O dólar à vista fechou a quarta-feira (14) cotado a R$ 5,0289, com alta de 0,17%, depois de a inflação ao consumidor dos Estados Unidos vir acima do esperado. O CPI — sigla em inglês para o índice de preços ao consumidor — subiu 0,6% em setembro, contra 0,4% em agosto, segundo o Departamento do Trabalho americano. No acumulado de 12 meses, o indicador soma 3,7%, patamar ainda distante da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

O número cheio veio quente, mas a reação do câmbio foi contida, e as apostas sobre os juros americanos terminaram o dia na direção oposta à da manhã. Esse contraste — inflação mais forte de um lado, maioria apontando juros estáveis do outro — é o que dá o tom do pregão.

A virada das apostas: de 53,7% para 65,1%

A ferramenta FedWatch, do CME Group, começou o dia apontando 53,7% de chance de o Fed elevar os juros para o intervalo de 4,00% a 4,25% na reunião do Fomc de 28 de outubro. O Fomc é o Comitê Federal do Mercado Aberto, colegiado que define a taxa básica americana.

Ao longo da tarde, a maioria migrou para o campo da estabilidade. No fechamento, o FedWatch mostrava 65,1% de probabilidade de manutenção dos juros na faixa de 3,75% a 4,00%.

Momento do diaAposta majoritáriaProbabilidade
ManhãAlta para 4,00%–4,25%53,7%
FechamentoManutenção em 3,75%–4,00%65,1%

O CPI não é o índice que o Fed persegue

Mesmo sendo um dos dados mais aguardados pelo mercado, o CPI não é o índice de referência do Fed para medir inflação. Ele funciona como termômetro das apostas sobre o custo do dinheiro na maior economia do mundo. “Tivemos um CPI mais forte, que evidencia a resiliência da inflação norte-americana e traz de volta preocupações sobre a trajetória dos juros”, avalia William Castro, estrategista-chefe da Avenue Securities LLC.

O núcleo do indicador, recorte que deixa de fora itens de preço volátil, como alimentos e energia, costuma ser a medida que revela a pressão mais duradoura sobre os preços. O analista de investimentos Luca Girardi, da Nomad, aponta que “a combinação de núcleo acima do esperado e aceleração anual, com a inflação ainda distante da meta de 2%, reforçou a leitura de que os preços seguem como prioridade do Fed, que elevou os juros em setembro”.

DXY a 102.542 pontos: o dólar avançou lá fora também

Fora do Brasil, a divisa americana também ganhou terreno. Por volta das 17h de Brasília, o DXY — índice que compara o dólar a uma cesta de seis divisas, entre elas o euro e a libra — subia 0,36%, aos 102.542 pontos. O movimento do real, assim, acompanhou o comportamento da moeda no mercado internacional, e a alta de 0,17% ficou abaixo do avanço registrado pelo índice no mesmo intervalo.

Exposição ao câmbio: o que a indefinição sobre o Fed muda

Juros americanos elevados por mais tempo costumam dar sustentação ao dólar frente a moedas emergentes, e o CPI desta quarta recolocou essa discussão na mesa em vez de encerrá-la. Para o investidor brasileiro com exposição internacional — em ativos dolarizados ou em companhias cujos custos dependem de insumos importados —, o que muda é o grau de incerteza.

A reação modesta do real a um dado acima do esperado sugere que o mercado preferiu esperar a reunião do Fomc antes de firmar uma direção. O efeito prático, para quem acompanha o câmbio, é uma volatilidade que tende a se concentrar nos dias que antecedem a decisão, em vez de uma tendência definida de alta ou de queda.

A próxima decisão do Fomc, em 28 de outubro, chega com o placar das apostas em aberto, depois de o FedWatch virar de alta para manutenção dentro de um único pregão. O sinal deixado pelo mercado não é de direção, e sim de indefinição: a inflação americana continua acima da meta de 2%, mas os agentes ainda não fecharam questão sobre o próximo passo dos juros.

Até 28 de outubro, cada nova leitura de inflação dos Estados Unidos tende a mexer novamente com essa maioria — e, por consequência, com a cotação do dólar frente ao real.