Principais pontos

  • parte relevante do setor, mesmo após o rali recente, ainda negocia a múltiplos historicamente descontados em relação aos mesmos momentos dos pleitos de 2014, 2018 e 2022
  • O preço-alvo é de R$ 31, o que implica potencial de valorização de cerca de 22%.
  • A MRV (MRVE3) foi a empresa que mais subiu desde as mínimas recentes, com alta de 37%
  • ainda negocia com desconto relevante, o que sustenta a recomendação de compra e o preço-alvo de R$ 37

O Goldman Sachs avaliou o posicionamento das incorporadoras brasileiras a cerca de três semanas do primeiro turno da eleição presidencial e concluiu que parte relevante do setor, mesmo após o rali recente, ainda negocia a múltiplos historicamente descontados em relação aos mesmos momentos dos pleitos de 2014, 2018 e 2022. No centro do relatório estão Cyrela (CYRE3) e Direcional (DIRR3), apontadas como as companhias negociadas pelo menor preço sobre lucro (P/L) projetado e pelo maior prêmio de retorno sobre os títulos públicos de dez anos entre os ciclos analisados.

O prêmio sobre os juros de dez anos é o dado que separa o rali da precificação

Para chegar a essa leitura, os analistas compararam os múltiplos de lucro projetado para os próximos 12 meses e o chamado "earnings yield spread" — o prêmio de retorno das ações sobre os juros nominais de dez anos — nos períodos equivalentes das últimas três eleições. É justamente esse spread o número que a fonte destaca e que não aparece no título: mesmo com as ações subindo, parte do setor passou a oferecer retorno maior frente aos títulos públicos, sinal de que o mercado precifica um cenário conservador. A leitura do Ativo Virtual é que esse prêmio funciona como amortecedor caso a temporada eleitoral ou a trajetória de juros decepcione — e explica por que o Goldman trata o rali recente como recuperação, não como reprecificação completa.

O mapa das recomendações e dos preços-alvo

EmpresaTickerRecomendaçãoPreço-alvoPotencial
CyrelaCYRE3CompraR$ 31cerca de 22%
DirecionalDIRR3CompraR$ 20aproximadamente 97%
CuryCURY3CompraR$ 43
MRVMRVE3NeutraR$ 7
EZTECEZTC3Venda
TendaTEND3CompraR$ 37

Cyrela e Direcional: dois graus do mesmo desconto

A Cyrela é apontada como uma das oportunidades mais atrativas do setor. Mesmo com valorização de 27% desde as mínimas de agosto, a companhia negocia ao menor múltiplo P/L projetado entre os ciclos eleitorais analisados e ao maior spread de retorno frente aos títulos públicos. O preço-alvo é de R$ 31, o que implica potencial de valorização de cerca de 22%.

A Direcional exibe quadro semelhante. Negocia aos menores múltiplos da série histórica e ao maior spread em relação aos juros longos, mas o banco ressalta que os papéis tiveram desempenho inferior ao dos pares e seguem próximos dos menores níveis em mais de 18 meses. O preço-alvo é de R$ 20, com upside de aproximadamente 97% ante o fechamento de 14 de setembro. Para as duas, a recomendação é de compra.

A diferença entre os casos chama atenção. Enquanto a Cyrela já recuperou parte relevante do terreno perdido, a Direcional ainda patina abaixo dos pares — e é essa defasagem relativa que sustenta um potencial de alta muito maior embutido no preço-alvo, ainda que ambas carreguem múltiplos baixos para os padrões eleitorais.

Cury: múltiplo alto, recomendação mantida

A Cury (CURY3) mantém recomendação de compra, ainda que negocie entre os maiores múltiplos do setor. Esse prêmio de qualidade, segundo o banco, reflete a preferência dos investidores por uma combinação de forte geração de caixa, balanço sólido e pagamento de dividendos. Nas conversas com investidores, os analistas identificaram preferência por Cury em detrimento de outras empresas do segmento de baixa renda, sobretudo pela qualidade do balanço e pela distribuição de proventos. O preço-alvo é de R$ 43.

MRV, EZTEC e Tenda: onde o desconto se estreitou

A MRV (MRVE3) foi a empresa que mais subiu desde as mínimas recentes, com alta de 37%, embora partisse de níveis próximos aos menores da última década. Apesar da recuperação, o prêmio de retorno da ação frente aos títulos públicos é hoje um dos mais apertados entre as companhias acompanhadas. O Goldman mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 7.

A EZTEC (EZTC3) também participou do movimento do setor, avançando cerca de 28% desde agosto — desempenho ajudado por notícias envolvendo uma possível locação da Torre Esther. O banco, no entanto, mantém recomendação de venda, argumentando que o desconto em relação aos pares ficou mais limitado após o rali.

Já a Tenda (TEND3) segue entre as preferidas da instituição. Na comparação com o ciclo eleitoral de 2018, a companhia ainda negocia com desconto relevante, o que sustenta a recomendação de compra e o preço-alvo de R$ 37.

O que observar até o primeiro turno

Com o primeiro turno marcado para cerca de três semanas à frente, o relatório sugere que o mercado voltou a monitorar o comportamento histórico dos papéis do setor em períodos eleitorais. Para o Goldman, mesmo após a recuperação recente das cotações, parte importante do segmento continua precificando um cenário bastante conservador — quadro mais evidente nos casos de Cyrela e Direcional. O investidor que acompanha o setor tende a ficar de olho em dois vetores nas próximas semanas: a confirmação (ou não) da queda de juros que embala o discurso de recuperação e a própria dinâmica eleitoral, que historicamente costuma embaralhar a precificação de construtoras antes do pleito.