a US$ 140 por tonelada de capacidade instalada. O número é 41% superior aos US$ 100 por tonelada pagos pela própria CSN na aquisição da Holcim Brasil, em 2021.

Esse diferencial tende a indicar que a capacidade de cimento no país foi reprecificada para cima em cinco anos, movimento que a disputa entre dois grupos industriais ajuda a explicar. Para o comprador, o prêmio é o custo de entrar — ou de ampliar — presença num mercado concentrado.

O comprador escolhido muda o calendário no Cade

O perfil do vencedor altera o tempo de fechamento. As cinco maiores produtoras detêm cerca de 80% dos ativos do setor, e a combinação de Votorantim com Cementir uniria líderes de mercado — cenário que tende a levar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a exigir remédios e a alongar o processo.

A Huaxin chegaria por outro caminho. Presente no Brasil desde 2025 com a Embu, a chinesa se tornaria a segunda maior produtora do país num único movimento, sem sobreposição com os ativos que já opera — desenho, em tese, mais simples de aprovar.

O que observar até a assinatura

  • O preço final da proposta vencedora, comparado à faixa de R$ 11 bilhões a R$ 12 bilhões hoje estimada.
  • Se o comprador escolhido pedirá exclusividade e por quantos dias ela valerá.
  • O desenho do negócio e o tempo de análise no Cade, que muda conforme o comprador.

As duas semanas até a assinatura funcionam como primeiro teste. Fechar o negócio aproxima a CSN da meta de alavancagem para dezembro e reduz a dependência do empréstimo-ponte atrelado aos ativos de cimento. A distância entre os R$ 15 bilhões pretendidos e a faixa hoje estimada é o que sobra para a ação digerir.