A Tesla (TSLA) vai encerrar a produção do Cybertruck no ano que vem, anunciou Elon Musk na sexta-feira, em um desfecho para um dos projetos mais controversos da montadora. O picape elétrico chegou a registrar 1 milhão de reservas, mas o volume de entregas ficou muito aquém disso: estimativas de especialistas do setor apontam cerca de 71 mil unidades vendidas desde o início das entregas, em novembro de 2023.

Um lançamento que dividiu a plateia

Quase sete anos atrás, durante a apresentação do veículo, o designer-chefe Franz von Holzhausen arremessou uma esfera metálica contra a janela do motorista, e o vidro trincou duas vezes até o fim do evento. A plateia passou do espanto e até da repulsa ao aplauso e, em seguida, à adesão quase unânime, a ponto de formar fila para dar voltas no modelo.

Essa empolgação chegou às reservas. Na teleconferência de resultados do terceiro trimestre de 2023, Musk afirmou que os pedidos antecipados tinham atingido 1 milhão de unidades. No entanto, a conversão em vendas ficou longe disso: as entregas começaram em novembro de 2023 e, pelas contas de especialistas do setor, cerca de 71 mil veículos foram comercializados desde então.

Por que a demanda não sustentou o projeto

O desenho radical pode ter afastado parte dos compradores, mas um veículo com essa proposta já nasceria voltado a um público restrito. Na avaliação da redação, a explicação mais consistente é que restrições práticas contiveram a procura com mais força que o visual.

Musk havia prometido autonomia de 500 milhas, algo em torno de 800 km, e preço inferior a US$ 40 mil. Segundo a reportagem que acompanhou o tema, o modelo não cumpriu nenhuma das duas metas. Para o investidor, o caso ilustra a diferença entre demanda por narrativa e demanda por produto: reservas medem interesse, ao passo que as entregas revelam quanto o consumidor está disposto a pagar pelo que recebe de fato.

Zipline chega a US$ 21,5 bilhões com a Walmart

Fundada em 2014, a Zipline, empresa de entregas por drones, foi o destaque financeiro da semana. No começo de 2026, ela captou US$ 600 milhões e somou mais US$ 200 milhões ao aporte da sua rodada Série H, nome dado a uma etapa de captação de capital de risco (investimento de fundos em empresas em crescimento).

Agora, a companhia anunciou a captação de US$ 1,5 bilhão e ampliou a parceria com a Walmart (WMT) para acrescentar 300 locais de entrega por drones nos Estados Unidos. Com isso, sua avaliação de mercado, o chamado valuation (valor atribuído à empresa), chegou a US$ 21,5 bilhões. O plano original já previa acelerar a expansão para pelo menos quatro cidades americanas em 2026, objetivo que agora ganha outra dimensão.

Uma avaliação desse porte pressupõe execução em escala. Para quem acompanha o caso, o indicador mais útil é o ritmo com que os 300 locais saem do papel e passam a operar, mais do que o tamanho das rodadas.

Captações e aquisições da semana

Outros negócios do período:

EmpresaOperaçãoNúmeros
HarbingerRodada Série D para expandir produtos em armazenamento de energia e defesaUS$ 240 milhões; startup de caminhões elétricos; valuation não divulgado
Humble RoboticsRodada Série A liderada pela Obvious Ventures, com participação de Eclipse, Energy Impact Partners e outrosUS$ 51 milhões; captação total de US$ 75 milhões, menos de um ano após a fundação
Grupo de mídia digitalAquisição de um site de notícias automotivasPortfólio que já reúne 34 marcas ganha mais uma

Entregas, robôs e disputa por plataformas

A Amazon (AMZN) tornou a Uber (UBER) Eats sua parceira oficial de entregas de restaurantes para assinantes Prime nos Estados Unidos, o que, na prática, encerra o acordo que mantinha com a Grubhub. Já a Waymo deixará de ser exclusiva da Uber em Austin e Atlanta a partir de janeiro de 2028, confirmando meses de especulação do setor.

No campo militar, May Mobility e Forterra passaram para a fase três do ROADS (Robotic Operations for Autonomous Delivery and Sustainment), desafio com premiação do Departamento de Defesa dos EUA para testar e adotar veículos autônomos comerciais em operações militares.

A Serve Robotics anunciou a linha Physical AI Services, ou seja, serviços de IA física (robótica combinada com inteligência artificial em equipamentos que atuam no mundo real). A empresa manterá e ampliará suas entregas autônomas e passará a fornecer tecnologia para outras companhias que fabricam robôs.

Por fim, a startup de micromobilidade (veículos leves de deslocamento urbano, como bicicletas e patinetes) separada da Rivian em 2025 iniciou e depois abandonou, sem alarde, um piloto de bicicleta elétrica de duas rodas no Quênia neste ano, para concentrar recursos em e-bikes de consumo e em veículos autônomos.

Agentes de IA ainda longe da rotina

Previa-se que agentes de IA, programas capazes de executar tarefas em nome do usuário, como reservas e pedidos, passariam a organizar viagens, refeições e corridas em larga escala. Até agora, o uso é marginal. Na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, a Uber informou que apenas quatro corridas foram pedidas por meio de um agente de IA em sua semana mais movimentada de outubro, a semana do Halloween.

Para o investidor, o número mostra o descompasso entre discurso e adoção e sugere que essa frente ainda tem peso reduzido nos resultados de curto prazo.

Ferrari e Ford: demanda e privacidade

O Luce, primeiro elétrico da Ferrari (RACE) e um dos modelos mais polarizadores da marca, já está totalmente alocado para 2027, o que indica que a produção daquele ano tem destinatários definidos. Já a Ford apresentou o que chama de promessa de privacidade, um compromisso explícito de proteger os dados dos veículos e dar aos clientes controle sobre o que compartilham. A montadora também criou um site para explicar como, onde e por que usa essas informações e para mostrar como alterar as configurações.

O que observar nos próximos meses

Três frentes da semana merecem acompanhamento:

  1. Tesla: a saída do Cybertruck mostra que a demanda precisa se sustentar em volume, e não apenas em reservas. O efeito sobre o portfólio elétrico da companhia dependerá do que vier depois.
  2. Zipline: a avaliação de US$ 21,5 bilhões depende de transformar os novos 300 locais em operação recorrente.
  3. Uber: a perda de exclusividade com a Waymo em duas cidades e a nova parceria com a Amazon mostram uma plataforma que diversifica alianças enquanto a automação de pedidos por agentes ainda engatinha.

A combinação desses fatos sugere um setor em que os anúncios grandiosos ainda precisam se traduzir em volume, receita e operação. Para o investidor, a régua mais útil continua sendo a execução medida em números: entregas, locais ativos e corridas efetivamente pedidas.