Os ETFs de Bitcoin à vista negociados nos Estados Unidos encerraram outubro com US$ 515 milhões em saídas líquidas, o primeiro mês negativo desde junho, e a virada foi decidida em uma única sessão: na sexta-feira, US$ 643 milhões deixaram esses fundos, cortando uma sequência de quatro dias consecutivos de aportes. O pano de fundo foi a queda do Bitcoin para US$ 77.000 na quinta-feira e a confirmação, pela Binance, de um roubo de aproximadamente US$ 6,3 bilhões em criptoativos.
O placar de outubro
A consolidação dos fluxos diários, feita pela SoSoValue, mostra que o mês fechou no vermelho depois de uma primeira metade de outubro ainda positiva. O saldo negativo não apaga o acumulado do ano: mesmo após os resgates, os fundos de Bitcoin à vista seguem com cerca de US$ 361 milhões em entradas líquidas em 2026. A comparação entre os dois números dá a dimensão do movimento — o mês isolado devolveu mais capital do que o saldo positivo que restou no acumulado do ano.
| Indicador | Bitcoin à vista | Ether à vista |
|---|---|---|
| Resgate na sexta-feira | US$ 643 milhões | US$ 156 milhões |
| Resultado de outubro | −US$ 515 milhões | −US$ 1,61 bilhão (recorde) |
| Acumulado do ano até outubro | +US$ 361 milhões | −US$ 45 milhões |
A sangria de sexta-feira tem dois endereços
O iShares Bitcoin Trust (IBIT), gerido pela BlackRock, e o Wise Origin Bitcoin Fund (FBTC), da Fidelity, responderam pela maior parte do que saiu no último dia útil do mês, segundo a Farside Investors, que acompanha fundo por fundo. A concentração importa: são justamente os dois veículos de maior patrimônio da categoria, e um dia ruim neles muda o sinal do fluxo de toda a indústria.
| Fundo | Gestora | Saída na sexta-feira |
|---|---|---|
| IBIT (iShares Bitcoin Trust) | BlackRock | US$ 234 milhões |
| FBTC (Wise Origin Bitcoin Fund) | Fidelity | US$ 201 milhões |
Ether: um recorde pelo lado negativo
Os ETFs de Ether à vista amargaram US$ 156 milhões em resgates na sexta-feira e fecharam outubro com US$ 1,61 bilhão em saídas líquidas — o pior mês da história desses fundos. O recorde anterior era de US$ 1,42 bilhão, registrado em novembro de 2025. O estrago é mais profundo do que no Bitcoin: o fluxo de outubro apagou todo o saldo positivo captado pelos fundos de ETH ao longo de 2026, que agora somam cerca de US$ 45 milhões em saídas líquidas no ano.
O que a sessão de sexta revelou sobre custódia
A Binance, que concentra o maior volume de negociação do mercado cripto global, confirmou na sexta-feira que hackers drenaram cerca de US$ 6,3 bilhões em ativos digitais da plataforma. O episódio jogou luz sobre um risco que passa ao largo das carteiras de varejo: a custódia dos bitcoins que lastreiam os ETFs à vista fica terceirizada em poucos provedores especializados.
Yishi, fundador e CEO da OneKey, fabricante de carteiras físicas de criptoativos, escreveu no X na sexta-feira que o IBIT estaria sujeito a ameaças de segurança do mesmo tipo, porque deposita na Coinbase a guarda dos bitcoins do fundo. É um alerta sobre concentração operacional, não sobre a integridade do lastro — mas suficiente para explicar por que parte do mercado preferiu reduzir exposição justamente no dia do ataque.
O que isso muda para o investidor
Fluxo de ETF é o termômetro mais rápido da demanda institucional por cripto, e o termômetro de outubro marcou queda. A diferença entre os dois complexos chama atenção: o Bitcoin ainda preserva saldo positivo no ano, enquanto o Ether já opera no campo negativo, o que sugere apetite bem mais seletivo dentro do segmento. Para quem acompanha o mercado brasileiro, a leitura prática é que a volatilidade do BTC tende a chegar à B3 com defasagem e amplificada em ativos de cripto listados localmente.
Vale monitorar três pontos nas próximas semanas: se o resgate de sexta foi pontual ou início de uma sequência de saídas em novembro; se o saldo positivo acumulado pelos fundos de Bitcoin em 2026 resiste a um segundo mês negativo; e se os gestores alteram contratos de custódia após o ataque à Binance. Os dados de fluxo diário da SoSoValue e da Farside Investors são a referência mais direta para essa checagem.
