O dólar à vista terminou o pregão desta terça-feira (6 de outubro) vendido a R$ 4,9756, com queda de 0,52% — o nível mais baixo da moeda americana desde maio. A sessão foi conduzida pelo que o mercado batizou de trade eleitoral: a leitura de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega ao segundo turno em vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O número isolado, porém, esconde o essencial. Real mais forte e juros futuros em queda alteram o prêmio de risco que o investidor exige para carregar ativos brasileiros — e essa conta chega tanto a quem tem títulos públicos na carteira quanto a quem mantém posições dolarizadas.

O real avança pelo segundo pregão seguido

A valorização desta terça vem na esteira do que já havia sido observado no pregão anterior, quando a leitura sobre o cenário eleitoral passou a orientar as mesas de câmbio. Na avaliação de Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, a sessão foi de reprecificação dos ativos brasileiros: as taxas futuras cederam, o dólar perdeu força e a Bolsa recuou em meio à realização de lucros.

Emerson Junior, head de câmbio e contas internacionais da Convexa Investimentos, credita o movimento a uma combinação de fatores externos e internos, na qual o recuo da curva de juros ajudou a pressionar o dólar à vista. “Os investidores mantêm o otimismo com o cenário eleitoral, apostando em uma vitória de Flávio Bolsonaro e na consequente implementação de reformas econômicas e de um rigoroso ajuste fiscal a partir do próximo ano”

Prêmio de risco menor redesenha a conta de quem investe no Brasil

Reprecificação é o termo que o mercado usa quando recalibra quanto exige de retorno para carregar um ativo; no Brasil, essa calibragem aparece com mais nitidez nos juros futuros, termômetro das expectativas para a política monetária. Com a moeda abaixo de R$ 5 e as taxas projetadas em queda, o prêmio de risco embutido nos ativos domésticos tende a encolher.

Na prática, esse alívio costuma aparecer primeiro na marcação a mercado de títulos e nos papéis mais sensíveis ao ciclo interno, enquanto a parcela da carteira voltada à proteção cambial passa a render menos em reais. É um movimento condicionado: dura enquanto durar a expectativa que o sustenta.

DXY a 101.859 pontos: o que vinha de fora

O dólar também perdia força no exterior. O DXY — índice que compara a moeda americana a uma cesta de seis divisas, como euro e libra — operava em baixa de 0,31%, aos 101.859 pontos, por volta das 17h no horário de Brasília, em uma sessão de queda dos Treasuries de prazo longo, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

IndicadorNível na sessãoVariação
Dólar à vista (fechamento)R$ 4,9756-0,52%
DXY (por volta das 17h, horário de Brasília)101.859 pontos-0,31%

A intensidade do movimento local, ainda assim, superou a do índice global — o real se descolou da média das divisas acompanhadas pelo DXY.

O detalhamento do plano fiscal é o que falta

O ponto em aberto é o desenho fiscal. O mercado ainda cobra detalhamento dos planos de Flávio Bolsonaro para as contas públicas, e esse é o fator que pode dar continuidade ao recuo do dólar ante o real. Enquanto o programa não vem à luz, o alívio embutido nos preços permanece ancorado no noticiário do segundo turno.

Para quem acompanha a carteira de perto, três variáveis concentram os próximos sinais: o teor do plano fiscal, a trajetória dos juros futuros e o comportamento dos Treasuries longos. Nenhuma delas se resolve em uma única sessão.

Historicamente, movimentos de alívio atrelados ao calendário eleitoral costumam ser voláteis, porque dependem da confirmação, nas urnas, das expectativas que os sustentam.