Principais pontos
- O impacto fiscal da medida foi estimado pelo governo em R$ 27,8 bilhões, somando os efeitos de 2026 e 2027, e o anúncio saiu a 17 dias do primeiro turno das eleições.
- A aversão apareceu cedo. O dólar chegou a R$ 5,177 na máxima do dia
- Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou Flávio Bolsonaro com 47,2% das intenções de voto no segundo turno, contra 46,8% de Lula.
- O estreitamento do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos é, por definição, um fator altista para o dólar.
O dólar à vista encerrou a quinta-feira em queda de 0,25%, cotado a R$ 5,1392, depois de subir durante a manhã com a reação negativa do mercado ao anúncio de reajuste do Bolsa Família. O impacto fiscal da medida foi estimado pelo governo em R$ 27,8 bilhões, somando os efeitos de 2026 e 2027, e o anúncio saiu a 17 dias do primeiro turno das eleições. A leitura do Ativo Virtual é que o dia colocou frente a frente dois vetores: o ruído fiscal, que empurrou o dólar para cima na abertura, e o chamado \"trade eleitoral\", que devolveu fôlego ao real no fechamento.
Um fechamento em baixa após um dia de aversão
A aversão apareceu cedo. O dólar chegou a R$ 5,177 na máxima do dia, e as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros, contratos que sinalizam a expectativa de juros futuros) de longo prazo passaram a exibir altas. Operador ouvido pela Reuters chamou a atenção justamente para o aumento de despesas, em um quadro que já é de dificuldade para o equilíbrio das contas públicas.
O movimento, no entanto, não se sustentou até o fim da sessão. Na B3, o dólar futuro para outubro — contrato atualmente o mais negociado no mercado brasileiro — cedia 0,29%, aos R$ 5,1515, por volta das 17h03. No acumulado do ano, a divisa passou a registrar baixa de 6,37%.
| Indicador do dólar | Variação | Valor |
|---|---|---|
| À vista (fechamento) | -0,25% | R$ 5,1392 |
| À vista (máxima do dia) | — | R$ 5,177 |
| Futuro para outubro (17h03) | -0,29% | R$ 5,1515 |
| Acumulado no ano | -6,37% | — |
O que o reajuste adiciona ao cenário fiscal
O governo anunciou um reajuste de aproximadamente 15% nos benefícios do Bolsa Família, válido já para os pagamentos feitos em outubro, elevando o piso do programa de R$ 600 para R$ 691 por família. Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que a medida custa R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027.
Para quem acompanha ativos brasileiros, o dado que importa não é o valor isolado de cada ano, e sim o momento em que a despesa entra. A nova cifra se soma a um cenário em que o mercado já monitora a trajetória das contas públicas, e anúncios desse tipo costumam pressionar a ponta longa da curva de juros e o prêmio de risco embutido nos papéis locais.
O trade eleitoral que explica o recuo
O que acabou prevalecendo no fechamento foi a leitura eleitoral. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou Flávio Bolsonaro com 47,2% das intenções de voto no segundo turno, contra 46,8% de Lula. Como a margem de erro é de 1 ponto percentual, os dois seguem tecnicamente empatados, mas o senador ampliou ligeiramente a vantagem numérica: no levantamento anterior, tinha 46,4%, contra 46,2% do presidente.
Nas últimas semanas, o fortalecimento da candidatura de Flávio tem alimentado o \"trade eleitoral\", que se traduz na alta do Ibovespa e na queda do dólar e das taxas dos DIs. Lula ainda é visto com desconfiança por boa parte do mercado, que enxerga a reeleição como empecilho ao controle das contas públicas e, por consequência, da inflação. O Datafolha divulga nova pesquisa eleitoral ainda nesta quinta-feira.
Juros: o diferencial que o mercado já digeriu
Na noite de quarta-feira, o Banco Central cortou a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) em 25 pontos-base, para 13,75% ao ano, e deixou em aberto o próximo passo da política monetária. A decisão saiu com os mercados fechados e depois de o Federal Reserve ter elevado a taxa norte-americana em 25 pontos-base, para a faixa de 3,75% a 4,00%.
O estreitamento do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos é, por definição, um fator altista para o dólar. As duas decisões, porém, vieram em linha com o esperado e já estavam precificadas, o que ajuda a explicar por que a moeda não encontrou espaço para uma alta firme. O mercado tem dado mais peso ao calendário eleitoral do que ao diferencial de juros para definir a direção de curto prazo do real.
