Principais pontos
- Segundo dados do Banco Central, o rombo nas contas públicas atingiu R$ 1,318 trilhão nos doze meses encerrados em junho.
- Ele alertou que, com uma dívida de R$ 10 trilhões e juros a 14%, a conta no longo prazo é insustentável para qualquer economia.
- A dívida pública bruta, que mensura o endividamento total do governo sem descontar as reservas, fechou junho em 81,9% do PIB, avançando frente aos 81,0% de maio.
O Alerta da Cúpula Bancária sobre as Contas Públicas
A apenas alguns meses do pleito eleitoral, a cúpula do sistema financeiro brasileiro emitiu um sinal de alerta sobre a sustentabilidade das contas públicas. Durante a Febraban Tech, presidentes de Bradesco (BBDC3), Itaú Unibanco (ITUB4), Santander Brasil (SANB11) e BTG Pactual (BPAC11) reforçaram a necessidade de equilíbrio fiscal e ganhos de produtividade. O movimento aponta um déficit nominal que alcançou 9,99% do Produto Interno Bruto (PIB) como um dos principais entraves para o crescimento sustentável da economia e para a redução do custo de capital no país.
A Trajetória da Dívida e o Déficit Nominal
O conceito de déficit nominal considera a diferença entre todas as receitas e despesas do governo, englobando inclusive o custeio da dívida pública através do pagamento de juros. Segundo dados do Banco Central, o rombo nas contas públicas atingiu R$ 1,318 trilhão nos doze meses encerrados em junho. Esse patamar representa uma escalada em relação aos 9,61% registrados até maio e aos 7,27% observados no mesmo período do ano anterior, atingindo o nível mais alto desde 2021 sob o impacto da conta de juros. Uma atualização desses números será divulgada pelo Banco Central na próxima semana.
A dívida pública bruta, que mensura o endividamento total do governo sem descontar as reservas, fechou junho em 81,9% do PIB, avançando frente aos 81,0% de maio. No acumulado desde janeiro de 2023, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência, o indicador cresceu 10,2 pontos percentuais. O Tesouro Nacional projeta que essa proporção continuará em alta até 2029. Já a dívida líquida, que subtrai as reservas internacionais e outros créditos do setor público, atingiu 68,5% do PIB em junho, contra 67,9% no mês precedente.
| Métrica de Endividamento | Junho | Maio | Variação |
|---|---|---|---|
| Dívida Bruta (% do PIB) | 81,9% | 81,0% | +0,9 p.p. |
| Dívida Líquida (% do PIB) | 68,5% | 67,9% | +0,6 p.p. |
O Impacto no Custo de Capital e no Crédito
A leitura do mercado é que a deterioração fiscal eleva o prêmio de risco, forçando a manutenção de taxas de juros mais altas para conter a inflação e atrair investidores. O presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, destacou que o país precisa focar no resultado nominal em vez de debater apenas superávit ou déficit primário. Ele alertou que, com uma dívida de R$ 10 trilhões e juros a 14%, a conta no longo prazo é insustentável para qualquer economia.
Para o setor bancário e para o investidor pessoa física, a restrição monetária prolongada gera efeitos diretos no balanço e na alocação de recursos. O custo de capital elevado dificulta a expansão do crédito, uma vez que o cenário de juros restritivos historicamente costuma elevar a inadimplência e obriga as instituições a emprestarem menos. Na prática, quando o governo precisa remunerar excessivamente sua dívida para atrair investidores, o custo de oportunidade para o setor privado aumenta, resultando em uma desaceleração natural da concessão de crédito. O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, reforça esse raciocínio ao defender o equilíbrio da dívida em relação ao PIB, cobrando vontade política para o ajuste.
Cenário Global e a Agenda de Produtividade
O ajuste local ganha urgência devido a um ambiente externo mais hostil. Gilson Finkelsztain, CEO do Santander Brasil, ressaltou que há uma competição global por capital, com outras economias também elevando suas taxas de juros. Segundo ele, toda a agenda local precisa ter o dobro de esforço para organizar a casa, pois o mundo está mais complexo.
Para compensar o fim do bônus demográfico e o aumento do custo de capital, Roberto Sallouti, presidente do BTG Pactual, apontou a produtividade como a única via de crescimento. Ele citou educação, infraestrutura e o uso de tecnologia, enfatizando a inteligência artificial como motor de uma revolução tecnológica. Segundo Sallouti, esse movimento gera um capex — sigla em inglês para investimentos de capital em bens de produção e tecnologia — enorme que pressiona os mercados no curto prazo, mas tende a entregar ganhos de produtividade inimagináveis no futuro.
