O índice DXY, termômetro que mede o dólar americano contra um conjunto de seis divisas fortes — euro e libra entre elas —, tocou 102,875 pontos na manhã desta quarta-feira (14), em seu maior patamar desde abril de 2025. O combustível veio do CPI americano de setembro, que avançou 0,6% no mês, contra 0,4% em agosto, e acumula 3,7% em 12 meses, conforme o Departamento do Trabalho dos EUA — acima do esperado e longe da meta de 2% do Federal Reserve. Minutos depois da publicação, o dólar à vista no Brasil marcou R$ 5,0551, alta de 0,69%.

A consequência mais imediata do dado não está no nível do índice, e sim nas apostas sobre os juros americanos: a chance de um novo aperto já em 28 de outubro praticamente dobrou em um único dia. É essa reprecificação que reorganiza o cenário de quem investe no Brasil, porque mexe na expectativa de juros, no rendimento dos Treasuries — os títulos do Tesouro americano, referência global de renda fixa — e, por consequência, no apetite por moedas emergentes.

A reprecificação do Fed em um único pregão

Na véspera, a ferramenta FedWatch, do CME Group, atribuía 22,1% de probabilidade a uma elevação dos juros dos EUA; por volta das 10h30 no horário de Brasília desta quarta, a marca havia saltado para 53,7% para uma alta que levaria a taxa à faixa de 4,00% a 4,25% na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc. Na curva de juros futuros, a chance precificada para outubro chegou a 45%, partindo de cerca de 20% apurados pouco antes do número da inflação.

O ponto de partida ajuda a dimensionar o ajuste. Em setembro, o Fomc havia promovido o primeiro aumento de 25 pontos-base desde julho de 2023, levando a taxa para 3,75% a 4,00%, movimento que já respondia a pressões de preços em um cenário mais incerto.

Na avaliação de William Castro, estrategista-chefe da Avenue Securities LLC, “Tivemos um CPI mais forte, que evidencia a resiliência da inflação norte-americana e traz de volta preocupações sobre a trajetória dos juros. Esse resultado pode atenuar o movimento recente de queda nos rendimentos dos Treasuries e reacender a discussão sobre a possibilidade de novas altas de juros pelo Fed”

A surpresa disseminada no núcleo do CPI

Em relatório, a Capital Economics sustenta que a surpresa altista do núcleo do CPI — a medida que desconsidera itens mais voláteis, como alimentos e energia — foi disseminada e não parece vir de fatores temporários. Daí a conclusão da consultoria de que uma nova alta no fim deste mês volta a figurar entre as possibilidades, com riscos altistas sobre a projeção de apenas dois aumentos adicionais de 25 pontos-base cada.

Posicionamento e opções já apontavam dólar forte

Segundo o ING, o posicionamento líquido comprado em dólar americano contra as moedas do G10 — grupo das principais divisas desenvolvidas — atingiu 24% do interesse em aberto na terça-feira (13), excluído o iene japonês, onde as posições compradas seguem excepcionalmente elevadas. Nos mercados de opções, o sinal é o mesmo: as reversões de risco ponderadas pelo DXY com prazo de três meses rondam os picos vistos em março de 2025 e março de 2026.

Francesco Pesole, estrategista de câmbio do banco holandês, lê os indicadores técnicos como sinal de valorização cada vez mais prolongada da moeda americana em um ambiente de petróleo caro. Na visão dele, as expectativas de aperto do Fed seguem mais sólidas do que as da maioria dos outros bancos centrais, o que limita a queda do dólar mesmo em um cenário de recuo do petróleo. A projeção do ING é de DXY permanecendo no patamar de 102 pontos no curto prazo.

No Brasil, o câmbio responde a dois vetores

Minutos após o CPI americano, o dólar à vista registrou máxima intradia de R$ 5,0551, ganho de 0,69%, e manteve o ritmo de alta desde então. Na avaliação de Leonel Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, “A divulgação do CPI aumenta as apostas dos investidores em novas altas de juros pelo Fed, favorece o rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, estimula a entrada de capital estrangeiro nos Estados Unidos e fortalece o dólar globalmente, pressionado a taxa de câmbio brasileira para cima”

Ao vetor externo soma-se o noticiário eleitoral. Pesquisas recentes indicam redução da vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa de segundo turno. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro superou Lula por 2,2 milhões de votos, resultado que surpreendeu o mercado; no dia seguinte ao pleito, segunda-feira (5), o dólar marcou R$ 4,9540, recuo de 5,03%, no patamar mais baixo desde a metade de abril. O segundo turno está previsto para 25 de outubro.

O que essa combinação muda para o investidor

Um dólar globalmente mais forte tende a se traduzir, no Brasil, em pressão sobre preços de bens importados e sobre a inflação doméstica — canal que costuma aparecer com defasagem nos índices de preços e que pesa na discussão sobre a trajetória da Selic. Para quem tem receita atrelada à moeda americana, o movimento tende a favorecer resultados; para quem carrega dívida em moeda estrangeira ou depende de insumos importados, o efeito é de custo maior.

Há também um efeito de segunda ordem. Quando o diferencial de juros entre os EUA e os emergentes se estreita nas expectativas, o capital tende a buscar ativos considerados mais seguros, o que costuma pressionar moedas como o real independentemente do cenário doméstico.

A agenda dos próximos dias concentra dois eventos capazes de mexer com esse quadro: a decisão do Fomc, em 28 de outubro, e o segundo turno, em 25 de outubro. Até lá, cada leitura de inflação americana tem potencial de refazer, em poucas horas, probabilidades como as que o FedWatch exibe — exatamente o que ocorreu nesta quarta.

IndicadorValor
DXY na manhã de 14 de outubro102,875 pontos
Dólar à vista no Brasil (máxima intradia)R$ 5,0551 (+0,69%)
CPI dos EUA em setembro0,6%
CPI dos EUA em agosto0,4%
CPI dos EUA em 12 meses3,7%
Chance de alta do Fed em 28/10 (FedWatch, 10h30)53,7%
Chance na véspera22,1%
Probabilidade na curva de futuros para outubro45% (ante ~20%)
Faixa atual dos juros do Fed3,75% a 4,00%
Faixa em caso de alta4,00% a 4,25%
Posição comprada em dólar vs. G10 (exceto iene)24% do interesse em aberto
Dólar à vista em 5 de outubroR$ 4,9540 (-5,03%)
Segundo turno da eleição presidencial25 de outubro